quarta-feira, fevereiro 10, 2010

ARMILA PRIMEIRA

PORTUGAL (1910-2010) - 100 ANOS DE REPÚBLICA
(CONTINUAÇÃO)

III - O ANO DE 1910

Em 1 de Janeiro de 1910 as agremiações filiadas no Partido Republicano Português (PRP) já eram 167, disseminadas por todo o País.

Em Fevereiro de 1910 surge, editado em Coimbra, o jornal anarquista O Clarão.

A 29 e 30 de Abril de 1910, o PRP reune-se em Congresso e decide sondar as potências europeias quanto à implantação da República em Portugal. Receava-se a posição da Inglaterra.

Em 14 de Junho de 1910 a Maçonaria decide nomear uma comissão constituída por José de Castro, Miguel Bombarda, Machado dos Santos, entre outros, visando uma colaboração mais activa com a CARBONÁRIA PORTUGUESA. Nesta Comissão, António José de Almeida e Cândido dos Reis eram os representantes do Directório Republicano.

Nas eleições de 28 de Agosto de 1910 para o Parlamento, o PRP consegue eleger 14 deputados.

Em 5 de Setembro de 1910 tem lugar o Congresso Cooperativista e Sindicalista. Durante todo o mês de Setembro um surto de greves toma conta do País, sobretudo nas zonas de maior implantação operária, como a Margem Sul do Tejo e os trabalhadores da cortiça do Alentejo e do Algarve.

Em 3 de Outubro de 1910, Miguel Bombarda é assassinado, o que quase comprometeu o plano de acção dos republicanos e deu origem a incontroladas manifestações de revolta
popular. Às 22Hoo os revolucionários reunem-se pela última vez para acerto dos pormenores do plano a desenvolver e acordar o sinal que deverá dar início à Revolução Republicana: A uma salva disparada pelos cruzadores estacionados no Tejo, responderia, com outra o Regimento de Artilharia 1.
Desconhecedor do acordado, por não ter participado na reunião, Machado dos Santos leva a cabo a tarefa que lhe estava atribuída: Tomar o Regimento de Infantaria 16 à 1 hora da madrugada. Os capitães Palla e Sá Cardoso organizam duas colunas militares objectivando o Palácio das Necessidades, onde se encontrava o Rei e o Quartel da Guarda Municipal do Largo do Carmo. Dada a descoordenação motivada pela ausência de Machado dos Santos na última reunião, estes capitães ficaram rodeados pelas forças monárquicas. Os republicanos, no entanto, continuavam o seu plano previamente traçado. A Marinha avançava, mas à hora combinada (3 da madrugada) o sinal não se deu, porque Cândido dos Reis não conseguiu entrar a bordo do navio-almirante D. Carlos. Convencido do fracasso, Cândido dos Reis suicida-se na madrugada de 4 de Outubro. Entretanto as forças dos capitães Palla e Sá Cardoso avançam para a Rotunda.
(continua)
acs

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

ARMILA PRIMEIRA

PORTUGAL (1910-2010) - 100 ANOS DE REPÚBLICA

I - OS PRIMÓRDIOS

O republicanismo português tem os seus alicerces na magnífica triologia da Revolução Francesa: Liberdade-Igualdade-Fraternidade. Liberdade de pensamento, igualdade jurídica de todos os cidadãos, solidariedade das diferentes classes sociais. Estas ideias-força que motivaram os republicanos portugueses de várias tendências, que interpretavam os sentimentos populares já cansados duma monarquia arrogante, sobranceira, podre e caduca. Defendiam ao mesmo tempo a soberania nacional, eleições livres e a adopção duma constituição aprovada pelos eleitos do Povo e a subordinação do poder executivo ao poder legislativo.

Tinha sido assim em França com a Revolução Francesa de 1789, que levaria à queda da monarquia e assim veio a ser em Portugal, ainda que com um processo mais lento e menos conturbado.

A 25 de Abril de 1848 surge o primeiro número do jornal A República. António José de Almeida, José Relvas, Rodrigues Sampaio, Elias Garcia, João Chagas, Alves da Veiga, Basílio Teles, Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, entre muitos outros, são nomes grandes que pontificam nas hostes republicanas.

A insatisfação popular e de várias classes sociais, levam os republicanos a encontrar no Ultimato Inglês de 11 de Janeiro de 1890, reforçado pelo Tratado de 20 de Agosto do mesmo ano e que as Cortes se recusaram a ratificar, a justificação para o movimento revolucionário que destituiria a monarquia. Surge assim o 31 de Janeiro de 1891.

II - O 31 DE JANEIRO DE 1891

O clima favorável que se criou nos meses anteriores à acção revolucionária, contou com o apoio do Partido Republicano Português (PRP) de Elias Garcia. Porém tudo se precipitou pela traição de um sargento infiltrado no movimento, levando a que os republicanos arrancassem para o teatro de operações, sem a conclusão dos preparativos. Erro fatal.

Na madrugada de 31 de Janeiro, cerca das 03H30 iniciou-se a concentração no Campo de Santo Ovídio das primeiras unidades sublevadas. Às 06 horas da madrugada as forças militares chegaram à Câmara Municipal do Porto, precedidas duma fanfarra militar que tocava A PORTUGUESA, que é hoje o Hino Nacional. Às 07 horas é içada no mastro da Câmara a bandeira do Centro Democrático Federal 15 de Novembro do P R P e proclamada a República.

As forças monárquicas, informadas pelo tal sargento, já estavam de prevenção e às 09 horas esmagaram o movimento. Dada a precipitação dos revolucionários, esta acção estava condenada ao fracasso.

No seu livro "Do Ultimatum ao 31 de Janeiro", editado em 1905 Basílio Teles escrevia:«Em 31 de Janeiro começaria, com efeito, o estretor do moribundo? Só nos restará receber-lhe o último suspiro e descê-lo piedosamente à vala escura da História». Dez anos mais tarde João Chagas e o Tenente Manuel Maria Coelho, editaram a "História da Revolta do Porto", onde diziam que o 31 de Janeiro «não fora a aventura sangrenta mais infecunda de um bando de sectários apaixonados», mas que «fora largamente fecunda, pois determinara o mais belo abalo moral por que passou a sociedade portuguesa do século XIX».
(continua)
acs