AS HORAS
RELÓGIO DA CIDADE: - Dir-vos-ei: todos somos relógios e sabemos que não há cousa que não tenha a sua hora no mundo. O rir, o chorar, o trabalho e o descanso, a fome e a fartura, tudo tem a sua hora; donde procede que não é fora de razão que os homens tratem umas vezes do seu cómodo e outras do seu adiantamento; pois é certo que, para regerem e dirigirem a bons fins e a termos úteis, lhes deu Deus entendimento, que negou às alimárias, a quem deu menos, porque delas não queria receber tanto. Contudo já se sabe que é demasiada fanfarronice que o ditoso não queria alguma hora ser mofino, de andar em sua família para sempre, sem que se possa perder ou alienar. Por isso se diz vulgarmente que tudo tem a sua hora.
RELÓGIO DA ALDEIA: - Não quisera eu, pelo menos, ser o relógio que tal hora lhes desse!
RELÓGIO DA CIDADE: - Mas acrescento que, do mesmo modo, é cativa desconfiança cuidar o miserável que já nunca mais pode haver para ele uma hora de ditoso.
RELÓGIO DA ALDEIA: - Vedes vós? Pois se olharmos bem a cousa, nenhum deles tem grande culpa; porque, por essa própria razão que a uns lhes dura muito a dita e a outros a desgraça, não há quem os despeça de sua larga companhia: aqueles que não se conformam com que lhes falte a envelhecida prosperidade com que se criaram, e estes não podem crer que se lhes mude a contínua miséria que os perseguia sempre.
D. Francisco Manuel de Melo, in RELÓGIOS FALANTES