quinta-feira, outubro 23, 2008

22.ARMILA LIERÁRIA

A ARTE JAPONESA



Falemos agora especialmente da pintura, para que temos já adquirido, nestes devaneios humorísticos de palestra, elementos valiosos de análise.
Uma pintura japonesa é sempre uma inovação. Adivinha-se o trabalho do pincel, não se esforçando em reproduzir a natureza, não em ser criador, mas em traduzir a impressão persistente que nos fica do espectáculo da mesma natureza. Eu me explico melhor exemplificando: o pincel nipónico não concebe a veleidade de criar uma rosa, o que só pode, bem pensado, fazer o Pai do céu; prescinde do modelo, fá-la de cor; quando a traça, não se preocupa em ir enganar as abelhas, que venham esvoaçar sobre o papel em busca de mel para o seu cortiço; preocupa-se apenas da flor; no que dela persiste mais intenso na reminiscência, pelos seus atributos dominantes; é como se se dissesse que aquele pincel inteligente não pinta, pensa e recorda.
Um tal carácter de orientação é que explica, a meu ver, todos os segredos, todos os processos da pintura, e em geral da arte nipónica. O princípio, em si, parece sujeitar-se fielmente ao jogo psicológico das faculdades humanas. Quando vós, rapazes, invocais em amorosos devaneios os rostos adorados das namoradas ou das amantes, esses rostos surgem no fundo vago das abstracções, sem cenário portanto, sem que se protejam por exemplo sobre a ramagem de acaso que veste as paredes das vossas alcovas. Pela mente do ambicioso perpassam cintilações de oiros, acastelamentos de libras, sem que procure nem de leve fixar-se nas feições do serviçal, que lhes batesse à porta jungido com o tesouro. O espírito, a memória fazem a sua escolha, inconscientemente embora, e diluem na penumbra do olvido as qualidades secundárias.
Dá-se o mesmo rigorosamente com o pincel japonês: o desenho, a pintura vêm despidos de supérfluos; são para sentir-se e não para ver-se. Compreende-se aonde isto pode levar, e leva, a originalidade do traço; compreende-se como essa pintura seja estranha, disparatada mesmo, para um desprevenido ou para um irreflectido, e sugestiva para quem a assimile.

VENCESLAU DE MORAIS, in Dai-Nippon ( O GRANDE JAPÃO)

1 comentário:

Anónimo disse...

A pintura oriental também é linda para se apreciar.É necessário ter em conta a cultura oriental, mas não deixa de ser bela.Foi o que fez Venceslau de Morais.