RAMALHO ORTIGÃO
Há dois mil anos a China, num momento de grande impulso interior, abriu os olhos da alma e concebeu, num relance, uma certa ideia de Universo, do Homem, da Arte e da Sociedade: dois mil anos passaram e a China persiste, impassível, na adoração e no uso destas concepções primitivas. O português moderno tem muito do chinês. A primeira impressão que nos vem à retina, fica-nos perpetuamente no espírito. Ramalho Ortigão há anos (o seu talento podia dizer há séculos), foi visto no Chiado com um chapéu de panamá, gabando os méritos de Mademoiselle Rigolboche, a antiga Carlos Magno da prostituição; há sujeitos para quem Ramalho, apesar de trinta volumes de "Farpas", é ainda hoje o homem do chapéu panamá e o Plutarco de Mademoiselle Rigolboche.
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Apenas nas "Farpas", Ramalho Ortigão bem depressa achou a sua forma: desembaraçou-se da velha armadura quinhentista - e saltou de dentro, rápido, vivo, brilhante, vergando e sacudindo a sua frase como uma lâmina de florete. Mas antes de atacar, ele não o pode negar, teve um momento de hesitação, muito perdoável, decerto; via diante de si, na fileira inimiga, tantos santos da sua antiga devoção! É duro, por exemplo, para um velho conservador, ter de atirar estocadas ao belo peito do orador do parlamentarismo, de voz sonora e presença agradável: é duro para um antigo literato, frequentador do "Amor e Melancolia", ir perseguir de ferro em punho, até debaixo das saias da Academia, todo um povo agachado e trémulo de tropos e de lirismo.
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Ramalho exitava: aqueles réus eram os seus deuses. Teve um acto de grande, de tocante honestidade: foi, ele mesmo, refazer-lhes o processo... voltou desolado: os deuses eram de palha! Testas, corações, que julgara cheios, davam o som de oco. E o seu velho mundo, que amara, e que sempre julgara forte e são como mármore, tinha fendas esbeiçadas por onde escorria vérmina!
Não tardou a hesitar: o folhetinista delirante acabava; começava o panfletário ilustre.
O primeiro fim das "Farpas" foi promover o riso. O riso é a mais antiga e a mais terrível forma da crítica.
Eça de Queiroz - Notas Contemporâneas (carta a Joaquim de Araújo - Newcastle, 25 de Fevereiro de 1878)
1 comentário:
Eça e outros bons escritores é sempre bom relembrar.Obrigada pois por nos recordá-los.
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