quinta-feira, janeiro 29, 2009

ARMILA DO ASSOBIO

PORTUGUESA DISTINGUIDA


JOANA CARNEIRO


É jovem. Muito jovem. Chama-se Joana Carneiro e fez o seu curso de música no Conservatório de Lisboa. Já se destacava antes de terminar o curso, mas logo que o concluiu, esta miúda com ar de gaiata, impôs-se no mundo musical. É uma maestrina de mérito e tem feito o seu percurso sempre no estrangeiro, apenas com algumas passagens esporádicas por Portugal.
Agora, a nossa maestrina Joana Carneiro, foi nomeada (no passado dia 15) directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, nos Estados Unidos da América. Foi-lhe reconhecido o mérito, o que é muito justo. Pena é que por cá se contratem maestros estrangeiros para as nossas orquestras.
Como diz o ditado popular, SANTOS DA CASA NÃO FAZEM MILAGRES...
Parabéns Joana e felicidades para a tua carreira.
acs

ARMILA PRIMEIRA

POETAS DA CPLP - ANGOLA


ALDA LARA
(1930-1962)



Alda Lara nasceu em Benguela em 9-6-1930 e faleceu em Cambambe em 30-1-1962. A vida foi--lhe breve. Depois dos estudos liceais feitos em Sá da Bandeira, vem para Portugal, onde inicia o curso de medicina em Lisboa, vindo a terminá-lo na Universidade de Coimbra. Dizem os seus amigos mais próximos que se avida não lhe tivesse sido madrasta, teria sido um grande vulto da medicina. Irmã de Ernesto Lara Filho, outro grande vulto das letras angolanas, conheceu na Faculdade de Medicina de Coimbra, Orlando de Albuquerque, um moçambicano também médico e escritor (hoje residente em Portugal)com quem viria a casar e que após a sua morte compilou em "Poesias" toda a sua produção poética.
A Casa dos Estudantes do Império (CEI) sempre foi um alfobre da intelectualidade dos estudantes oriundos das ex-colónias portuguesas de África. Foi aí que também Alda Lara achou o seu aconchego cultural tendo publicado os seus primeiros poemas no boletim Mensagem da CEI.
Poetisa de primeira água, soube de forma ímpar aculturar na sua obra as suas raízes africanas com a formação académica europeia e a cultura portuguesa. É notável a simbiose que soube fazer entre o neo-romantismo de que tanto gostava, com a sua vivência angolana, oferecendo-nos uma obra fortemente autobiográfica plena duma angolanidade autêntica, alicerçada nos valores humanos.
No campo da prosa Ana Maria Martinho destaca de Alda Lara "... o texto Desencontro (incluído em Contos Portugueses do Ultramar, 1969) e o vol. Tempo de Chuva, de 1973, em que o conto homónimo é um claro exemplo de anti novela, já que rejeita a linearidade diegética a favor de uma leitura lírica e fragmentária das pulsões da guerra e da estranheza do Homem e da Natureza perante a mudança e o excesso."
De Alda Lara encontramos muitos escritos espalhados pela imprensa angolana da época: ABC, O Lobito, Jornal de Angola, Jornal de Benguela, entre outros. Era justo que hoje se reunisse em livro todo este manancial tão disperso... Angola bem precisada está de estudar os seus valores e com eles construir o seu futuro. E nós, povos da CPLP também.
acs

segunda-feira, janeiro 26, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - ANGOLA


TRAMPOLIM

Mãe:
Deixa-me saltar no trampolim...
Deixa-me ser como os outros,
Gritar
Empurrar
Saltar nos trampolins que há por aí!


Mãe:
Não me prendas mais...
Já que não posso ser acrobata,
serei palhaço
A fingir, que também
sou capaz
De dar saltos no espaço!...


...Mas ficar, não!
Deixa-me tentar...
Deixa-me saltar o trampolim!

Alda Lara

sexta-feira, janeiro 23, 2009

ARMILA PRIMEIRA

POETAS DA CPLP


ONÉSIMO DA SILVEIRA


Onésimo da Silveira, poeta, ficcionista e ensaísta cabo-verdiano, nasceu no Mindelo em 10.2.1935, fez os estudos liceais em S. Vicente e em 1956 percorre a tradicional rota do povo das ilhas e vai para São Tomé e Príncipe. Aliás, S. Tomé é tema recorrente da literatura e dos Cantos populares de Cabo Verde.
Em S. Tomé e príncipe convive com o meio intelectual do outro arquipélago do Atlântico e em 1960 parte para Angola, onde na cidade de Sá da Bandeira continua os estudos que lhe permitirão ingressar no ensino superior. É também aqui que convive com os escritores ali radicados, particularmente com os ligados à Editora Imbondeiro e à Sociedade Cultural de Angola. Edita aqui o seu primeiro livro, na Colecção Imbondeiro, um livro de contos, com o título: "Toda a Gente Fala: sim, senhor".
Em 1964 vem para Lisboa, onde inicia a sua militância política no PAIGC, o que o leva até à França, à China, à Holanda e à Suécia, onde acaba por se licenciar em Ciências Sociais.
Na sua obra Onésimo da Silveira revela-se-nos um ilhéu típico: agarrado às raízes do arquipélago, mas que ultrapassa a vastidão do mar e deambula por todo o mundo. O mundo é seu, as ilhas o seu lar acolhedor.
Em "A Língua Portuguesa: Herança Comum", ao afirmar que «a colonização portuguesa, sem o programar, tinha criado nas ilhas desertas uma sociedade nova, com coloração fortemente ocidental. Talvez sem o desejar tinha acabado de dotar essa mesma soiedade duma ferramenta política e institucional de formato e inspiração ocidental», Onésimo da Silveira está a entender a crioulidade de Cabo Verde, exactamente como a luso-tropicalidade de que nos falava o brasileiro Gilberto Freire, nos anos 60 do SEC. XX. Estão ambos em sintonia; e foi esta luso-tropicalidade que sempre esteve na génese do que hoje é a CPLP, como já tenho dito noutras ocasiões.
acs

quinta-feira, janeiro 22, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - CABO VERDE

UM POEMA DIFERENTE

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Sem gemidos de homens desterrados
na quietação da sua existência

Um poema
Sem crianças que se alimentem
do leite negro das horas abortadas

Um poema
Sem mães olhando
o quadro dos seus filhos sem mãe

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Sem braços à espera de trabalho
nem bocas à espera de pão

Um poema
Sem barcos lastrados de gente
a caminho do sul

Um poema
Sem palavras estranguladas
nas grades do silêncio

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Com seiva nascendo no coração da Origem
Um poema
Com batuque e tchabéta
e badias de Sta Catarina
Um poema
Com saracoteio d'ancas
e gargalhadas de marfim
O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
sem homens que percam a graça do mar
e a fantasia dos pontos cardeais!

Onésimo da Silveira

sexta-feira, janeiro 16, 2009

ARMILA PRIMEIRA

FOI HÁ 60 ANOS


GRUPO SURREALISTA DE LISBOA

Foi no último andar do n. 25 da Travessa da Trindade em Lisboa, que no dia 19 de Janeiro de 1949, o Grupo Surrealista de Lisboa, constituído por jovens artistas e escritores- Alexandre O'Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Marcelino Vespeira, provocaram um pequeno "terramoto" na sociedade lisboeta ao efectuarem a sua primeira e única exposição. Foi há 60 anos.
O Surrealismo foi uma corrente literária e artística de origem francesa que teve o seu apogeu entre as duas Grandes Guerras e teve a sua primeira apresentação feita por André Breton, com o seu Manifesto de 1924 e em que o movimento é apresentado como um automatismo psíquico puro através do qual se pode exprimir o funcionamento real do pensamento.
Em Portugal foi nos finais os anos 30 que com António Pedro se começou a falar do Surrealismo, então denominado super-realismo ou sobrerrealismo. António Pedro aderiu em 1936 ao surrealismo inglês, depois de em 1935 ter assinado em Paris o Manifesto Dimensionista com outros nomes como Marcel Duchamps e Francis Picabia.
Em 1948, porém, por divergências entre José-Augusto França e Cesariny é criado por este e António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira, Pedro Oom e Cruzeiro Seixas, o Grupo Surrealista Dissidente.
1949 é o ano que marca as principais manifestações dos dois grupos surrealistas, mas o Grupo Surrealista de Lisboa destaca-se, quando no dia 19 de Janeiro atira a pedra no charco do marasmo cultural em que Portugal vivia, inaugurando a sua primeira e única exposição. Ali foram lançados os primeiros quatro Cadernos Surrealistas, o Catálogo da Exposição, A Ampola Miraculosa de O'Neill, Proto-Poema da Serra d'Arga de António Pedro e Balanço das Actividades Surrealistas em Portugal de José-Augusto França.
Era intenção dos surrealistas intervir nas eleições para a Presidência da República, tomando o partido de Norton de Matos contra Carmona. Impedidos pela Censura, foram obrigados a alterar a capa do Catálogo, por outra com um enorme X.
José- Augusto França, que doou à sua cidade natal as obras que constituem o Núcleo de Artes Contemporâneas de Tomar (embrião do futuro Museu de Artes Contemporâneas, deseja-se) é um dos surrealistas ainda em actividade. É pois justo que seja a Câmara Municipal de Tomar, por intermédio do Núcleo de Arte Contemporânea de Tomar, a evocar a efeméride durante todo o ano de 2009, tendo como ponto de partida a Mesa Redonda que terá lugar já no próximo doa 19 no Clube Thomarense e em que participarão além de José-Augusto França, Cristina Azevedo Tavares, Raquel Henriques Silva e Rui Mário Gonçalves.
O Núcleo de Arte Contemporânea de Tomar, conta no seu acervo com um importante conjunto de obras produzidas pelo Grupo Surrealista de Lisboa, talvez, mesmo, a melhor colecção dos artistas do Grupo.
acs

quinta-feira, janeiro 15, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

MEMÓRIA


LOUIS BRAILLE E CHARLES DARWIN


Por coincidência, 2009 é um ano de efemérides felizes. Foi em 1809 que, por exemplo, nasceram Louis Braille (1809-1852) e Charles Darwin (1809-1882). Comemoramos agora o bicentenário do nascimento destas duas grandes figuras mundiais.
Louis Braille foi o inventor do chamado Alfabeto Braille, que consiste em pontos salientes, cujas 64 combinações permitem utilizá-los na escrita e na leitura. Tiveram ainda aplicação na notação musical, na estenografia e no cálculo. É graças a ele que os cegos de todo o mundo conseguem ler e escrever.
Para celebrar a data, a Biblioteca Nacional Portuguesa descobriu a melhor forma de homenagear Louis Braille, inaugurando a Área de Leitura para Deficientes Visuais, uma zona com mais de 500 metros quadrados. Todas as zonas de trabalho estão integradas num espaço exclusivo para cegos, incluindo o depósito das colecções. A Biblioteca Nacional Portuguesa renovou toda a logística para os trabalhos de digitalização e impressão em Braille, reforçando as actividades de leitura e gravação objectivando na preparação de livros sonoros.
Parabéns pois à Biblioteca Nacional Portuguesa. Isto é a todos, nós portugueses.
**********
Charles Darwin, naturalista, foi o autor da teoria da evolução das espécies. Trata-se duma teoria biológica que está na base da profunda modificação do pensamento filosófico e científico moderno.
Depois de estudar medicina, botânica, geologia e teologia, fez uma expedição ao Pacífico e à América do Sul. Foi nessa viagem, de cinco anos, que nasceram e foram aperfeiçoadas as suas ideias sobre as espécies biológicas. Em 24 de Novembro de 1859 publica a sua principal obra: Sobre A Origem das Espécies, pela Selecção Natural.
Darwin veio a Portugal, tendo sido recebido por professores da Faculdade de Ciências de Lisboa, dada a vasta e importante experiência portuguesa em África, na América e na Ásia.
acs

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

O ERRO DE SÓCRATES

SALVEMOS O CONVENTO DE CRISTO

Na sua penúltima edição, noticiava o semanário Expresso, mais do que o estado degradante, o estado de eminente ruína em que se encontram alguns dos maiores valores da nossa monumentalidade. São eles o Convento de Cristo em Tomar, o Mosteiro da Batalha, o Mosteiro de Alcobaça e a Sé de Lisboa. Da reportagem ressalta que o que se encontra pior é o Convento de Cristo.
É no mínimo preocupante. A responsabilidade é de todos os governos que nos têm desgovernado ao longo destes anos todos. Hoje porém, a responsabilidade cabe a José Sócrates e é a ele que devemos (e temos a obrigação) de exigir responsabilidades. Mais: TEMOS A OBRIGAÇÃO DE EXIGIR ACÇÃO IMEDIATA, pois se tudo se destruir, não haverá dinheiro, nem haverá QUEM ponha de novo tudo em pé.
O Monumento de Tomar foi o berço dos Descobrimentos Portugueses. Foi no Convento de Cristo que o Infante D. Henrique delineou ao pormenor com todos os seus conselheiros a Grande Ousadia e foi com a fabulosa fortuna da Ordem de Cristo que Portugal deu início à Primeira Era da Globalização. A Janela da Sala do Capítulo é uma maravilha da Arte Portuguesa e é considerada, por muitos especialistas de renome mundial, a mais bela janela do mundo. Grande parte da História de Portugal está ali, INTEIRA.
O Convento de Cristo data já do SEC. XII e é um dos principais monumentos da arquitectura portuguesa, que documenta profusamente todas as etapas estéticas do SEC. XII ao XVIII. É pois obra única e de rara beleza, mas acima de tudo é um acervo raro da nossa História.
É certo que vivemos um momento económico particularmente difícil. Isso porém, não justifica o injustificável. Afirmou há pouco tempo o primeiro-ministro, José Sócrates, que não fazer investimento pública, no actual momento, não é apenas um erro político: é, também um erro moral. De acordo. Mas não recuperar um património como o Convento de Cristo, que é de Tomar, é nacional e é mundial, graças à UNESCO, também não é só um erro político. É, garantidamente, um erro moral e um crime. Sr. Primeiro-Ministro, faça o novo aeroporto de Lisboa, porque é urgente, mas não invista um tostão no CAV - Comboio de Alta Velocidade (rejeito o galicismo TGV), pois são muitos milhões para ganhar escassos minutos para ir de Lisboa ao Porto, e para Espanha também pouco se ganha. Invista esse dinheiro na recuperação da nossa Memória Colectiva. Que é o mesmo que investir no Turismo Cultural, o que em Portugal, será como que o ovo de Colombo... Para isso até tem verbas da União Europeia e talvez da própria UNESCO. Creia que investir no nosso Património Cultural, também dá votos. Até talvez mais do que o alcatrão.
É tempo dos portugueses começarem a pensar em sentar no banco dos réus os políticos, pelas medidas que não tomaram em favor de outras que lhes dão mais votos.
acs

ARMILA LITERÁRIA

EFEMÉRIDE
No centenário do nascimento do Poeta


SURGE ET AMBULA*

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério,
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E tu dormes no outro o sono teu infindo...

A selva faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo...
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo...

Desperta. Já no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula...

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a Voz do Progresso, esse outro Nazareno
Que a mão te estende e diz-te: - África, surge et ambula!

Rui de Noronha

*Levanta-te e caminha

sexta-feira, janeiro 09, 2009

ARMILA PRIMEIRA

EFEMÉRIDE


CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE
RUI DE NORONHA
(1909-1943)

Escritor moçambicano, Rui de Noronha nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo) em 28-10-1909 e aí veio a falecer em 25-12-1943. Foi jornalista e crítico literário de primeira água na imprensa moçambicana - O Brado Africano, África Magazine, O Mundo Português, Moçambique, Miragem e Notícias do Bloqueio, onde também publica muitos dos seus poemas que viriam a ser compilados no livro "Sonetos", editado postumamente.
Rui de Noronha foi um dos precursores da Literatura Moçambicana e é hoje um dos maiores valores das literaturas de Língua Portuguesa, estando antologiado em vários países: Portugal, Brasil, França, Suécia, Estados Unidos da América, Holanda, Itália, Rússia, Argélia e república Checa. Como poucos ele domina a nossa língua, dando-lhe exaltação e doçura, pujança e delicadeza. Homem de formação cultural portuguesa, é um amante e cultor da estética portuguesa oitocentista: Augusto Gil foi sua referência. Isto mesmo se testemunha no ritmo que imprimiu na sua poesia (comparemos a Balada da Neve com Quenguêlêquêze).
Poeta de raízes africanas, exaltou de forma inigualável a vida do povo moçambicano e dos seus valores. Defendeu com denodo os valores da dignidade nacional, sem ódios nem rancores, reescrevendo a história de Gungunhana e de Mouzinho de Albuquerque. Noémia de Sousa, uma poetisa da negritude homenageou-o com "Poema Para Rui de Noronha".
Já naquele tempo, muito antes da luta armada pela independência dos povos africanos, Rui de Noronha lançava o grito em "Surge et Ambula": "...Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério/ E tu, ao Tempo alheia, ó África dormindo..." . Neste poema, como ao longo da sua obra, não manifesta ódios nem rancores. Defende apenas o progresso-"ouve a Voz do Progresso, este outro Nazareno"- de mãos dadas com todos (brancos e negros), ainda que fossem os Moçambicanos a gerir o seu destino. Homem solidário e amigo, Rui de Noronha para todos tinha um sorriso e em todos tinha um Amigo. Em sua homenagem, Elsa de Noronha, sua filha, senhora duma voz portentosa editou em finais do século passado um CD com poemas do pai e de outros autores de todos os países da CPLP, pois Rui de Noronha era um acérrimo defensor da Língua Portuguesa: " A Língua Portuguesa, é verdade que não é das mais fáceis de aprender. Ensine-se-lhe a Língua Portuguesa..."
A obra poética de Rui de Noronha está, hoje, esgotada. Os seus contos continuam (ao que sei) inéditos. No centenário do seu nascimento, a melhor forma do homenagear e de o recordar às novas gerações, seria reeditar a sua obra completa. Confiemos que assim se faça.
acs

quarta-feira, janeiro 07, 2009

ARMILA LITERÁRIA

No Centenário do nascimento do Poeta Moçambicano


QUENGUÊLÊQUÊZE*

"Quenguêlêquêze!...Quenguêlêquêze!..."
Surgia a lua nova,
E a grande nova
-Quenguêlêquêze! - ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,

Loucamente,
Pertubadoramente...

Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...

E ao som das palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas ímpias inimigas
-Obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.

"Quenguêlêquêze! Quenguêlêquêze!"

Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos...

Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um quê diabólico...

"...quêze! Quenguêlêquêze!..."

...Entretanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia ali um cheiro estranho
As cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas...
O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora um ar abafadiço,
Um ar a podridão...
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: "Olha é tua",
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.

- O estrepitar das palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo... foi crescendo...
Lentamente...

Como se fora em brando e afagado leito
Deitaram a criança, rebolando-a,
Na cinza do monturo...
E de repente,
Quando chorou, a mãe, arrebatando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito...

Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p'los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:

«Meu filho, eu estou contente!
Agora já não temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou à lua!
Agora tens abertos os ouvidos
P'ra tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem temer...
Meu filho, eu estou contente!
Tu agora és um ser inteligente,
E assim, hás-de crescer, hás-de ser um homem forte

Até que já cansado
Um dia, muito velho
De filhos rodeado,
Sentindo já dobrar-se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte...
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!...»

Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas, foi morrendo...
E a lua foi crescendo...
- Crescendo
Como um ai...

Rui de Noronha

*QUENGUÊLÊQUÊZE - Ritual da apresentação da criança recém-nascida à lua

segunda-feira, janeiro 05, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

EFEMÉRIDE
NO 60. ANIVERSÁRIO DA ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DA MEDICINA


EGAS MONIZ
(1874 -1955)


Professor universitário, escritor, político, foi, no entanto, como médico que se viria a destacar, tendo-se tornado num dos maiores nomes das ciências médicas a nível mundial. Licenciado em medicina pela Universidade de Coimbra em 1898 onde foi professor, transferiu-se para Lisboa para, em 1911, reger a recém-criada cátedra de Neurologia.
A sua carreira política não nos merece aqui qualquer atenção. Importa isso sim destacar a figura prestigiada e ímpar do médico e cientista que foi António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz.
No campo da investigação científica, Egas Moniz é um pioneiro nas áreas da neurologia e da psiquiatria. Desenvolveu estudos no campo da anatomia viva e funcional dos vasos sanguíneos cerebrais. Efectuou a primeira angiografia cerebral em 1927 e em 1935 concebeu a leucotomia pré-frontal, descoberta de grande importância terapêutica que abriu novos caminhos ao estudo do sistema nervoso central.
Foi por isto que em 1949 (há 60 anos) lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Medicina, o que se deve destacar por se tratar do Nobel da área da medicina. Sessenta anos depois, é obrigatório recordar esta data.

acs

sexta-feira, janeiro 02, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

CENTENÁRIO

ADOLFO SIMÕES MÜLLER
(1909 - 2009)


Nascido em Lisboa em 18.8.1909, é na sua cidade natal que Adolfo Simões Müller vem a falecer em 17.4.1989. Foi uma das mais notáveis figuras da literatura infanto-juvenil. Iniciou a sua actividade literária em 1926 com o livro de poesia Asas de Ícaro.
Todo o fulgor e pujança da sua obra se destaca na singularidade com que se dirige às crianças, numa linguagem acessível, obrigando-os aqui e acolá a tomarem conhecimento com novos vocábulos, por forma a enriquecer o seu léxico. Trabalhou na Emissora Nacional ( actual RDP) tendo escrito inúmeros textos infantis para rádio.
Da vasta obra de Adolfo Simões Müller destacam-se Meu Portugal Meu gigante, Jesus Pequenino, Caixinha de Brinquedos, A Pedra Mágica e a Princesinha Doente, O Feitiço da Cabana Azul, Marie Curie e a Sua Descoberta, A Primeiro Volta ao Mundo: A Vida de Fernão de Magalhães e a Sua Viagem de Circunavegação, O Homem das Mil Invenções: Pequena História de Edison e Seus Inventos, O Grande Almirante das Estrelas do Sul: Pequena História de Gago Coutinho e a Primeira Viagem Aérea ao Brasil.
Notabilíssimas são as suas adaptações infanto-juvenis de obras da Literatura Portuguesa e não só, como Os Lusíadas de Luis de Camões contados aos Jovens, Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, As Viagens de Gulliver de Swift, para além da adaptação de As Mil e Uma Noites.
Durante as décadas de 1930/1940/1950 dirigiu várias revistas, jornais e suplementos de jornais para crianças, como O Senhor Doutor, O Papagaio, O Diabrete, O Faísca, O Mosquito, O Cavaleiro Andante, João Ratão, O Foguetão, Zorro ou A Nau Catrineta. Foi, aliás, nas páginas de O Papagaio que pela primeira vez foram publicadas em Portugal as histórias de Hergé e foi nas páginas de O Diabrete que divulgou algumas das hoje famosas personagens da Banda Desenhada, como Astérix e Lucky Luke.
Educar e instruir os nossos jovens de forma lúdica era uma preocupação constante de Adolfo Simões Müller. Isto está patente em obras como Meu Portugal Meu Gigante, Historiazinha de Portugal, Aventuras do Trincafortes: Pequena História de Luis de Camões e do Seu Poema, O Mercador de Aventura: Marco Polo, a Sua Vida e o Seu Livro Maravilhoso, O Piloto do Navio Fantasma: História Maravilhosa de Ricardo Wagner e a sua Música Genial e ainda O Exército Imortal: Pequena História de Gutenberg e do Livro.
Adolfo Simões Müller foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura Infantil, Prémio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças.
No ano do centenário do seu nascimento (e por coincidência no 2oº sobre a sua morte) é nossa (de todos os portugueses) obrigação celebrar condignamente a efeméride, sobretudo reeditando a sua obra, ou pelo menos grande parte dela.
A sugestão aqui fica.

acs