QUADRAS DE
ANTÓNIO ALEIXO
Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que meus versos possam ter.
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Julgam-me muito sabedor;
e é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!
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Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
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Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
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É um moço inteligente
o que passou há bocado;
julga enganar toda a gente,
mas ele é que é enganado.
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P'ra te tornares distinto
e mostrar capacidade,
dizes sempre que te minto,
quando te digo a verdade.
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O meu merceeiro é um santo
a há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só:- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.
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És parvo, mas és distinto,
só vês o bem que tens perto;
não compreendes que te minto
quando te trato por esperto?
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Descreio dos que me apontem
uma sociedade sã:
isto é hoje o que foi ontem
e o que há-de ser amanhã.
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Sem que o discurso eu pedisse,
ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
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Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes - esqueceste
tudo quanto prometias...
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Os que bons conselhos dão
às vezes fazem-me rir,
- por ver que eles próprios são
incapazes de os seguir.
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Eu era mendigo outrora,
tantas esmolas pedi,
que não sei dizer agora
quantas vezes me vendi.
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Fiz do meu estro uma vara
para medir a verdade
e dar com ela na cara
do cinismo e da vaidade.
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Se tudo me foi vedado,
se vivi de tudo à míngua,
deixai que vos mostre a língua
com o freio bem cortado.
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Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.
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Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
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Fizeste-te meu amigo
por teres medo de mim;
não posso contar contigo,
não quero amigos assim.
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Não me faças cumprimentos,
deixa-te de hipocrisias:
o alívio aos sofrimentos
não se dá com cortesias.
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Negociando viveste,
tens dinheiro e excelência;
são coisas que recebeste
a troco da consciência.
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Jesus disse que se amassem
aos que cristãos se proclamam;
não disse que se matassem,
e eles matam-se e não se amam.
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S. João, reparem nisto,
teve este grande condão:
ao baptizar Cristo
foi quem fez Cristo cristão.
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Gosto de apertar a mão
áspera dos calos que tem;
também as côdeas de pão
são ásperas, mas sabem bem.
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O pão negro, onde ele é raro,
faz sempre melhor figura
do que o pão alvo e mais claro
na mesa onde há fartura.
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Roubou-lhe p primeiro beijo
o patrão, que a iludiu...
hoje o seu corpo é sobejo
da casa onde serviu.
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Perdida de canto a canto,
dormindo em qualquer portal;
se era rica, causa espanto,
se era pobre... é natural.
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(Reconhecendo a sua incapacidade para cuidar da filha tuberculosa)
Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.
1 comentário:
Este poeta popular e iletrado, deixou-nos versos magníficos e melhores que muios dos que hoje se fazem e são vendidos a bom preço...
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