terça-feira, julho 29, 2008

21.ARMILA LITERÁRIA

Comportamentos que a História registou...

OS INGLESES E O MUNDO ÁRABE


(...)
Esta era a situação ao dia 11 de Junho. Alexandria tornara-se uma fornalha de excitação. Nas Mesquitas pregava-se com furor a cruzada contra o cristão: nos bazares falava-se do estrangeiro como do cão maldito, da ave de rapina, pior que o gafanhoto que devora a seara, pior que a seca do Nilo; e, ou fosse o fanatismo que despertasse ou fosse a miséria que se queria vingar - todo o bom muçulmano se armava.
Nestas circunstâncias, de uma chufa de botequim pode nascer uma guerra de raças. E, pouco mais ou menos, assim sucedeu. Na manhã do dia 11, na Rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglês, por um velho hábito, deu chicotadas num árabe; mas, contra todas as tradições, o árabe replicou com uma cacetada. O inglês fez fogo com um revólver. Daí a pouco o conflito entre europeus e árabes, em pleno furor, tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas - até que, por ordens telegrafadas do Cairo, a tropa, até aí neutral, acalmou as ruas. E o resultado, bem inesperado, mas compreensível, desde que se sabe que os árabes só tinham cacetes e que os europeus tinham carabinas - foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos árabes dizimados. Os jornais têm chamado a isto o massacre dos cristãos: eu não quero ser por modo algum desagradável aos meus irmãos em Cristo, mas lembro respeitosamente que isto se chama a matança dos muçulmanos.
Eça de Queiroz, in Cartas de Inglaterra (Os ingleses no Egipto)

2 comentários:

Anónimo disse...

Eça de Queirós é sempre Eça de Queirós.Escritores como ele não há muitos.O texto seleccionado parece da actualidade...

Anónimo disse...

Grata pelo texto do nosso querido Eça. Ele nunca teve medo de pôr o dedo na ferida. É por estas e por outras mais recentes que os ingleses e americanos andam a fazer, ao longo dos tempos que agora somos nós todos a pagá-las. Dê-nos mais textos destes. Obrigada.
Maria Isabel - Luxemburgo