terça-feira, maio 26, 2009

ARMILA LITERÁRIA

TEATRO

Gil Vicente (1465?-1536?), o fundador do Teatro Português, de há muito merecia uma referência neste meu blogue. A crítica foi-me feita e aceito-a. Mas falar dele é uma redundância num espaço tão curto como este. Opto por transcrever parte duma das suas Obras. A escolha de Todo-O-Mundo e de Ninguém, não é inocente. Ela reflecte a permanente actualidade da Obra de Gil Vicente. Se esta Peça de Teatro fosse escrita hoje não teria mais actualidade em qualquer parte do mundo. Deliciemo-nos, pois.
acs

TODO-O-MUNDO E NINGUÉM

«Apresentada a vida quotidiana duma família judaica, que se prepara para assistir a um Auto de Gil Vicente, um licenciado faz considerações sobre o autor, a quem, segundo ele, Sibila ensinara os segredos do Portugal antigo. Surge Portugal que se enamora de Lusitânia, a quem seu pai, o Sol, por intermédio de Maio, envia um novo esposo, Mercúrio. Acompanham-no deusas, que cantam e dançam e os capelães destas, Dinato e Berzebu, que decidem anotar o que virem para informar Lucifer
Código:BERZEBU (BER)/TODO-O-MUNDO (TM)/NINGUÉM(NIN)DINATO (DIN)
.......................................
BER Por darmos alguma conta
ao deus rei Lucifer,
põe-te tu a escrever
tudo quanto aqui se monta,
e quanto virmos fazer;
porque a fim do mundo é perto,
e pera o que nos hão-de dar,
cumpre-nos ter de alegar;
pois pera provar o certo,
escreve quanto passar.

Entra Todo-O-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu e logo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:

NIN Que andas tu i buscando?
TM Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quam bom é porfiar.
NIN Como hás nome cavaleiro?
TM Eu hei nome Todo-O-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

NIN E eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
BER Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
DIN Que escreverei, companheiro?
BER Que Ninguém busca consciência,
e Todo-O-Mundo dinheiro.

NIN E agora que buscas lá?
TM Busco honra muito grande.
NIN Eu virtude que Deos mande
que tope com ela já.
BER Outra adição nos acude:
que busca honra Todo-O-Mundo,
e Ninguém busca virtude.

NIN Buscas outro mor bem qu'esse?
TM Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
NIN E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errasse.
BER Escreve mais:
DIN Que tens sabido?
BER Que quer em extremo grado
Todo-O-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser reprendido.

NIN Buscas mais, amigo meu?
TM Busco a vida e quem ma dê.
NIN A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
BER Escreve lá outra sorte.
DIN Que sorte?
BER Muito garrida:
Todo-O-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.

TM E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NIN E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
BER Escreve com muito aviso.
DIN Que escreverei?
BER Escreve
que Todo-O-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.

TM Folgo muito d'enganar,
e mentir naceu comigo.
NIN Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
BER Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
DIN Quê?
BER Que Todo-O-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.

NIN Que mais buscas?
TM Lisonjar.
NIN Eu sou todo desengano.
BER Escreve, ande lá mano.
DIN Que me mandas assentar?
BER Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-O-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
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Gil Vicente, in Auto da Lusitânia

sábado, maio 23, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)
(1906-1997)

António Gedeão é o pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho. A sua revelação tardia como poeta, aos 50 anos, leva Jorge de Sena a considerá-lo como o lídimo continuador de toda a herança modernista. A sua primeira obra poética (Movimento Perpétuo) data de 1956, mostra-nos um professor de Ciências Fisico-Químicas, não liberto do seu saber técnico - o que só vem a enriquecer a sua poesia - mas pleno duma notável sensibilidade, só possível num homem já maduro e com um olhar atento à realidade social e política que o rodeia. Com o seu segundo livro, Teatro do Mundo (l958, consegue logo a consagração definitiva. A força de poemas como Fala do Homem Nascido, Ode Metálica, Poema do Homem Só e Calçada de Carriche, foi determinante.
Apesar da sua elevadíssima intelectualidade, António Gedeão conseguiu ser um poeta popular, graças à divulgação que Manuel Freire deu à sua obra, ao musicar e cantar alguns dos seus poemas. Nos anos 60 do SEC. XX, Portugal estava ávido de mudança política e a elegância que António Gedeão dá à sua poesia, fez com que os esbirros da Censura não o entendessem. Mas o Povo entendeu. Pertence pois ao raro escol daqueles que conseguem, em vida, subir às alturas do Povo, para utilizar as palavras de Pedro Homem de Melo.
Assinando com o seu próprio nome, Rómulo de Carvalho, publicou vários livros escolares especializados, que revelam a sua vasta obra literária, destacam-se títulos como Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), 4 Poemas da Gaveta (s/d), Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990), entre muitos outros. De salientar estes dois títulos que foram publicados ainda em vida. A razão dos títulos deve-se (disse o próprio António Gedeão) ao facto de já se considerar morto como poeta... O certo é que ainda hoje está vivo no sentir do Povo e as novas gerações ainda devoram os seus livros.

acs

sexta-feira, maio 22, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)


PEDRA FILOSOFAL*

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

*in MOVIMENTO PERPÉTUO (1956)

quarta-feira, maio 06, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

LAURO MOREIRA
UM HOMEM SEM PAPAS NA LÍNGUA

De há muito, particularmente nas Crónicas que mantive na RDP-Internacional, que tenho apontado o dedo aos políticos, pela sua inacção, tanto na defesa da Língua Portuguesa, como até no falar, pois não são poucas as vezes em que se abastardam, por pedantice bacoca, falando em línguas estrangeiras.
Isto mesmo o reconheceu ontem o Embaixador do Brasil, junto da CPLP. No Colóquio Sobre a Unidade e Diversidade Cultural na CPLP, que ontem teve lugar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, Lauro Moreira acusou os políticos de todos os países da CPLP, ao afirmar que "há um reconhecimento hoje, por parte de nós todos da CPLP, que este (a Língua Portuguesa) é o elo mais fraco da corrente e é um absurdo completo porque ele deveria ser o mais forte, pois é o cimento da organização".
A promoção da Língua Portuguesa cabe-nos a todos nós cidadãos, mas aos políticos exige-se toda a responsabilidade, pois, por via do voto, foi neles que delegámos todas as competências. Finalmente lá apareceu alguém, com responsabilidades, que assumiu frontalmente a defesa e a promoção da Língua Portuguesa, exigindo responsabilidades aos governos. De Lauro Moreira, um homem da Cultura, outra coisa não era de esperar, mas por isso mesmo merece o nosso apoio e o nosso abraço.
acs

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Brasil)
(9-1-1920/9-10-1999)
Bastar-lhe-ia ter escrito "Morte e Vida Severina", para ficar imortalizado na História das Literaturas de Língua Portuguesa. de si próprio disse, ao já extinto jornal português A Capital, em 1985: "Considero-me na linha dos poetas marginais, fora da tradição essencialmente lírica" (...) "O poeta não é só o guardião da palavra. O guardião da palavra é o gramático e por isso vive discutindo com o poeta".
Era considerado um poeta isolado em relação à Geração de 1945 de que fazia parte, porque João Cabral de Melo Neto procurou a síntese e a depuração do Modernismo, abrindo um novo caminho para as novas gerações. A sua poesia é concisa e precisa. Ele bate-se contra o irracionalismo, pela desmistificação dos seus próprios mitos. A sua técnica dá ao poema uma estrutura quase arquitectónica. É por isso que ele diz que o poeta vive discutindo com o gramático.
João Cabral de Melo Neto abraçou a carreira diplomática. Em Barcelona, onde foi Cônsul, conheceu o poeta português Alberto Serpa. Travaram-se de Amizade, uniram esforços e de colaboração com José Régio e Pedro Homem de Melo fizeram a revista O CAVALO DE TODAS AS CORES, de que saiu apenas um único número, que hoje é um documento histórico.
Intelectual de primeira água, João Cabral de Melo Neto, debruçou-se sobre a realidade que o rodeava. A sua obra é vasta. Escreveu o primeiro poema, "Sugestão de Pirandelo", em 1937, mas é em 1942 que publica o seu primeiro livro, "Pedra de Sono". Seguem-se, entre outros, O Engenheiro, O Cão Sem Plumas, O Rio, Paisagens Com Figuras, Morte e Vida Severina (que Chico Buarque haveria de musicar, dando-lhe uma divulgação internacional, para o grande público). A obra de João Cabral de Melo Neto está hoje reunida em POESIA COMPLETA (1940-1980), numa notável edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa-1986) e com um Prefácio notabilíssimo do Professor Óscar Lopes.
Vencedor do Prémio Camões em 1990, Melo Neto é um verdadeiro artista da palavra. Provocatoriamente e por contraste com a intelectualidade de João Cabral de Melo Neto, que era um homem que sabia entender o Povo, apetece-me citar António Aleixo, um poeta popular português, quase analfabeto, que gosto de revisitar de quando em vez, e que também sabia ter um olhar atento e crítico sobre a sociedade que o rodeava: "A arte é a força imanente,/não se ensina, não se aprende,/não se compra, não se vende,/nasce e morre com a gente." (...) "A arte em nós se revela/sempre de forma diferente:/cai no papel ou na tela/conforme o artista sente."
João Cabral de Melo Neto, nasceu no Recife em 9 de Janeiro de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro a 9 de Outubro de 1999.
acs

terça-feira, maio 05, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (BRASIL)



MINHA POBREZA

(...)COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
-Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos meus irmãos,
de leite, de lama, de ar.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
- Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
- Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
- Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
- Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
- Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
- Eis ostras chegadas agora.
Apanhadas no cais da Aurora.
- Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
- Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
- Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
- Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
- Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
- Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

in Morte e Vida Severina (auto de Natal pernambucano)