A MODERAÇÃO DO QUERER
Olhem os homens para as outras criaturas sem uso de razão, e não queiram ser ingratos e soberbos contra Deus, quando todas elas, grandes e pequenas, o louvam e lhe dão graças pelo que dele receberam.
Se o rato não quer ser leão, nem o pardal quer ser águia, nem a formiga quer ser elefante, nem a rã quer ser baleia, porque não se contentará o Homem com a medida que Deus lhe quis dar? E que se nem os leões, nem as águias, nem os elefantes, nem as baleias, se contentassem com a sua grandeza e uns se quisessem comer aos outros, para serem maiores? Isto é o que querem e fazem continuamente os homens, e por isso os altos caem, os grandes rebentam e todos se perdem.
Os instrumentos com que criou a natureza, ou fabricou a arte para o serviço do Homem, todos têm certos termos de proporção, dentro dos quais se podem conservar e fora dos quais não podem. Com a carga demasiada cai o jumento, rebenta o canhão e vai-se o navio a pique. Por isso se vêem tantas quedas, tantos desastres e tantos naufrágios no mundo. Se a carga for proporcionada ao calibre da peça, ao bojo do navio, e à força ou fraqueza do animal, no mar far-
-se-á viagem, na terra caminho e na terra e no mar tudo andará concertado. Mas tudo se desconcerta e se perde, porque em tudo quer a ambição humana exceder a esfera e a proporção do poder.
Vejo que me estão dizendo os prezados de grande coração, que este discurso quebra os espíritos e acovarda os ânimos para que não empreendam, nem façam coisas grandes. Antes às avessas. Empreendei e fazei coisas, e as maiores e mais admiráveis; mas dentro da esfera e proporção do vosso poder, porque fora dela não fareis nada.
Pde. António Vieira - Do sermão da Terceira Dominga depois da Epifania, pregado na Sé de Lisboa, sobre o modo como ajustar o querer com o poder