segunda-feira, janeiro 28, 2008

11.ARMILA LITERÁRIA

A MODERAÇÃO DO QUERER

Olhem os homens para as outras criaturas sem uso de razão, e não queiram ser ingratos e soberbos contra Deus, quando todas elas, grandes e pequenas, o louvam e lhe dão graças pelo que dele receberam.
Se o rato não quer ser leão, nem o pardal quer ser águia, nem a formiga quer ser elefante, nem a rã quer ser baleia, porque não se contentará o Homem com a medida que Deus lhe quis dar? E que se nem os leões, nem as águias, nem os elefantes, nem as baleias, se contentassem com a sua grandeza e uns se quisessem comer aos outros, para serem maiores? Isto é o que querem e fazem continuamente os homens, e por isso os altos caem, os grandes rebentam e todos se perdem.
Os instrumentos com que criou a natureza, ou fabricou a arte para o serviço do Homem, todos têm certos termos de proporção, dentro dos quais se podem conservar e fora dos quais não podem. Com a carga demasiada cai o jumento, rebenta o canhão e vai-se o navio a pique. Por isso se vêem tantas quedas, tantos desastres e tantos naufrágios no mundo. Se a carga for proporcionada ao calibre da peça, ao bojo do navio, e à força ou fraqueza do animal, no mar far-
-se-á viagem, na terra caminho e na terra e no mar tudo andará concertado. Mas tudo se desconcerta e se perde, porque em tudo quer a ambição humana exceder a esfera e a proporção do poder.
Vejo que me estão dizendo os prezados de grande coração, que este discurso quebra os espíritos e acovarda os ânimos para que não empreendam, nem façam coisas grandes. Antes às avessas. Empreendei e fazei coisas, e as maiores e mais admiráveis; mas dentro da esfera e proporção do vosso poder, porque fora dela não fareis nada.

Pde. António Vieira - Do sermão da Terceira Dominga depois da Epifania, pregado na Sé de Lisboa, sobre o modo como ajustar o querer com o poder

quinta-feira, janeiro 17, 2008

9. ARMILAR PRIMEIRA

EFEMÉRIDE

4º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Natural de Lisboa, António Vieira (1608-1697) sacerdote jesuíta é um dos maiores vultos da literatura mundial. Durante a sua longa existência desenvolveu uma notável actividade, tanto como humanista, como homem das letras, onde cedo se prestigiou pelo extraordinário poder da sua eloquência espantosamente arrebatadora.
Os seus sermões revolucionaram a arte de pregar, libertando-a do cultismo até então dominante e a que a maioria dos pregadores a haviam escravizado. A harmonia, o ritmo musical da frase, tantas vezes repetida, como uma espécie de poderoso estribilho, a cantante sonoridade, a majestade e o equilíbrio dos períodos, a propriedade e a pureza da linguagem, asseguram-lhe um lugar de honra entre os melhores prosadores da Literatura Portuguesa e ,mundial.
É verdade que os seus sermões subjugam. Mas as cartas, que nos absorvem pela naturalidade, viveza de expressão e colorido dos descritivos, são uma preciosa fonte para o estudo da política e da vida social da época.
A sua obra (vastíssima) é composta por cerca de duzentos Sermões e numerosas Cartas. A António Vieira foi atribuída a autoria de a "Arte de Furtar", pois trata-se duma obra de notável força polémica e realista da sociedade do seu tempo. A ideia parece ter sido servir de chamariz aos leitores, dada a força do nome do Padre António Vieira. A autoria da obra, no entanto, parece ser do Padre Manuel da Costa, igualmente jesuíta. Este livro de meados do SEC. XVII, é uma enérgica denúncia de corrupção geral da época, sobretudo do alto funcionalismo e da alta burguesia financeira. A obra destaca-se duma vaga de panfletos (ainda hoje mal estudados) que abundam em Portugal no SEC. XVII, em torno da Inquisição, da nobreza, dos contratadores de rendas do Estado e outros figurões da época...
Dada a sua postura no sociedade, António Vieira, um dos maiores Humanistas de todos os tempos, viu-se a braços com a Inquisição que, quando o nosso jesuíta veio do Brasil a Portugal para defender junto da Corte a política da Companhia Geral de Comércio do Brasil, aproveitou a oportunidade para ajustar velhas contas com o defensor dos Cristãos-Novos. Após demorado processo, António Vieira ficou a ferros nas masmorras do Santo Ofício entre 1662 e 1665. O vigor musculado e nervoso da frase de Vieira e o seu extraordinário sentido da propriedade vocabular sempre tinham incomodado os senhores do Santo Ofício/Inquisição. António Vieira, acérrimo defensor dos indígenas, particularmente dos Ameríndios do interior do sertão, travou cerrada luta contra os colonos brasileiros que procuravam recrutar entre os Índios mão-de-obra escrava.
A espantosa actualidade da Obra de António Vieira a incomodar muita gente. Mas, por isso mesmo, é imperioso que se comemore com dignidade esta efeméride.
Já aqui tenho divulgado (Armila Literária) vários extractos da Obra de António Vieira. Ao longo deste ano de 2008 continuarei a fazê-lo.

acs

domingo, janeiro 06, 2008

5. ARMILA DO ASSOBIO

REGISTOS
- "Passei a vida sobre a prancheta mas, para mim, a política importa mais do que a arquitectura. Quem não é solidário, quem não se preocupa com a miséria, pode ser o melhor profissional e ficar rico, mas é um cretino."
Óscar Niemeyer, citado por Norma Couri na revista Visão nº 771 de 13-12-2007
- Sem grande destaque nos orgãos de informação portugueses, faleceu no passado dia 29 de Novembro de 2007, em Amesterdão, o intlectual lusófilo August Willemesen. Foi o principal tradutor de Fernando Pessoa para holandês. Willemsen traduziu também para a sua língua Camões, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Machado de Assis, entre outros.
- Em 17 de Dezembro de 2007, faleceu em Paris a investigadora frncesa SOLANGE PARVAUX, grande impulsionadora do ensino da Língua Portuguesa em França.
Muito do pouco que está feito para a divulgação e o ensino do Português em França a ela se deve. Para além de não se fazerem representar no funeral, o Governo Português e a Comissão Executiva da CPLP, não tiveram uma palavra de reconhecimento. Foi um silêncio ensurdecedor. Os orgãos de informação portugueses mais preocupados com escândalos de vão de escada quase não deram a notícia...
acs