terça-feira, maio 30, 2006

5. ARMILA PRIMEIRA

AO TELEFONE COM EÇA DE QUEIROZ
O texto de Eça de Queiroz que, na semana passada, divulguei levantou alguma celeuma contra mim e contra o meu amigo Eça. Isto porque Eça de Queiroz teve o desplante de escrever que devemos falar "orgulhosamente mal" e "patrioticamente mal" as línguas estrangeiras. Ao transcrever parte da carta de Fradique Mendes a Madame S., é obvio que lhe dei a minha concordância. A este propósito, no outro dia, estive ao telefone com o Assento Etéreo e falei com o meu amigo Eça. Porque (com a concordância dele) gravei a chamada telefónica, transcrevo aqui, na parte que interessa, a nossa conversa:
...

- Já agora fica sabendo que fiquei contente por teres divulgado no teu blogue parte da carta do Fradique à Madame S.
- Trata-se dum texto notável, mas nota que vários amigos meus se manifestaram contra, pois consideram que devemos falar sem erros as línguas estrangeiras.
- Mas eu não disse nada disso!...
- Obviamente que não. Mas uns nunca leram "A Correspondência de Fradique Mendes", outros já o leram há muito tempo e já não se recordam com precisão do texto integral. Claro que...
- Devias ter transcrito a carta toda para que eles percebessem, pois,...
- Não posso. Não posso e não quero.
- Como assim?!...
- São textos muito grandes, que acabavam por ocupar todo o espaço, e muitas vezes não caberiam; por outro lado e SOBRETUDO, o objectivo da Armila Literária é incentivar os leitores do Armilar, a lerem ou relerem as obras dos nossos melhores escritores...
- Percebo e concordo contigo; mas eu insurgia-me era contra aqueles que não sendo falantes de outras línguas, procuram imitar, saloiamente, os naturais , como por exemplo o aspirar os Hs em inglês, tão afectadamente como os ingleses ou dizer "PARRRRIS", como os franceses.
- É, aliás, o que tu dizes logo no início da carta quando escreves "se seu filho já sabe o castelhano necessário para entender os "Romanceros", o "D. Quixote", alguns Picarescos, vinte páginas de Quevedo, duas comédias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta ler na literatura de Espanha,-para que deseja a minha sensata amiga que ele pronuncie esse castelhano que sabe com o acento, o sabor e o sal de um madrileno nascido nas veras pedras da Calle Mayor?"
- E é isso. Tão-só. Mas falar sempre como se a língua estrangeira fosse por nós domada, e assim a pronunciar, à nossa maneira. Sem erros, mas também sem afectação pirosa e bacoca. Olha! Os políticos que agora, aí em baixo, governam o nosso País deviam aprender a falar as línguas estrangeiras sem erros, já que...
- Falar sem erros, mas nas reuniões de gabinete, porque quando falam em público devem falar sempre na nossa língua, como aliás fazem os governantes dos outros países. Não é?
- Claro. Claro como água. Por uma questão de dignidade e de afirmação da nossa identidade cultural.
acs

3. ARMILA LINGUÍSTICA -Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

DUZENTAS GRAMAS / DUZENTOS GRAMAS

Anda por aí um erro muito generalizado, talvez por a palavra terminar em A. Quando alguém vai à loja e quer, por exemplo, fiambre, é vulgaríssimo ouvirmos: Dê-me DUZENTAS GRAMAS de fiambre e do outro lado do balcão retorquirem: tem DUZENTAS E VINTE GRAMAS, pode ser?
Grama neste sentido é uma medida de peso, uma unidade de massa do sistema CGS, correspondente à milésima parte da massa do quilograma-padrão. Uma vez que um quilo equivale a mil gramas, se grama fosse feminino, então deveríamos dizer UMA QUILO.
Acontece que no nosso léxico, também temos a palavra GRAMA com outro significado. São portanto palavras homónimas. Aqui a palavra é feminina e refere-se a uma erva rasteira, rizomatosa, que é prejudicial às culturas.
Assim temos que como medida de peso, GRAMA é uma palavra masculina (um grama, dois gramas, etc.) e como erva é uma palavra feminina (A GRAMA).

quarta-feira, maio 24, 2006

4. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de texos de grandes autores

FALAR PORTUGUÊS - FALAR ESTRANGEIRO

"... Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo que é estrangeiro. Na língua, verdadeiramente, reside a nacionalidade; - e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as influências afectivas que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluido em estrangeirismo.
(...)
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos - isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o verbo - apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito - porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra adaptada às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles "corpos de pobre" de que tão tristemente fala o povo - "que cabem bem na roupa de toda a gente".
Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o vocábulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros, o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável - ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas e tenta uma instalação de vida em todas, porque não é tolerado por nenhuma.
(...)
Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos - que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons na Natureza bruta, pouco diferençáveis do coaxar das rãs, ou um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscovo, desejava ovos - esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! có-có-ri-qui! có-ró-có-có! Nunca, em cidade ou região inteligente do universo, minha tia deixou de comer os seus ovos - e superiormente frescos."
EÇA DE QUEIROZ - (Carta a Madame S.) in A Correspondência de Fradique Mendes

2. ARMILA DO ASSOBIO

"ALGARVE SUMMER FESTIVAL"


Publicita-se por aí o "Algarve Summer Festival" de 2006. Nem de propósito. O texto que acabo de escolher para a Armila Literária, da autoria de Eça de Queiroz, aplica-se aqui que nem uma luva aos promotores deste Festival de Verão do Algarve: "apaga-se toda a individualidade nativa"; "o seu patriotismo desaparece, diluido em estrangeirismo"; "há neles o desejo servil de não sermos nós mesmos, (...) isto é uma abdicação da dignidade nacional".
Bom seria que, como a simpática tia de Fradique Mendes, os promotores deste festival "se agachassem gravemente sobre o tapete" maravilhoso do Algarve e em bom Português gritassem có-ró-có-có!
Para não irmos mais longe, basta ver que é assim que fazem os nossos vizinhos espanhois. E como eles comem "ovos superiormente frescos"!...
acs

quarta-feira, maio 17, 2006

3.ARMILA PRIMEIRA - A ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, OS DEPUTADOS E A LÍNGUA PORTUGUESA

Nos tempos que correm a lígua inglesa impõe-se como um império universal, adulterando profundamente todas as outras línguas do planeta Terra. O Português, o Francês, o Galego, o Castelhano, o Italiano, etc. têm sido alvo fácil.
Sou dos que defendem que os dias comemorativos: da Floresta, do Ambiente, da Solidariedade, da luta contra qualquer doença, etc. têm razão de ser porque, ao menos nessas datas o tema é abordado e chamada a atenção dos cidadãos. E tantas vezes o cântaro vai à fonte que algum dia lá deixará a asa...
Diz o Professor Eduardo Lourenço que a língua "não é um instrumento neutro, um factor contigente da comunicação entre os homens, mas a expressão da sua diferença. Mais do que um património, a língua é uma realidade onde o sentimento e a consciência nacional se fazem pátria ".
Nestes tempos de integração na União Europeia, não tenhamos medo da palavra PÁTRIA, pois há uma diferença abismal entre PATRIOTISMO e PATRIOTEIRISMO. Seja qual for a evolução da União Europeia, certo é que nenhum povo da Europa abdicará da sua identidade cultural muito menos da sua língua. Cabe aqui recordar a sábia recomendação que em 1989 o Professor José Augusto Seabra fazia no Colóquio Internacional "Língua Portuguesa - Que Futuro?". Dizia: "Num contexto em que a afirmação das identidades e das alteridades culturais se acentua, como resistência à hegemonia do inglês, que as línguas latinas esboçam, é importante que sejamos capazes de promover persistentemente o uso do Português nas nossas relações internacionais, quer bilaterais quer multilaterais a todos os níveis, desde as relações culturais e cientificas às relações económias, sociais e mais propriamente políticas".
Ora temos assistido ao insólito de nos areópagos internacionais os nossos políticos, por mera pedantice, falam sempre em língua estranha. Espanhois, franceses, italianos, palestinianos, israelitas, polacos, russos, etc. falam sempre nas suas línguas... Honram-se da sua identidade cultural.
A propósito de Honra, cabe aqui recordar um compromisso assumido pelos deputados na Assembleia da República. Lê-se na página nº 3145 do Diário da Assembleia da República de 12 de Junho de 1981: " Por sugestão da Sociedade da Língua Portuguesa foi recomendada a esta Assembleia, por representantes de todos os partidos, que se façam esforços no sentido de ser institucionalizado o Dia Internacional da Língua Portuguesa. Essa recomendação será, esperamos bem, ainda discutida e aprovada antes do fecho da presente sessão legislativa".
Pesem embora a unanimidade dos Grupos Parlamentares e as diligências que a nível pessoal desenvolvi junto da A.R., o certo é que até hoje os senhores deputados ainda não tiveram tempo para tomar uma decisão sobre a matéria... Depois, quando em vésperas da Páscoa, faltam às suas obrigações de deputados e a Opinião Pública lhes aponta o dedo acusador, sentem-se muito ofendidos...
De 12/06/1981 até agora já passaram várias sessões legislativas e já tivemos várias eleições. Sei que, pelo menos em Maio de 2003 o assunto foi enviado para a Comissão Permanente de Educação, Ciência e Cultura (por carta que me foi dirigida pela Assembleia da Rebública) mas até agora ainda não houve quem fosse capaz de promover o seu agendamento, discução e votação. Numa palavra acabar com as burocracias...
acs

3.ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

A ACUMULAÇÃO DE EMPREGOS

"Quis? Quem sou eu? Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro, ou seja Arão secular, ou seja Arão eclesiástico. Eu sou um Desembargador da Casa da Suplicação, dos Agravos, do Paço. Sou um Procurador da Coroa. Sou um Chanceler-Mor. Sou um Regedor da Justiça. Sou um Conselheiro de Estado, da Guerra, do Ultramar, dos três estados. Sou um Vedor da Fazenda. Sou um Presidente da Câmara, do Paço, da Mesa da consciência. Sou um Secretário de Estado, das Mercês, do Expediente. Sou um Inquisidor. Sou um Deputado. Sou um Bispo. Sou um Governador do Bispado, etc. Bem está, já temos o ofício: mas o meu escrúpulo, ou a minha admiração, não está no ofício, senão no um. Tendes um só desses ofícios ou tendes muitos?
Há sujeitos na nossa Corte que têm lugar em três e quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios. Este ministro universal, não pergunto como vive, nem quando vive. Não pergunto como acode às suas obrigações, nem quando acode a elas. Só pergunto como se confessa? Quando Deus deu forma ao governo do mundo, pôs no céu aqueles dois grandes planetas, o Sol e a Lua, e deu a cada um deles uma presidência: ao Sol a presidência do dia: Luminare majus, ut proeesset diei; (Gen I-46) e à Lua a presidência da noite: Luminare minus, ut proeesset nocti. E porque fez Deus esta repartição? Por ventura porque se não queixasse a Lua e as estrelas? Não, porque com o Sol ninguém tinha competência, nem podia ter justa queixa. Pois se o Sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu; porque não proveu Deus nele ambas as presidências? Porque lhe não deu ambos os ofícios? Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios, ainda que seja mesmo o Sol. O mesmo Sol quando alumia um hemisfério, deixa o outro às escuras. E que haja de haver homem com dez hemisférios! E que cuide, ou se cuide, que em todos pode alumiar! Não vos admiro a capacidade do talento, a da consciência sim."
Pde. António Vieira - Do Sermão da Quaresma pregado na Capela Real em 1655, em que António Vieira, analisa moralmente a incompatibilidade da ocupação de certos cargos pelos políticos

terça-feira, maio 09, 2006

2. ARMILA PRIMEIRA Evocação de Fernando Lopes-Graça no primeiro centenário do seu nascimento

Fernando Lopes-Graça é uma das figuras mais marcantes da música europeia do Séc. XX.
Nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906. Celebra-se pois, durante este ano o primeiro centenário do seu nascimento. Não cabe neste espaço evocar exaustivamente a sua figura e a sua obra. Pretendo tão-só, registar o acontecimento e divulgá-lo ás novas gerações neste tempo de grandes, maldosos e, por vezes, criminosos esquecimentos.

Cabe aqui lembrar o Compositor, o Maestro, o Pedagogo, o Cidadão de Tomar, o Cidadão do Mundo, o Fundador do Jornal “A Acção” (Tomar- 1928), do Jornal de Música (Lisboa- 1928), para além do Político empenhado, do Homem Bom e do Homem Solidário. Nos melhores conservatórios e outras escolas de música de todo o mundo a sua obra é estudada e bastas vezes interpretada. Em Portugal, quase que caiu no esquecimento e as novas gerações mal o conhecem. Tivesse Lopes-Graça sido espanhol ou de qualquer outra nacionalidade e logo teríamos grandes comemorações a nível mundial, como foi o caso de Mozart a propósito dos 250 anos do seu nascimento.

Em boa hora a Câmara Municipal de Tomar decidiu que 2006 seria no concelho o Ano Lopes-Graça, pelo que ao longo deste ano leva à prática toda uma programação sobre a sua figura de cidadão e sobre a sua obra. Gostei de ler no boletim da Câmara as palavras do seu Presidente (António Paiva) quando escreve “...a Câmara Municipal de Tomar considera que este ano deverá ser, muito mais que um tributo, uma oportunidade de dar a conhecer aos seus conterrâneos a vida e a obra exemplares deste homem. Desde as crianças aos adultos as comemorações foram pensadas de forma especialmente pedagógica, com edições diversas e em diversos suportes”.

Obviamente que a Câmara Municipal de Tomar mais não faz do que cumprir a sua obrigação. Mas nos tempos que correm, em que os valores morais e éticos andam tão arredados da política é de sublinhar com alegria e esperança num mundo melhor.

Mas Fernando Lopes-Graça, foi um homem que ultrapassando as fronteiras nabantinas, ascendeu a uma dimensão nacional e internacional pelo que cabe perguntar: onde está o Ministério da Cultura? Qual é a programação evocativa do Teatro Nacional de S. Carlos, da Casa da Música, do Centro Cultural de Belém ou da Fundação Gulbenkian?

E a RTP e a RDP?

A Antena 2 da RDP tem vindo a divulgar a obra de Lopes-Graça. Mas ainda que vasto, o seu auditório não deixa de ser limitado a um escol de ouvintes. É imperioso que a Antena 1 e a RDP Internacional o divulguem. Quanto à RTP ainda não se deu por nada. De outros grandes músicos estrangeiros, a RTP tem transmitido pequenos seriados elaborados por televisões estrangeiras. Não seria da RTP fazer o mesmo e vender a sua produção a outras televisões? Ao menos que nos brinde, acompanhando a Agenda Cultural da Câmara Municipal de Tomar...

Fernando Lopes-Graça merece, no mínimo, umas comemorações de dimensão nacional.
Já agora uma sugestão-desafio: não seria possível conjugar esforços entre a Câmara de Tomar, a Fundação Gulbenkian (orquestra e coros), a RTP, a RDP e o Ministério da Cultura, por forma a editar em CD a obra completa (coral e orquestral) de Lopes-Graça a um preço simbólico?

2.ARMILA LINGUÍSTICA correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

ENTRETENIMENTO/ ENTRETÉM – ENTRETIMENTO

Também na imprensa, mas sobretudo na rádio e na televisão, jornalistas, apresentadores e todo o bicho-careto que é entrevistado não param de nos bombardear com a palavra ENTRETENIMENTO.

Pior do que isso, é incharem-se dizendo que com bons programas de ENTRETENIMENTO, estão a fazer um bom serviço público de rádio ou televisão, quando afinal estão a prestar um péssimo serviço à nossa cultura e ao que de mais valioso existe na nossa identidade cultural: a Língua Portuguesa. E isso não é serviço público.

ENTRETENIMENTO (que palavrão tão difícil de pronunciar!) é um aportuguesamento abusivo do Castelhano ENTRETENEMIENTO. Mas notemos que para existir esta palavra no nosso léxico teríamos seguramente o verbo ENTRETENER. Ora este verbo não existe.

Então como dizer em português? Muito simples: ENTRETÉM ou ENTRETIMENTO. Como se vê, a nossa língua é muito rica e não traiçoeira como alguém popularizou.

2. ARMILA LITERÁRIA Selecção de textos de grandes autores

CEGUEIRA UNIVERSAL

“... Príncipes, reis, imperadores, monarcas de todo o mundo: vedes a ruína dos vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as formas, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da fé, vedes o descaimento da religião, vedes o desprezo das leis divinas, vedes a irreverência dos lugares sagrados, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da república, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre as vossas consciências, vedes as desatenções do Governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes e as vexações do pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e os gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Pais de famílias, que tendes casa, mulher, filhos, criados: vedes o desconserto e descaminho de vossas famílias, vedes a vaidade da mulher, vedes o pouco recolhimento das filhas, vedes a liberdade e más companhias de vossos filhos, vedes a soltura e descomedimento dos criados, vedes como vivem, vedes o que fazem, e o que se atrevem a fazer, fiados muitas vezes na vossa dissimulação, no vosso consentimento, e na sombra do vosso poder? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Padre António Vieira in “Do Sermão da Quaresma", pregado na Misericórdia de Lisboa, em 1669.

terça-feira, maio 02, 2006

1. ARMILA PRIMEIRA

Aqui está. Hoje, 1 de Maio de 2006 surge mais um blogue. Este. ARMILAR é o seu nome.

Porquê ARMILAR? Porque aqui se tratarão vários temas (sobretudo da área cultural) numa visão universalista, embora se dê predominância à Cultura Portuguesa, como contributo para a tirar dum certo marasmo em que se encontra.

Neste espaço daremos particular atenção à defesa da Língua Portuguesa, quer com a divulgação de textos de grandes autores, quer corrigindo alguns dos erros vulgarmente mais cometidos no linguajar do quotidiano. Outros temas da área cultural também terão aqui o seu espaço, como a música e, quiçá, algumas áreas da Ciência, à imagem da celebérrima Biblioteca Cosmos, do grande Bento de Jesus Caraça. Assim seja possível arranjar colaboradores.

Os leitores terão também oportunidade de dar o seu contributo com comentários e sugestões.

Se nos ler regularmente e divulgar o nosso endereço electrónico aos seus amigos, já nos sentiremos recompensados.

acs

1. ARMILA DO ASSOBIO

QUE É FEITO DA C P L P ?

O valor maior da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é a sua MATRIZ CULTURAL, já que a raiz e o tronco desta Comunidade é a Língua Portuguesa.

José Aparecido de Oliveira, notável figura do pensamento brasileiro e considerado o "pai" da CPLP, afirmou que "a Comunidade sempre existiu, faltava apenas dar-lhe forma". O certo é que se deu forma jurídica aos sentimentos dos povos lusófonos, mas a CPLP ainda não saiu da cepa-torta, estando adormecida à sombra duma qualquer bananeira, por incapacidade dos políticos.

Desde a sua fundação em 17 de Julho de 1996, que o lugar de Secretário-Executivo tem vindo a ser ocupado rotativamente por várias personalidades. Mas feito o balanço verificamos que ainda nenhum entendeu o poeta e cantor brasileiro Caetano Veloso, quando escreve: "Gosto de sentir a minha língua roçar/A Língua de Camões". Acções e resultados: ZERO.

Como tenho referido noutros lugares, organizações que assentam em bases económicas e/ou políticas, poderão ter os seus dias contados, como é o caso, por exemplo, da OTAN ou da União Europeia. Ao invés, instituições como a CPLP, que se firmam em raízes culturais e por vontade popular, poderão passar por muitas vicissitudes mas só acabarão quando e se os povos deixarem de existir.

É pois urgente, imperiosamente urgente, pôr a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, nas mãos de pessoas competentes e empenhadas, que lhe emprestem dinamismo e acção.

No próximo dia 17 de Julho é possível que os políticos da CPLP se reúnam à volta duns talheres e frente às câmaras de televisão se transformem em paladinos defensores da Língua Portuguesa. A caravana passará...

acs

1. ARMILA LINGUÍSTICA correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

RENTÁVEL/RENTABILIDADE RENDÍVEL/RENDIBILIDADE

Economistas, políticos, jornalistas, comentaristas, etc., usam frequentemente as palavras RENTÁVEL e RENTABILIDADE, o que para além de grave disparate, não passa duma péssima tradução do francês. Vejamos: para termos RENTÁVEL e RENTABILIDADE, teríamos que utilizar o verbo RENTAR, que tem um significado radicalmente diferente. RENTAR quer dizer, PASSAR RENTE. Quando queremos dizer que alguma coisa RENDE, isto é que produz lucros, ou que dá como produto os lucros, isto é que dá uma RENDA, o que significa a "soma de todos os bens económicos ou valores monetários que os indivíduos os as instituições acrescentam à sua riqueza anterior", devemos dizer RENDÍVEL e RENDIBILIDADE. Assim temos como correcto: RENDÍVEL e RENDIBILIDADE.

acs

1. ARMILA LITERÁRIA selecção de textos de grandes autores

A LÍNGUA PORTUGUESA

"E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar, é engraçada com um modo senhoril; para cantar é suave, com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com a gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas, nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias, nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade; e, se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta, quanto a nossa. E, para que lhe diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte."

in Corte Na Aldeia (1619) de Francisco Rodrigues Lobo
acs