RELÓGIOS FALANTES
RELÓGIO DA ALDEIA:- Daí vem que das cousas que há no mundo mais falado são horas, porque não há cousa na boca dos homens fremente como "em boa hora", "em má hora", "ide com as horas más", "vinde com as horas boas", "uma hora muito formosa", "nas horas de Deus", "logo nessas horas", "as horas peremptórias", "as horas sucessivas", "são horas", "a que horas", "a desoras", "fora de horas", e outros mil modos de dizer, como se a gente em nenhuma outra cousa, que nas horas, empregasse o sentido. Até os matemáticos dizem que chamam horas planetárias; até os físicos, críticas; e até os poetas lhe chamam negras.
RELÓGIO DA CIDADE:- As cores das horas lhes dão sucessos, como já foi costume de alguma gente antiga, que, aos dias alegres e ditosos, contavam com pedras brancas, e, aos tristes e desgraçados com pedras negras. Ainda hoje nas confrarias se usa dar os votos na cor das favas, para encobrir a dos corações; e, para dizer "sim" ou "não", tem as brancas por afirmativa e, por negativa, as negras. Porém, nós todos as ministramos de uma mesma cor. A superstição dos homens lhas pinta como quer, porque, não contentes de serem tintureiros de afectos, o querem também ser das horas e cada um as tinge à sua vontade...
D. Francisco Manuel de Melo, in Apólogos Dialogais - Relógios Falantes
1 comentário:
Parabéns ao seu autor por nos fazer recordar bons autores portugueses .
Continue pois, com estes blogues linguísticos e literários , que vale a pena manter.
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