TRÊS AMERICANOS
... O primeiro é dos estados do Sul, da Carolina ou da Luisiana. O Sol deu-lhe mais ênfase meridional, é o mais rápido, o mais flexível, o mais pomposo; vai como a coberta de um paquete: os braços parecem duas velas suplementares, e o charuto fumega-lhe como um cano.
...
O outro do Norte - grosso, vermelho, forte, leva em si todo o orgulho da América. Sente-se cheio de honra de ser um cidadão dos Estados Unidos. É por isso que entende que se deve dar a todos os deveres civis da união; é brucheiro, fundou uma escola ou um clube, odeia a Inglaterra, masca o inglês...
...
O outro, de barbas brancas, cabelo comprido e caído em roda da cabeça, como a aba dum capacete, é do Canadá; raça que pretende ter teorias: é dissidente no protestantismo, mas espalha Bíblias. Ocupa-se sobretudo de estatísticas.
...
Três são. Uma coisa têm de comum - a individualidade, o myself. Eu mesmo, eu cidadão americano, de resto nada. Outro ponto de contacto: nunca se esperguçam. De resto, com toda a sua civilização, a sua riqueza, o seu ouro, o seu myself, o seu ruído sobre o planeta, a sua intimidade com Deus, não seriam capazes, todos juntos, desde o Canadá até Filadelfia, desde o presidente Grant até ao Negro, que agora geme atrelado ao algodão, de fazer um verso deMusset, ou um desenho de Delacrix. E têm outra desgraça: assoam-se muito.
De resto são magníficos.
Eça de Queiroz - Notas contemporâneas
Sem comentários:
Enviar um comentário