quarta-feira, novembro 12, 2008

ARMILA LITERÁRIA-24

O ILUMINISMO PORTUGUÊS

O ESTILO SIMPLES


Ao Estilo Sublime, contrapomos o Estilo Simples ou humildade. Assim como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é humilde deve-se dizer com estilo mui simples
e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua. Esta é, segundo os Mestres da Arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência na língua para o executar. Além disso, as Figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar e descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente todos os pensamentos do escritor. Por isso se diz que o estilo é o lapis Lydius (1) do Juízo.
Isto que digo das expressões comuns e naturais deve-se entender com proporção. Não quero dizer que um homem civil fale como a plebe, mas que fale naturalmente. A matéria do estilo humilde não pede elevação de figuras etc., mas nem por isso se deve exprimir com aquelas toscas palavras de que usa o povo ignorante. Não é o mesmo estilo baixo que estilo simples. O estilo baixo são modos de falar dos ignorantes e pouco cultos; o estilo simples é o modo de falar natural e sem ornamentos, mas com palavras próprias e puras. Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento e o orne com figuras próprias, ainda que o pensamento nada tenha de sublime. Pelo contrário, chamamos simplesmente sublime (com os Retóricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento que agrada e eleva o leitor, ainda que seja proferida com as mais simples palavras. De sorte que o sublime pode achar-se em um só pensamento ou figura, etc. Importa muito entender e distinguir isto, para não ser enfadonho nas conversações e nas obras que pedem estilo humilde.
(1)Pedra de Toque

Luis António Verney(1713-1792) in Verdadeiro Método de Estudar / Carta Sexta

1 comentário:

Anónimo disse...

Plenamente de acordo com Luis António Verney.Pensamentos sublimes não precisam de ornamentação.Mesmo pessoas eruditas devem falar normalmente e evitar palavras que o comum dos homens não entenda. Quando falar para os seus pares então que utilize vocabulário mais erudito.