A ATITUDE DA EUROPA
(Hoje tal como no tempo do Eça)
Não falemos mais na Europa. Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um por seu turno se adiante - e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto do seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do Direito Internacional, alumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta e rompem a cada momento brados de povos assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: Beweare of pick-pokets! (Cautela com os salteadores!)
A pequena propriedade política tende a acabar. Toda a terra vai em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietérios... Ontem, era Tunis - porque a França necessita proteger a fronteira da Argélia. Hoje é o Egipto, porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da Índia. Amanhã, será a Holanda - porque a Alemanha não pode viver sem colónias. Depois, a Sérvia - por motivos que a seu tempo a Áustria dirá. Mais tarde, a Roménia - porque a Rússia é forte. Depois a Bélgica - porque sim. Depois...
Este assunto é lúgubre. Voltemos ao vale do Nilo!
Eça de Queiroz, in Cartas de Inglaterra
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