quarta-feira, junho 03, 2009

ARMILA LITERÁRIA

QUADRAS DE
ANTÓNIO ALEIXO

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que meus versos possam ter.
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Julgam-me muito sabedor;
e é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!
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Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
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Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
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É um moço inteligente
o que passou há bocado;
julga enganar toda a gente,
mas ele é que é enganado.
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P'ra te tornares distinto
e mostrar capacidade,
dizes sempre que te minto,
quando te digo a verdade.
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O meu merceeiro é um santo
a há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só:- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.
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És parvo, mas és distinto,
só vês o bem que tens perto;
não compreendes que te minto
quando te trato por esperto?
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Descreio dos que me apontem
uma sociedade sã:
isto é hoje o que foi ontem
e o que há-de ser amanhã.
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Sem que o discurso eu pedisse,
ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
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Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes - esqueceste
tudo quanto prometias...
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Os que bons conselhos dão
às vezes fazem-me rir,
- por ver que eles próprios são
incapazes de os seguir.
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Eu era mendigo outrora,
tantas esmolas pedi,
que não sei dizer agora
quantas vezes me vendi.
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Fiz do meu estro uma vara
para medir a verdade
e dar com ela na cara
do cinismo e da vaidade.
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Se tudo me foi vedado,
se vivi de tudo à míngua,
deixai que vos mostre a língua
com o freio bem cortado.
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Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.
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Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
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Fizeste-te meu amigo
por teres medo de mim;
não posso contar contigo,
não quero amigos assim.
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Não me faças cumprimentos,
deixa-te de hipocrisias:
o alívio aos sofrimentos
não se dá com cortesias.
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Negociando viveste,
tens dinheiro e excelência;
são coisas que recebeste
a troco da consciência.
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Jesus disse que se amassem
aos que cristãos se proclamam;
não disse que se matassem,
e eles matam-se e não se amam.
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S. João, reparem nisto,
teve este grande condão:
ao baptizar Cristo
foi quem fez Cristo cristão.
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Gosto de apertar a mão
áspera dos calos que tem;
também as côdeas de pão
são ásperas, mas sabem bem.
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O pão negro, onde ele é raro,
faz sempre melhor figura
do que o pão alvo e mais claro
na mesa onde há fartura.
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Roubou-lhe p primeiro beijo
o patrão, que a iludiu...
hoje o seu corpo é sobejo
da casa onde serviu.
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Perdida de canto a canto,
dormindo em qualquer portal;
se era rica, causa espanto,
se era pobre... é natural.
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(Reconhecendo a sua incapacidade para cuidar da filha tuberculosa)

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.

terça-feira, junho 02, 2009

ARMILA LITERÁRIA

O POETA DO POVO

ANTÓNIO ALEIXO
(1899-1949)


António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António a 18-02-1899 e faleceu em Loulé a 16-11-1949. Este poeta popular algarvio foi, no mais rigoroso sentido do termo, um autodidacta. Quase analfabeto, foi pastor, pedreiro, emigrante, tecelão e cauteleiro. Andando de feira em feira vendendo lotaria, improvisava à guitarra e vendia também avulsamente pequenas folhas com quadras e glosas. Foi aliás nas feiras que encontrou motivos de inspiração para a sua obra.
Seu grande Amigo, redactor e compilador da sua Obra foi o professor de Liceu Joaquim de Magalhães, que ao prefaciar em 1943 o seu livro «Quando Começo a Cantar», garante que "embora não totalmente analfabeto - sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros - não é capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto".
Quando a sua obra poética e teatral (Teatro Popular) foi reunida num livro único, com o título Este Livro Que Vos Deixo em 1969 e na sua reedição de 1970, conseguiu o feito inédito de, durante semanas seguidas ocupar o primeiro lugar dos livros mais vendidos em Portugal. E a razão é simples: A FORÇA SINGULAR DAS SUAS QUADRAS, como aliás também nos diz Joaquim de Magalhães: "A razão desta singularidade está em que o conteúdo das quadras e dos esboços de teatro, contidos no volume, correspondia a preocupações morais e aspirações sociais que, já por esse tempo, animavam as consciências de grande número de portugueses. E sob a forma lapidarmente sintética de muitas das quadras do singular poeta algarvio, explodia, ou sorria, a expressão contundente ou contestatária de velados ou explícitos protestos humanos e justos, perante uma sociedade fortemente policiada e dificilmente vulnerável por outras formas directas de crítica ou ataque frontal."
Ironizando bastas vezes a partir de si próprio, a sua crítica social é mordaz e certeira. Dotado de invulgar capacidade de fazer quadras de sabor popular e aforismático, ele sintetiza magistralmente o seu pensamento crítico e moral.
Apesar da sua falta de instrução António Aleixo é um poeta sempre actual. O mundo-cão em que vivemos a isso o obriga. Saibamos nós mudar o mundo.
A leitora deste blogue, Estela Lisboa do Rio de Janeiro, no comentário ao texto que fiz sobre João Cabral de Melo Neto, solicitou que falasse sobre António Aleixo por ele não ser conhecido no Brasil. A apresentação, breve, de António Aleixo aqui está. Na próxima página divulgarei algumas quadras de António Aleixo. A Estela Lisboa, o meu profundo agradecimento por me ter possibilitado falar deste autor da minha preferência.
Para qualquer eventual publicação no Brasil da Obra de António Aleixo (era bonito que uma editora brasileira assumisse a edição) o melhor será contactar a Fundação António Aleixo, entretanto criada. Em Portugal, de momento, as edições estão esgotadas. Aqui fica o sítio na Internet da Fundação, bem como o seu endereço electrónico:
http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt
fundacao.aleixo@mail.telepac.pt
OBRA COMPLETA DE ANTÓNIO ALEIXO: Quando Começo A Cantar (1943), Intencionais (1945), Auto Da Vida E Da Morte (1 Acto) (1948), Auto Do Curandeiro (1 Acto) (1949), Auto Do Ti Joaquim (2 Actos) (inédito até à inclusão em 1969 em Este Livro Que Vos Deixo), Este Livro Que Vos Deixo (1969), Tremem De Medo Os Tiranos (Inéditos) (1978)
acs