A VOZ DOS POBRES
Este modo de sentir, em que havia mais leviandade do que dureza, tem sido, nestes últimos anos, inteiramente modificado, louvado seja Deus, e louvado seja Paris. Muitas causas determinaram esta evolução, que é uma considerável revolução moral. Mas a principal é que o pobre saiu do seu obscuro e silencioso opróbrio, apareceu como classe, revelou a sua força e falou. Apesar de todas as revoluções, o pobre, em França, permanecera sempre, de facto, calado. Ainda em 1848, durante um período aliás repassado de hunanitarismo sentimental, se gritava na Assembleia Nacional e com apluso de todas as classes: "Silêncio ao pobre!" O pobre era um mudo, que passava isoladamente na sombra e de olhos baixos. De vez em quando, furioso, roubava uma espingarda, e assaltava a sociedade. O exército acudia, sufocava a escandalosa revolta. A sociedade respirava, e continuava o jantar interrompido, declarando com indignação que o pobre era uma fera. E o pobre, como uma fera, recolhia silenciosamente ao seu covil.
O seu primeiro triunfo foi quando, em vez de se revoltar, se começou a exoplicar, tranquilamente, como um ser sensato e cheio de justiça. Esta voz, triste e profunda, impressionou, foi escutada.
O rico só desde então verdadeiramente conheceu o pobre - começou a saber o que é ser pobre. As duas classes viviam totalmente separadas, uma no seu escuro inferno, outra no seu vistoso paraíso - e os paletós bem alcochoados, só tinham uma noção muito vaga de que havia farrapos, por os avistar de longe, na rua e na penumbra. Em Londres, há dez ou doze anos, foi uma tremenda surpresa quando, por ordem do Parlamento, se fez um demorado inquérito aos slums, os bairros indizivelmente miseráveis, onde vive, ou antes, onde lentamente morre a mais desgraçada, faminta e lúgubre populaça de toda a Europa. O quê!
Havia pois famílias que andam quase nuas, e dormem durante os mais duros Invernos na terra húmida, e comem apenas as hortaliças podres que são apanhadas à noitinha no lixo e nos enxurros, à roda dos mercados. A gente que tem uma conta larga no alfaiate, e é muito difícil na escolha do seu champagne, não podia acreditar que na rica Londres do SEC. XIX houvesse tais vergonhas públicas. E o sentimento geral, mesmo entre os mais duros, foi que misérias tão dolorosas se não deviam permitir numa terra cristã.
EÇA DE QUEIROZ - Cartas Familiares de Paris
1 comentário:
Eça é sempre Eça.A sua prosa é inimitável e os seus textos são sempre muito bem observados e frequentemente ainda actualizados.
Continue pois a recordar-nos os bons autores. Obrigado
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