quinta-feira, julho 27, 2006

10.ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

O ESTATUÁRIO

Concedo-vos que esse Índio bárbaro e rude seja uma pedra: vede o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro e depois feição por feição, até à mais miuda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar. O mesmo será cá, se a vossa indústria não faltar à graça divina. É uma pedra, como dizeis, este índio rude? Pois trabalhai e continuai com ele (que nada se faz sem trabalho e perseverança), aplicai o cinzel um dia e outro dia, dai uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.

Pde. António Vieira - Sermão do Espírito Santo - Pregado em S. Luis do Maranhão, na ocasião em que ía partir para uma grande missão para o Rio Amazonas

quarta-feira, julho 19, 2006

9.ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

SERVIDÃO E LIBERDADE

É sem dúvida a servidão o mais insuportável dos males e o mais abominável dos flagícios: como nascidos que somos para a liberdade, nossa própria natureza a ela repugna; a existência se nos torna indiferente, e a morte que a termina lhe deve ser preferível. Sentença foi esta de outro grande autor da liberdade, Cícero.
E este sentimento era tão profundamente gravado no coração dos Romanos, que ainda depois de extinta a república se professavam tais princípios: os quais, todavia existiam, e eram, quando menos, veneráveis relíquias do antigo carácter nacional.
Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação prevertida e podre chega a cair neste estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade nem recear para o despotismo... Mas a providência que rege o Universo, e que para a sua eterna ordem equilibrou em todas as partes deles os males com os bens, para que, sendo diversas as suas relações, resultassem o bem geral da divisão e repartição de uns e outros, -a Providência permite que, quando nesse apático estado lentamente agoniza um povo, apareça, para dele o tirar, um agente poderoso que lhe sirva de castigo e de remédio, um tirano cruel e sanguinário, que é para essa enfermidade moral como os estimulantes fortes para a moléstia do físico abatimento.
(...)
Em dois grandes escolhos se perde a liberdade: na tibieza com que se defende, ou na demasia com que dela se goza: evitemos um e outro.

Almeida Garrett - in Portugal na Balança da Europa (1830) - Prólogo