segunda-feira, março 26, 2007

13.ARMILA LITERÁRIA

O "MIANTONOMAH"

O nosso mundo europeu é também uma estranha amontoação de contrastes e destinos; é uma época esta anormal em que se encontram todas as eflorescências fecundas e todas as velhas podridões; políticas superficiais; grandes fanatismos: e ao mesmo tempo um desafogo das livres consciências, expurgação dos velhos ritos, e a alma moderna ligada na sua moral e na sua justiça às almas primitivas com exclusão da Idade Média; políticas pacíficas e transigentes, e um espírito de guerra surdo, aceso e flamejante: territórios violentados e conquistados, e a aniquilação pela política, pela história e pela filosofia dos conquistadores e dos heróis: nem são as influências monárquicas, nem é o individualismo; nem é o humanitarismo, nem são os políticos egoístas, não é a importância das individualidades, nem a importância dos territórios; é uma confusão horrível dos mundos, e, em cima, triunfal e soberba, está a indústria, entre a música dos metais, as arquitecturas das Bolsas, reluzente, cintilante, colorida, sonora, enquanto no vento passa o seu sonho eterno que são fortunas, impérios, festas, empresas, parques, serralhos.
Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, justo, bom, livre, move-se em germe um novo mundo económico.

EÇA DE QUEIROZ in Prosas Bárbaras

quarta-feira, março 07, 2007

13. ARMILA LITERÁRIA

TRÊS AMERICANOS

... O primeiro é dos estados do Sul, da Carolina ou da Luisiana. O Sol deu-lhe mais ênfase meridional, é o mais rápido, o mais flexível, o mais pomposo; vai como a coberta de um paquete: os braços parecem duas velas suplementares, e o charuto fumega-lhe como um cano.
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O outro do Norte - grosso, vermelho, forte, leva em si todo o orgulho da América. Sente-se cheio de honra de ser um cidadão dos Estados Unidos. É por isso que entende que se deve dar a todos os deveres civis da união; é brucheiro, fundou uma escola ou um clube, odeia a Inglaterra, masca o inglês...
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O outro, de barbas brancas, cabelo comprido e caído em roda da cabeça, como a aba dum capacete, é do Canadá; raça que pretende ter teorias: é dissidente no protestantismo, mas espalha Bíblias. Ocupa-se sobretudo de estatísticas.
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Três são. Uma coisa têm de comum - a individualidade, o myself. Eu mesmo, eu cidadão americano, de resto nada. Outro ponto de contacto: nunca se esperguçam. De resto, com toda a sua civilização, a sua riqueza, o seu ouro, o seu myself, o seu ruído sobre o planeta, a sua intimidade com Deus, não seriam capazes, todos juntos, desde o Canadá até Filadelfia, desde o presidente Grant até ao Negro, que agora geme atrelado ao algodão, de fazer um verso deMusset, ou um desenho de Delacrix. E têm outra desgraça: assoam-se muito.
De resto são magníficos.

Eça de Queiroz - Notas contemporâneas

8. ARMILA LINGUISTICA

FAIR PLAY

Anda muito em voga, como se de palavra portuguesa se tratasse, o termo fair play. Anda tanto em uso que até já passou do linguajar desportivo para o linguajar político e até económico.
Com o andar dos tempos os off-sides, os corners, os forwards, etc. deixaram de fazer parte da linguagem desportiva e foram adoptados termos em Língua Portuguesa.
Quanto ao FAIR PLAY, até os analfabetos sabem o que quer dizer, graças à força da televisão, o que não o sendo, se torna grave pois não utilizam a língua materna em favor da estranha. Tal como nos exemplos que acima referi, pareciam palavras de difícil adaptação à nossa língua, por parecerem ter um cunho inteiramente inglês, mas foram banidas do nosso linguajar e hoje é em Português que nos entendemos. Mas então como dizer FAIR PLAY na nossa língua? Basta consultar um qualquer bom dicionário de Inglês/Português, como, por exemplo o NOVO MICHAELIS que diz: FAIR PLAY - jogo limpo, conduta equitativa, rectidão, honestidade.
Que as gentes do desporto (em particular do futebol) e os jornalistas, que devem dar o exemplo e fazer serviço público, dobrem a língua e falem Português.
acs