FALECEU JOSÉ NEVES HENRIQUES
Muito nos dói quando os amigos decidem mudar-se para o assento etéreo. Não é normal dar testemunho público da partida dos nossos amigos. Hoje não é o caso. José Neves Henriques é, antes de tudo, um grande Amigo meu. Porém ele destacou-se na defesa e no ensino da Língua Portuguesa. Muitas gerações lhe passaram pelas mãos e hoje lhe estão gratos pelos seus ensinamentos.
Ontem, dia 4 de Março de 2008, José Neves Henriques decidiu ir partilhar os dias com outros grandes da nossa língua e da nossa cultura, quiçá com Camões, Pessoa, David Lopes, António Vieira, Lopes-Graça, Eça, Camilo, Luísa Todi, Bocage, Aparecido de Oliveira e muitos outros.
Figura grande, como linguista e pedagogo, sempre se bateu pelo correcto uso da Língua Portuguesa, mas também pelo seu ensino a todos os níveis e todos os ramos do saber, pois como ele próprio dizia é imperioso (por exemplo) que um professor de Matemática saiba explicar aos alunos o que é um axioma, indo mesmo ao étimo do vocábulo; pois só assim "a língua penetra na alma do Homem e, fundindo-se com o seu pensar e sentir, leva-o à criação que deslumbra, tal como a água penetrando na semente lançada à terra" (1).
Foi na direcção da Sociedade da Língua Portuguesa que o conheci e onde nos tornámos Amigos. À Sociedade da Língua Portuguesa, José Neves Henriques deu o melhor de si próprio, tendo-se tornado figura destacada, entre os mais notáveis. Eduarda Neves Henriques, sua filha e que me dá a honra de também ser minha Amiga, é uma notável continuadora do trabalho de seu pai.
Num tempo em que vivemos colonizados pelo império da língua inglesa, mais grave do que isso, é, dizia Neves Henriques, o facto de adulterarmos sistematicamente a nossa língua, ignorando que só sabendo Português poderemos entender qualquer outra matéria: Matemática, Medicina Engenharia, etc.
O meu querido Amigo José Neves Henriques, privou-nos da sua companhia e do seu sorriso afável, mas deixou-nos muitos e excelentes discípulos. A Língua Portuguesa continuará a trilhar o seu caminho. Homenageando a memória de Neves Henriques aqui fica um poema de José Carlos Ary dos Santos:
Se em vez de medo disseres força
se em vez de velho disseres novo
ficas a saber que a língua portuguesa
é povo.
Se em vez de fome disseres pão
e chegada em vez de partida
ficas a saber que a língua portuguesa
é vida.
Grita como quem canta
fala como quem quer
para quem luta querer é poder.
Vencer.
Se em vez de abutre for gaivota
se em vez de escuridão for luar
fica a saber que a língua portuguesa
é mar.
Se em vez de grades disseres campo
e se em vez de lição disseres livro
ficas a saber que a língua portuguesa
é livre.
Se em vez de escravo for cravo
e se em vez de prisão for amor
ficas a saber que a língua portuguesa
deu flor.
(1) Revista Língua Portuguesa, nºs 4,5 e 6 (Abril/Maio/Junho-1987) Sociedade da Língua Portuguesa
acs
2 comentários:
É sempre pena que os bons elementos nos deixem e sobretudo sem seguidores. Excelente é o poema que citou em homenagem ao homem que recentemente nos deixou.
Caro Armilar
O Dr. José Neves Henriques era uma pessoa simplesmente extraordinária. Trabalhei com ele uma tarde por semana durante quase três anos num projecto de terminologia do desporto.
Fui surpreendido pelo seu falecimento, já algum tempo depois de este ter ocorrido.
Como não me foi possível prestar a devida homenagem a tão insígne figura, gostaria que me facultasse o contacto da sua filha Eduarda, de modo que eu lhe pudesse dirigir algumas palavras.
Grato pela amabilidade,
André Fernandes da Cunha
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