segunda-feira, setembro 25, 2006

11. ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

OS INGLESES NO EGIPTO

O primeiro episódio oriental que eu vi, ao desembarcar há doze anos em Alexandria, foi este: no cais da alfândega, faiscante sob a luz tórrida, um empregado europeu - europeu pelo tipo, pela sobrecasaca, sobretudo pelo boné agaloado - estava arrancando a pele das costas de um árabe, com aquele chicote de nervo de hipopótamo que lá chamam courbacha, e que é no Egipto o símbolo oficial da autoridade.
Em redor, sem que esse espectáculo parecesse desusado ou escandaloso, alguns árabes transportavam fardos; outros empregados agaloados, de chicote na mão, davam ordens por entre o fumo do cigarro...
Saciado ou cansado, o homem da courbacha, que era um magrizela, atirou um derradeiro pontapé à anatomia posterior do árabe - como quem, ao fim de um período escrito com verve, assenta vivamente o seu ponto final - e, voltando-se para o meu companheiro e para mim, ofereceu-nos, de boné na mão, os seus respectivos serviços. Era um italiano, e encantador. A esse tempo o árabe (como quase todos os fellah, um soberbo homem de formas esculturais) depois de se ter sacudido como um terra-nova ao sair da água, fora-se agachar a um canto, com os olhos luzentes como brasa, mas quieto e fatalista, pensando decerto que Alá é grande nos céus e necessário na terra a courbacha do estrangeiro.
(...)
Esta era a situação ao dia 11 de Junho. Alexandria tornara-se uma fornalha de excitação. Nas mesquitas pregava-se com furor a cruzada contra o cristão: nos bazares falava-se do estrangeiro como cão maldito, da ave de rapina, pior que o gafanhoto que devora a seara, pior que a seca do Nilo; e, ou fosse o fanatismo que despertasse, ou fosse a miséria que se queria vingar - todo o bom muçulmano se armava.
Nestas circunstâncias, de uma chufa de botequim pode nascer uma guerra de raças. E, pouco mais ou menos, assim sucedeu. Na manhã do dia 11, na Rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglês, por um velho hábito, deu chicotadas num árabe; mas contra todas as tradições, o árabe replicou com uma cacetada. O inglês fez fogo com o revólver. Daí a pouco o conflito entre europeus e árabes, em pleno furor, tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas - até que, por ordens telegrafadas do Cairo, a tropa, até aí neutral, acalmou as ruas. E o resultado, bem inesperado, mas compreensível, desde que se sabe que os árabes só tinham cacetes e que os europeus tinham carabinas - foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos árabes dizimados. Os jornais têm chamado a isto o massacre dos cristãos: eu não quero ser por modo algum desagradável aos meus irmãos em Cristo, mas lembro respeitosamente que a isto se chame a matança dos muçulmanos.

Eça de Quieroz - in Cartas de Inglaterra

2 comentários:

Anónimo disse...

É por estas e por outras que o mundo está como todos sabemos. Depois dos erros cometidos os ingleses, e americanos, para além de muitos outros, pensam que continuam a mandar em tudo. Pior que esse é o seu direito. Nós Portugueses também cometemos os nossos erros, mas redimimo-nos. Os outos continuam a ser uns déspotas.

Anónimo disse...

Obrigado Eça, por nos teres dado estes testemunhos. Obrigado ao Armilar por no-los lembrar e dar a conhecer. Continuem