terça-feira, março 11, 2008

12. ARMILA PRIMEIRA

4º CENTENÁRIO

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO
(1608-1666)

Natural de Lisboa D. Francisco Manuel de Melo, foi um dos espíritos mais cultos do seu tempo. Comemora-se este ano o 4º centenário do seu nascimento. Pena é que a efeméride coincida com as celebrações do também 4º centenário do nascimento do Padre António Vieira, que naturalmente se sobreporão.
A sua obra é vasta e diversificada, abrangendo vários géneros: de carácter didáctico e moral, poética, historiográfica, epistológica, panfletos políticos e textos dramáticos. Dotado de notável senso crítico, profundo conhecedor da sociedade do SEC. XVII, senhor de magistral ironia, D. Francisco Manuel de Melo distingue-se dos seus contemporâneos pela elegância, amenidade e graça conceituosa do seu estilo.
Da sua obra destacam-se: O Fidalgo Aprendiz, Carta da Guia de Casados, Epanáforas de Vária História Portuguesa, Cartas Familiares, Feira de Anexins, Apólogos Dialogais (Relógios Falantes, Escritório do Avarento, Visita das Fontes e Hospital das Letras) e em poesia As Segundas das Três Musas de Melodino.
Revisitemos a sua obra e tal como na de António Vieira, toparemos nela uma espantosa actualidade.

acs

quarta-feira, março 05, 2008

11. ARMILA PRIMEIRA

A LÍNGUA PORTUGUESA PERDEU UM DOS SEUS MAIORES LINGUISTAS


FALECEU JOSÉ NEVES HENRIQUES

Muito nos dói quando os amigos decidem mudar-se para o assento etéreo. Não é normal dar testemunho público da partida dos nossos amigos. Hoje não é o caso. José Neves Henriques é, antes de tudo, um grande Amigo meu. Porém ele destacou-se na defesa e no ensino da Língua Portuguesa. Muitas gerações lhe passaram pelas mãos e hoje lhe estão gratos pelos seus ensinamentos.
Ontem, dia 4 de Março de 2008, José Neves Henriques decidiu ir partilhar os dias com outros grandes da nossa língua e da nossa cultura, quiçá com Camões, Pessoa, David Lopes, António Vieira, Lopes-Graça, Eça, Camilo, Luísa Todi, Bocage, Aparecido de Oliveira e muitos outros.
Figura grande, como linguista e pedagogo, sempre se bateu pelo correcto uso da Língua Portuguesa, mas também pelo seu ensino a todos os níveis e todos os ramos do saber, pois como ele próprio dizia é imperioso (por exemplo) que um professor de Matemática saiba explicar aos alunos o que é um axioma, indo mesmo ao étimo do vocábulo; pois só assim "a língua penetra na alma do Homem e, fundindo-se com o seu pensar e sentir, leva-o à criação que deslumbra, tal como a água penetrando na semente lançada à terra" (1).
Foi na direcção da Sociedade da Língua Portuguesa que o conheci e onde nos tornámos Amigos. À Sociedade da Língua Portuguesa, José Neves Henriques deu o melhor de si próprio, tendo-se tornado figura destacada, entre os mais notáveis. Eduarda Neves Henriques, sua filha e que me dá a honra de também ser minha Amiga, é uma notável continuadora do trabalho de seu pai.
Num tempo em que vivemos colonizados pelo império da língua inglesa, mais grave do que isso, é, dizia Neves Henriques, o facto de adulterarmos sistematicamente a nossa língua, ignorando que só sabendo Português poderemos entender qualquer outra matéria: Matemática, Medicina Engenharia, etc.
O meu querido Amigo José Neves Henriques, privou-nos da sua companhia e do seu sorriso afável, mas deixou-nos muitos e excelentes discípulos. A Língua Portuguesa continuará a trilhar o seu caminho. Homenageando a memória de Neves Henriques aqui fica um poema de José Carlos Ary dos Santos:
LÍNGUA PORTUGUESA

Se em vez de medo disseres força
se em vez de velho disseres novo
ficas a saber que a língua portuguesa
é povo.

Se em vez de fome disseres pão
e chegada em vez de partida
ficas a saber que a língua portuguesa
é vida.

Grita como quem canta
fala como quem quer
para quem luta querer é poder.
Vencer.

Se em vez de abutre for gaivota
se em vez de escuridão for luar
fica a saber que a língua portuguesa
é mar.

Se em vez de grades disseres campo
e se em vez de lição disseres livro
ficas a saber que a língua portuguesa
é livre.

Se em vez de escravo for cravo
e se em vez de prisão for amor
ficas a saber que a língua portuguesa
deu flor.

(1) Revista Língua Portuguesa, nºs 4,5 e 6 (Abril/Maio/Junho-1987) Sociedade da Língua Portuguesa
acs

terça-feira, março 04, 2008

18. ARMILA LITERÁRIA

SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.
(...)
Antes porém que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira coisa que me desedifica, peixes, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora ao contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer. Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

Padre ANTÓNIO VIEIRA- Do Sermão de Santo António pregado aos Peixes em S. Luís do Maranhão em 1654