quinta-feira, janeiro 25, 2007

6. ARMILA LINGUÍSTICA

INDOCHINÊS E INDO-CHINÊS

Anda aí, na nossa imprensa, uma grande confusão (para não dizer ignorância), a que importa pôr cobro.

Refiro-me às notícias que surgem relativamente ao poderio económico da Índia e da China, que o resto do mundo não consegue acompanhar. Que a China seja o maior credor mundial dos E. U.A., pois possui a maior reserva mundial de dólares americanos e é o seu principal financiador económico, isso é lá com eles, mas nós é que pagamos as favas...

Porém o que aqui nos interessa são os vocábulos em título: INDOCHINÊS e INDO-CHINÊS. Referindo-se a estes dois potentados económicos, tecnológicos e científicos, lemos na nossa imprensa com regularidade estes dois vocábulos aplicados indistintamente em frases como esta: "As economias indochinesas,..." , "As economias indo-chinesas,..." . Isto conforme o apetite de quem escreve!...

Ora INDOCHINÊS e INDO-CHINÊS, são duas palavras que podem funcionar como adjectivos: a primeira para significar "relativo ou pertencente à Indochina" e a segunda "relativo à Índia e à China"ou "relativo aos Hindus e aos Chineses". A primeira (Indochinês) pode ainda funcionar como substantivo para designar aquele que é "natural ou habitante da Indochina".

As flexões destes vocábulos são simples: indochinês, indochinesa, indochineses, indochinesas; indo-chinês, indo-chinesa, indo-chineses e indo-chinesas.

Importa não confundir os sentidos destes dois vocábulos. E quem escreve na imprensa diária ou semanal, tem obrigação de não cometer tão grosseiro erro.
acs

12. ARMILA LITERÁRIA

RELÓGIOS FALANTES


RELÓGIO DA ALDEIA:- Daí vem que das cousas que há no mundo mais falado são horas, porque não há cousa na boca dos homens fremente como "em boa hora", "em má hora", "ide com as horas más", "vinde com as horas boas", "uma hora muito formosa", "nas horas de Deus", "logo nessas horas", "as horas peremptórias", "as horas sucessivas", "são horas", "a que horas", "a desoras", "fora de horas", e outros mil modos de dizer, como se a gente em nenhuma outra cousa, que nas horas, empregasse o sentido. Até os matemáticos dizem que chamam horas planetárias; até os físicos, críticas; e até os poetas lhe chamam negras.

RELÓGIO DA CIDADE:- As cores das horas lhes dão sucessos, como já foi costume de alguma gente antiga, que, aos dias alegres e ditosos, contavam com pedras brancas, e, aos tristes e desgraçados com pedras negras. Ainda hoje nas confrarias se usa dar os votos na cor das favas, para encobrir a dos corações; e, para dizer "sim" ou "não", tem as brancas por afirmativa e, por negativa, as negras. Porém, nós todos as ministramos de uma mesma cor. A superstição dos homens lhas pinta como quer, porque, não contentes de serem tintureiros de afectos, o querem também ser das horas e cada um as tinge à sua vontade...

D. Francisco Manuel de Melo, in Apólogos Dialogais - Relógios Falantes