A ACUMULAÇÃO DE EMPREGOS
"Quis? Quem sou eu? Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro, ou seja Arão secular, ou seja Arão eclesiástico. Eu sou um Desembargador da Casa da Suplicação, dos Agravos, do Paço. Sou um Procurador da Coroa. Sou um Chanceler-Mor. Sou um Regedor da Justiça. Sou um Conselheiro de Estado, da Guerra, do Ultramar, dos três estados. Sou um Vedor da Fazenda. Sou um Presidente da Câmara, do Paço, da Mesa da consciência. Sou um Secretário de Estado, das Mercês, do Expediente. Sou um Inquisidor. Sou um Deputado. Sou um Bispo. Sou um Governador do Bispado, etc. Bem está, já temos o ofício: mas o meu escrúpulo, ou a minha admiração, não está no ofício, senão no um. Tendes um só desses ofícios ou tendes muitos?
Há sujeitos na nossa Corte que têm lugar em três e quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios. Este ministro universal, não pergunto como vive, nem quando vive. Não pergunto como acode às suas obrigações, nem quando acode a elas. Só pergunto como se confessa? Quando Deus deu forma ao governo do mundo, pôs no céu aqueles dois grandes planetas, o Sol e a Lua, e deu a cada um deles uma presidência: ao Sol a presidência do dia: Luminare majus, ut proeesset diei; (Gen I-46) e à Lua a presidência da noite: Luminare minus, ut proeesset nocti. E porque fez Deus esta repartição? Por ventura porque se não queixasse a Lua e as estrelas? Não, porque com o Sol ninguém tinha competência, nem podia ter justa queixa. Pois se o Sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu; porque não proveu Deus nele ambas as presidências? Porque lhe não deu ambos os ofícios? Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios, ainda que seja mesmo o Sol. O mesmo Sol quando alumia um hemisfério, deixa o outro às escuras. E que haja de haver homem com dez hemisférios! E que cuide, ou se cuide, que em todos pode alumiar! Não vos admiro a capacidade do talento, a da consciência sim."
Pde. António Vieira - Do Sermão da Quaresma pregado na Capela Real em 1655, em que António Vieira, analisa moralmente a incompatibilidade da ocupação de certos cargos pelos políticos
2 comentários:
O assunto abordado no sec XVII pelo Padre António Vieira continua actual em pleno séc XXI.
Seria bom que este assunto fosse revisto de vez , mas para todos , mesmo todos, inclusivé políticos e titulares de cargos políticos.
Era bom que os políticos de hoje (em Portugal e no resto do mundo) lessem este texto do Padre António Vieira, matutassem no que ele nos diz e pusessem em prática os seus ensinamentos. Basta dos tais "Jobs for Boys", com que os três partidos que vão passando pelo poder nos brindam....
Carlos Alberto Lopes - Paris
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