terça-feira, novembro 14, 2006

10. ARMILA PRIMEIRA

A DECADÊNCIA DO RISO

" Foi o grande mestre Rabelais que disse: Ride! Ride! Porque o riso é próprio do Homem! Mas como poderia pensar de outro modo o tão profundamente humano abade de Meudon? Quando ele lançava este salutar ditame, o mundo todo, em torno, era alegre e ria! (...) De que provém esta desoladora decadência do riso? Haveria um estudo a compor sobre a "Psicologia da Macambuzice Contemporânea". Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único Homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artistica que matou o nosso riso..."
Este excelente naco de prosa, já com mais de cem anos, faz parte das Notas Contemporâneas de Eça de Queiroz. Faço questão de o trazer hoje aqui, por um lado para nos deliciarmos com a maravilha da prosa deste que foi um dos maiores vultos da literatura mundial; por outro para reflectirmos um pouco sobre a decadência do riso que já afligia o nosso grande Eça.
Esta coisa da alegria, da ventura, do júbilo ou do regozijo, que quantas vezes se manifesta pelo riso, tem-se vindo a perder ao longo dos tempos. E Eça de Queiroz é capaz de ter razão quando diz que isso é fruto da civilização que o Homem tem vindo a construir. Se não, notemos que cada vez são menos comuns, no nosso linguajar, expressões populares como: corar de riso, risão, dar riso, fazer riso de, risada, meter riso a, morrer de riso, rir a bandeiras despregadas, perder-se de riso, riso alvar, riso amarelo, riso cristalino, riso de paz, sorrriso, riso franco, riso homérico, sufocar de riso, ter boca de riso, risota e risoteiro, entre muitas outras em que o povo português é fértil.
Amigo e companheiro de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, a propósito da eloquência parlamentar portuguesa, escrevia n'As Farpas, esta delícia: "Os homens mediocres, os espíritos estreitos que em todas as reuniões formam maiorias e dão às assembleias o seu carácter predominante, à força de se imitarem, de se desgastarem em velhas questões, sempres as mesmas, sem princípios, sem ideias, sem estudo, sem interesse na verdade, sem sacrifício, sem elevação, acabaram por fazer da eloquência parlamentar portuguesa uma atafona de palavrões estafados, de fórmulas ocas, velhas imagens pegajosas e safadas, como as cartas dum baralho imundo pelas dedadas sórdidas de vinte anos de bisca. Esta retórica trôpega, relaxada e senil, não podendo criar uma língua forte e digna, deu o ser a um estilo especial de malandragem política; fez a gíria constitucional, a geringonça parlamentar, o calão burguês."
Se atentarmos bem neste texto, Ramalho Ortigão, se é verdade que aborda um tema sério, não é menos verdade que o faz com elevada dose de humor. Dum humor fino e mordaz. Esta notável capacidade de rir dos políticos do seu tempo, fez de Ramalho um dos raros escritores que ainda escreviam com humor, pois tal como Eça nos diz, a capacidade de rir estava em decadência.
Os portugueses sempre tiveram o condão de saber rir, mas, porque somos um povo de extremos, ora rimos, ora ficamos macambúzios. Esta nossa capacidade de satirizar, de rirmos de tudo e de todos, até de nós próprios, ou de rirmos tão simplesmente de alegria, tem tido altos e baixos ao longo da nossa História.
Nós que somos um povo com um anedotário riquíssimo, estamos hoje em nova decadência humoristica. Talvez maior do que no tempo de Eça. A culpa, tal como nos diz o romancista, talvez seja da civilização que temos vindo a construir. Confiemos que o nosso anedotário e a nossa capacidade de rir regressem muito em breve ao nosso quotidiano.
acs.

1 comentário:

Anónimo disse...

É com aprazimento que constato o reavivar das boas memórias literárias portuguesas. Possa o blog continuar mantendo esta cadência de publicação de textos. (Só se lamenta que a periocidade não seja maior; mas tal é compreensível dado os afazeres do seu autor e o período festivo que se vive).

Um abraço

Samuel Mateus