terça-feira, agosto 05, 2008

14 . ARMILA PRIMEIRA

A DECADÊNCIA DO RISO


" Foi o grande mestre Rabelais que disse: Ride! Ride! Porque o riso é próprio do Homem! Mas como poderia pensar de outro modo o tão profundamente humano abade de Meudon? Quando ele lançava este salutar ditame, o mundo todo, em torno, era alegre e ria! (...) De que provém esta desoladora decadência do riso? Haveria um estudo a compor sobre a "Psicologia da Macambuzice Contemporânea". Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso..."
Este excelente naco de prosa, já com mais de cento e dez anos, faz parte das Notas Contemporâneas de Eça de Queiroz. Faço questão de a trazer hoje aqui, por um lado, para nos deliciarmos com a maravilha da prosa deste que foi um dos maiores escritores que o mundo já conheceu; por outro, para reflectirmos sobre a decadência do riso, que hoje está instalada na nossa sociedade e que já afligia o nosso grande Eça.
Esta coisa da alegria, da ventura, do júbilo ou do regozijo, que tantas vezes se manifesta pelo riso, tem-se vindo a perder ao longo dos tempos. E Eça de Queiroz é capaz de ter razão, quando diz que isso é fruto da civilização que o Homem tem vindo a construir. Se não, notemos que cada vez são menos comuns, no nosso linguajar, expressões populares como: chorar de riso, risão, dar riso, fazer riso de, risada, meter riso a, morrer de riso, rir a bandeiras despregadas, perder-se de riso, riso alvar, riso amarelo, riso cristalino, riso de paz, sorriso, riso franco, riso homérico, sufocar de riso, ter boca de riso, risota e risoteiro, entre muitas outras em que o povo português é fértil.
Amigo e companheiro de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, a propósito da eloquência parlamentar portuguesa, escrevia n'As Farpas, esta delícia: "Os homens medíocres, os espíritos estreitos que em todas as reuniões formam maiorias e dão às assembleias o seu carácter predominante, à força de se imitarem, de se desgastarem em velhas questões, sempre as mesmas, sem princípios, sem ideias, sem estudo, sem interesse na verdade, sem sacrifício, sem elevação acabaram por fazer da eloquência parlamentar portuguesa uma atafona de palavrões estafados, de fórmulas ocas, de velhas imagens pegajosas e safadas, como as cartas dum baralho imundo pelas dedadas sórdidas de vinte anos de bisca. Esta retórica trôpega, relaxada e senil, não podendo criar uma língua forte e digna, deu o ser a um estilo especial de malandragem política; fez a gíria constitucional, a gerigonça parlamentar, o calão burguês".
Se atentarmos bem neste texto, Ramalho Ortigão, se é verdade que aborda um tema sério, não é menos verdade que o faz com elevada dose de humor. De um humor fino e mordaz. Esta notável capacidade de rir dos políticos do seu tempo, fez de Ramalho um dos raros escritores que ainda escreviam com humor, pois tal como Eça nos diz, a capacidade de rir já está em decadência...
Os portugueses sempre tiveram o condão de saber rir, mas, porque somos um povo de extremos, ora rimos, ora ficamos macambúzios. Esta nossa capacidade de satirizar, de rirmos de tudo e de todos, até de nós próprios, ou de rirmos tão simplesmente de alegria, tem tido épocas ao longo da nossa História. Somos um povo com um anedotário riquíssimo, porém hoje ainda estamos com uma decadência de rir, maior do que no tempo de Eça, talvez por culpa da tal civilização que temos vindo a construir, como nos diz o romancista. Confiemos que a nossa capacidade de rir e o nosso anedotário, regressem em breve ao nosso quotidiano.

acs