quarta-feira, junho 20, 2007

9- ARMILA LINGUÍSTICA

SENSIVELMENTE


Ainda não entendi porquê, mas o certo é que anda por aí, no linguajar do nosso quotidiano, a propósito de quase tudo e quase nada a expressão "SENSIVELMENTE, CERCA DE..." , em frases como "isto aconteceu SENSIVELMENTE, CERCA DAS duas da tarde", ou "isso será SENSIVELMENTE, POR VOLTA DAS dez horas".
SENSIVELMENTE, aqui surge-nos com o sentido de rigor e de perceptibilidade, enquanto que CERCA DE e POR VOLTA DE, mais não querem dizer do que APROXIMADAMENTE.
Devemos dizer tão-só SENSIVELMENTE às tantas horas, se pretendermos ser exactos e CERCA DAS tantas horas, se pretendermos dar uma ideia aproximada de quando o facto ocorreu ou vai acontecer.

acs

5- ARMILA D' A ACÇÃO

AS CONTRIBUIÇÕES FINANCEIRAS PARA A UNIÃO EUROPEIA

Na sua edição nº 745 de 14-06- 07 (pág. 37), a revista Visão dá-nos notícia de um estudo feito pela consultora Deloitte, por encomenda do Parlamento Europeu e que foi agora divulgado.
Ficamos assim a saber que, em função do PIB, Portugal é o país que mais conribui para o orçamento da União Europeia. Assim, e segundo os exemplos dados pela Visão, Portugal contribui para a União Europeia com 0,96% do seu PIB, enquanto que a Espanha comparticipa com 0,93%, a França com 0,91%, a Alemanha com 0,78%, o Luxemburgo com 0,72% e o Reino Unido com 0,54%.
A revista Visão adianta ainda a opinião do deputado socialista Paulo Casaca, que pertence à Comissão dos Orçamentos do P E, segundo a qual os dados traduzem "um sistema perverso, em que os países mais pobres são os que mais pagam e os mais ricos os que menos pagam".
Parece que os políticos, finalmente, tomaram conhecimento duma realidade que os povos europeus há muito conheciam; talvez não pelo dado rigoroso dos números, mas pela brutalidade do custo de vida que sentem no seu quotidiano.
Se o P S pela voz do seu deputado Paulo Casaca, reconhece a imoralidade do sistema, numa Europa que se pretende social, cabe perguntar que vão fazer agora que, com o PS no Governo, Portugal vai assumir a presidência da União Europeia? Será que irão corrigir o que PS, PSD e CDS, em alternância, têm vindo a fazer ao longo dos anos?
Dou um doce a quem, convictamente, acreditar nisso.
acs

quarta-feira, junho 13, 2007

16. ARMILA LITERÁRIA

A VOZ DOS POBRES


Este modo de sentir, em que havia mais leviandade do que dureza, tem sido, nestes últimos anos, inteiramente modificado, louvado seja Deus, e louvado seja Paris. Muitas causas determinaram esta evolução, que é uma considerável revolução moral. Mas a principal é que o pobre saiu do seu obscuro e silencioso opróbrio, apareceu como classe, revelou a sua força e falou. Apesar de todas as revoluções, o pobre, em França, permanecera sempre, de facto, calado. Ainda em 1848, durante um período aliás repassado de hunanitarismo sentimental, se gritava na Assembleia Nacional e com apluso de todas as classes: "Silêncio ao pobre!" O pobre era um mudo, que passava isoladamente na sombra e de olhos baixos. De vez em quando, furioso, roubava uma espingarda, e assaltava a sociedade. O exército acudia, sufocava a escandalosa revolta. A sociedade respirava, e continuava o jantar interrompido, declarando com indignação que o pobre era uma fera. E o pobre, como uma fera, recolhia silenciosamente ao seu covil.
O seu primeiro triunfo foi quando, em vez de se revoltar, se começou a exoplicar, tranquilamente, como um ser sensato e cheio de justiça. Esta voz, triste e profunda, impressionou, foi escutada.
O rico só desde então verdadeiramente conheceu o pobre - começou a saber o que é ser pobre. As duas classes viviam totalmente separadas, uma no seu escuro inferno, outra no seu vistoso paraíso - e os paletós bem alcochoados, só tinham uma noção muito vaga de que havia farrapos, por os avistar de longe, na rua e na penumbra. Em Londres, há dez ou doze anos, foi uma tremenda surpresa quando, por ordem do Parlamento, se fez um demorado inquérito aos slums, os bairros indizivelmente miseráveis, onde vive, ou antes, onde lentamente morre a mais desgraçada, faminta e lúgubre populaça de toda a Europa. O quê!
Havia pois famílias que andam quase nuas, e dormem durante os mais duros Invernos na terra húmida, e comem apenas as hortaliças podres que são apanhadas à noitinha no lixo e nos enxurros, à roda dos mercados. A gente que tem uma conta larga no alfaiate, e é muito difícil na escolha do seu champagne, não podia acreditar que na rica Londres do SEC. XIX houvesse tais vergonhas públicas. E o sentimento geral, mesmo entre os mais duros, foi que misérias tão dolorosas se não deviam permitir numa terra cristã.

EÇA DE QUEIROZ - Cartas Familiares de Paris