SERVIDÃO E LIBERDADE
É sem dúvida a servidão o mais insuportável dos males e o mais abominável dos flagícios: como nascidos que somos para a liberdade, nossa própria natureza a ela repugna; a existência se nos torna indiferente, e a morte que a termina lhe deve ser preferível. Sentença foi esta de outro grande autor da liberdade, Cícero.
E este sentimento era tão profundamente gravado no coração dos Romanos, que ainda depois de extinta a república se professavam tais princípios: os quais, todavia existiam, e eram, quando menos, veneráveis relíquias do antigo carácter nacional.
Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação prevertida e podre chega a cair neste estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade nem recear para o despotismo... Mas a providência que rege o Universo, e que para a sua eterna ordem equilibrou em todas as partes deles os males com os bens, para que, sendo diversas as suas relações, resultassem o bem geral da divisão e repartição de uns e outros, -a Providência permite que, quando nesse apático estado lentamente agoniza um povo, apareça, para dele o tirar, um agente poderoso que lhe sirva de castigo e de remédio, um tirano cruel e sanguinário, que é para essa enfermidade moral como os estimulantes fortes para a moléstia do físico abatimento.
(...)
Em dois grandes escolhos se perde a liberdade: na tibieza com que se defende, ou na demasia com que dela se goza: evitemos um e outro.
Almeida Garrett - in Portugal na Balança da Europa (1830) - Prólogo
3 comentários:
Liberdade é UM dos maiores bens de uma sociedade.
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