POR UMA CPLP COM VIDA
ABREU E LIMA
Ao Capitão Abreu e Lima
Concedram estranha honra:
Ele foi convidado a ver
Fuzilar o pai, Padre Roma.
O Capitão Abreu e Lima
Ante a distinção concedida
Se foi de quem a concedeu:
O rei e o vice da Baía.
Se foi para a Venezuela,
Vestir a farda de Bolívar:
Não era a sua, mas pregava
Uma independência com vida. (1)
Ao reler este poema do grande poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, dei comigo a conversar com os meus botões, caindo de novo, na temática da CPLP. Os poetas são assim: permitem-nos divagar e fazer comparações.
Aquando dos Descobrimentos Portugueses, rasgámos auto-estradas mar adentro e chegámos a tudo o que era sítio. Que teria escrito o Padre António Vieira se não tivessemos descoberto o Brasil? Seguramente que grande parte da sua obra teria sido muito diferente... Unindo povos de África, da Ásia e da América, num transplante e fusão de culturas, que tendo por elo o elemento cultural português, foi o mais notável fenómeno antropológico que o mundo já conheceu. A isto Gilberto Freire chamou o luso-tropicalismo, teoria antropossociológica hoje transformada em matéria universitária.
É este património RIQUÍSSIMO E ÚNICO que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem de preservar. Não me canso, pois, de dizer que nos cabe a nós cidadãos (É A TAL COISA DOS DIREITOS DE CIDADANIA DE QUE TANTO NOS ESQUECEMOS) forçar a tecla e obrigar os políticos, que nós elegemos, e os homens que lideram a CPLP, a levar a cabo acções concretas, nas áreas cultural, social, económica e mesmo política...
A CPLP está estatutariamente obrigada a dar continuidade a este património comum e que pertence a todos os países que a integram. No mundo globalizado em que vivemos (e que se iniciou com os Descobrimentos Portugueses) outra coisa não se entende.
Não nos forcem os políticos, a ser um novo Capitão Abreu Lima, obrigando-nos a vestir a farda de Bolívar, para defendermos a vida da CPLP.
acs.
(1) JOÃO CABRAL DE MELO NETO, in A ESCOLA DAS FACAS