quarta-feira, outubro 28, 2009

ARMILA LINGUÍSTICA

RADIACTIVIDADE OU RADIOACTIVIDADE? (II)

Num dos comentários à anterior Armila Linguística, podemos ler a opinião de um dos maiores mestres da Linguística, o professor D'Silva Filho, figura notável do pensamento brasileiro e autor de vasta e valiosíssima obra sobre a Língua Portuguesa. Discordando de José Pedro Machado, quanto à sua preferência por radiactividade em contraponto com radioactividade, apesar de dicionarizar ambos os vocábulos. Aqui fica o seu texto:

" Confesso a minha ignorância por não saber a preferência de José Pedro Machado por radiactividade. «Radi» significa aparelho de «rádio», mas é um regionalismo, segundo as minhas fontes. Horror ao hiato?
Que se prefira, por exemplo, sobrelevação a sobreelevação, compreende-se, pois que o segundo «e» é praticamente mudo, enquanto em radiactividade foi suprimido o elemento de ligação habitual nos compostos com o antepositivo rádio-. Por meu lado, prefiro radioactividade, que no novo Acordo Ortográfico será radioactividade".
23.10.2009
D'Silva Filho

A diferença de opinião entre linguistas sempre foi um sinal de pujança das línguas. No caso da nossa, a Portuguesa, ela, como dizia o poeta José Carlos Ary dos Santos, é força e vida.
Este espaço está aberto aos linguistas. Todas as opiniões que nos chegarem sobre este assunto, serão aqui publicadas. Como diz o Povo, da discussão nasce a luz. A palavra aos linguistas.
acs

quarta-feira, outubro 21, 2009

ARMILA LINGUÍSTICA

RADIACTIVIDADE OU RADIOACTIVIDADE?

A dúvida chegou-me do Brasil pela mão Amiga da Margarida de Castro, que me relatou várias opiniões e sensibilidades. Aqui vai mais uma achega.

Consultado o GRANDE DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, da Sociedade da Língua Portuguesa, que este ano comemora 60 anos de existência, eis o que lá consta:

RADIACTIVIDADE, s.f. O mesmo e melhor que radioactividade.
RADIACTIVO, adj. O mesmo e melhor que radioactivo.
RADIACTOR, adj. O mesmo e melhor que radioactor.
RADIOACTIVIDADE Que sofreu radioactivação. Designativo de líquido a que se misturou água radioactiva. Propriedade que possuem certos elementos, tais como o urânio, o tório, o rádio, etc., de emitir espontâneamente radiações corpusculares. Vj. radiactividade.
RADIOACTIVO Que possui radioactividade. Vj. radiactivo.
RADIOACTOR Actor de rádio. Vj. radiactor.


O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (7 volumes + 1 de actualização) foi coordenado pelo grande mestre linguista José Pedro Machado, com quem tive a honra de partilhar uma boa amizade. A pergunta baila já na cabeça de todos: Então se José Pedro Machado entende que RADIACTIVIDADE (e seus derivados) é a forma mais correcta, qual a razão de nos remeter para RADIOACTIVIDADE? Simplesmente porque é a palavra mais comum no nosso linguajar quotidiano.

A preferência deve ser dada a RADIACTIVIDADE, mas para que esta palavra entre no léxico do nosso dia-a-dia, isto é, dos falantes da nossa Língua, é necessário um grande esforço. Dizer RADIOACTIVIDADE, também é bom Português. É esta mais uma das maiores riquezas da Língua Portuguesa.
acs

quarta-feira, junho 03, 2009

ARMILA LITERÁRIA

QUADRAS DE
ANTÓNIO ALEIXO

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que meus versos possam ter.
...............................................
Julgam-me muito sabedor;
e é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!
............................................
Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
...............................................
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
......................................................
É um moço inteligente
o que passou há bocado;
julga enganar toda a gente,
mas ele é que é enganado.
...................................................
P'ra te tornares distinto
e mostrar capacidade,
dizes sempre que te minto,
quando te digo a verdade.
...................................................
O meu merceeiro é um santo
a há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só:- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.
....................................................
És parvo, mas és distinto,
só vês o bem que tens perto;
não compreendes que te minto
quando te trato por esperto?
.......................................................
Descreio dos que me apontem
uma sociedade sã:
isto é hoje o que foi ontem
e o que há-de ser amanhã.
......................................................
Sem que o discurso eu pedisse,
ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
..............................................
Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes - esqueceste
tudo quanto prometias...
...................................................
Os que bons conselhos dão
às vezes fazem-me rir,
- por ver que eles próprios são
incapazes de os seguir.
.....................................................
Eu era mendigo outrora,
tantas esmolas pedi,
que não sei dizer agora
quantas vezes me vendi.
....................................................
Fiz do meu estro uma vara
para medir a verdade
e dar com ela na cara
do cinismo e da vaidade.
.....................................................
Se tudo me foi vedado,
se vivi de tudo à míngua,
deixai que vos mostre a língua
com o freio bem cortado.
................................................
Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.
....................................................
Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
.......................................................
Fizeste-te meu amigo
por teres medo de mim;
não posso contar contigo,
não quero amigos assim.
......................................................
Não me faças cumprimentos,
deixa-te de hipocrisias:
o alívio aos sofrimentos
não se dá com cortesias.
...................................................
Negociando viveste,
tens dinheiro e excelência;
são coisas que recebeste
a troco da consciência.
........................................................
Jesus disse que se amassem
aos que cristãos se proclamam;
não disse que se matassem,
e eles matam-se e não se amam.
...........................................................
S. João, reparem nisto,
teve este grande condão:
ao baptizar Cristo
foi quem fez Cristo cristão.
.................................................
Gosto de apertar a mão
áspera dos calos que tem;
também as côdeas de pão
são ásperas, mas sabem bem.
......................................................
O pão negro, onde ele é raro,
faz sempre melhor figura
do que o pão alvo e mais claro
na mesa onde há fartura.
........................................................
Roubou-lhe p primeiro beijo
o patrão, que a iludiu...
hoje o seu corpo é sobejo
da casa onde serviu.
..................................................
Perdida de canto a canto,
dormindo em qualquer portal;
se era rica, causa espanto,
se era pobre... é natural.
.............................................
(Reconhecendo a sua incapacidade para cuidar da filha tuberculosa)

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.

terça-feira, junho 02, 2009

ARMILA LITERÁRIA

O POETA DO POVO

ANTÓNIO ALEIXO
(1899-1949)


António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António a 18-02-1899 e faleceu em Loulé a 16-11-1949. Este poeta popular algarvio foi, no mais rigoroso sentido do termo, um autodidacta. Quase analfabeto, foi pastor, pedreiro, emigrante, tecelão e cauteleiro. Andando de feira em feira vendendo lotaria, improvisava à guitarra e vendia também avulsamente pequenas folhas com quadras e glosas. Foi aliás nas feiras que encontrou motivos de inspiração para a sua obra.
Seu grande Amigo, redactor e compilador da sua Obra foi o professor de Liceu Joaquim de Magalhães, que ao prefaciar em 1943 o seu livro «Quando Começo a Cantar», garante que "embora não totalmente analfabeto - sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros - não é capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto".
Quando a sua obra poética e teatral (Teatro Popular) foi reunida num livro único, com o título Este Livro Que Vos Deixo em 1969 e na sua reedição de 1970, conseguiu o feito inédito de, durante semanas seguidas ocupar o primeiro lugar dos livros mais vendidos em Portugal. E a razão é simples: A FORÇA SINGULAR DAS SUAS QUADRAS, como aliás também nos diz Joaquim de Magalhães: "A razão desta singularidade está em que o conteúdo das quadras e dos esboços de teatro, contidos no volume, correspondia a preocupações morais e aspirações sociais que, já por esse tempo, animavam as consciências de grande número de portugueses. E sob a forma lapidarmente sintética de muitas das quadras do singular poeta algarvio, explodia, ou sorria, a expressão contundente ou contestatária de velados ou explícitos protestos humanos e justos, perante uma sociedade fortemente policiada e dificilmente vulnerável por outras formas directas de crítica ou ataque frontal."
Ironizando bastas vezes a partir de si próprio, a sua crítica social é mordaz e certeira. Dotado de invulgar capacidade de fazer quadras de sabor popular e aforismático, ele sintetiza magistralmente o seu pensamento crítico e moral.
Apesar da sua falta de instrução António Aleixo é um poeta sempre actual. O mundo-cão em que vivemos a isso o obriga. Saibamos nós mudar o mundo.
A leitora deste blogue, Estela Lisboa do Rio de Janeiro, no comentário ao texto que fiz sobre João Cabral de Melo Neto, solicitou que falasse sobre António Aleixo por ele não ser conhecido no Brasil. A apresentação, breve, de António Aleixo aqui está. Na próxima página divulgarei algumas quadras de António Aleixo. A Estela Lisboa, o meu profundo agradecimento por me ter possibilitado falar deste autor da minha preferência.
Para qualquer eventual publicação no Brasil da Obra de António Aleixo (era bonito que uma editora brasileira assumisse a edição) o melhor será contactar a Fundação António Aleixo, entretanto criada. Em Portugal, de momento, as edições estão esgotadas. Aqui fica o sítio na Internet da Fundação, bem como o seu endereço electrónico:
http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt
fundacao.aleixo@mail.telepac.pt
OBRA COMPLETA DE ANTÓNIO ALEIXO: Quando Começo A Cantar (1943), Intencionais (1945), Auto Da Vida E Da Morte (1 Acto) (1948), Auto Do Curandeiro (1 Acto) (1949), Auto Do Ti Joaquim (2 Actos) (inédito até à inclusão em 1969 em Este Livro Que Vos Deixo), Este Livro Que Vos Deixo (1969), Tremem De Medo Os Tiranos (Inéditos) (1978)
acs

terça-feira, maio 26, 2009

ARMILA LITERÁRIA

TEATRO

Gil Vicente (1465?-1536?), o fundador do Teatro Português, de há muito merecia uma referência neste meu blogue. A crítica foi-me feita e aceito-a. Mas falar dele é uma redundância num espaço tão curto como este. Opto por transcrever parte duma das suas Obras. A escolha de Todo-O-Mundo e de Ninguém, não é inocente. Ela reflecte a permanente actualidade da Obra de Gil Vicente. Se esta Peça de Teatro fosse escrita hoje não teria mais actualidade em qualquer parte do mundo. Deliciemo-nos, pois.
acs

TODO-O-MUNDO E NINGUÉM

«Apresentada a vida quotidiana duma família judaica, que se prepara para assistir a um Auto de Gil Vicente, um licenciado faz considerações sobre o autor, a quem, segundo ele, Sibila ensinara os segredos do Portugal antigo. Surge Portugal que se enamora de Lusitânia, a quem seu pai, o Sol, por intermédio de Maio, envia um novo esposo, Mercúrio. Acompanham-no deusas, que cantam e dançam e os capelães destas, Dinato e Berzebu, que decidem anotar o que virem para informar Lucifer
Código:BERZEBU (BER)/TODO-O-MUNDO (TM)/NINGUÉM(NIN)DINATO (DIN)
.......................................
BER Por darmos alguma conta
ao deus rei Lucifer,
põe-te tu a escrever
tudo quanto aqui se monta,
e quanto virmos fazer;
porque a fim do mundo é perto,
e pera o que nos hão-de dar,
cumpre-nos ter de alegar;
pois pera provar o certo,
escreve quanto passar.

Entra Todo-O-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu e logo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:

NIN Que andas tu i buscando?
TM Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quam bom é porfiar.
NIN Como hás nome cavaleiro?
TM Eu hei nome Todo-O-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

NIN E eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
BER Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
DIN Que escreverei, companheiro?
BER Que Ninguém busca consciência,
e Todo-O-Mundo dinheiro.

NIN E agora que buscas lá?
TM Busco honra muito grande.
NIN Eu virtude que Deos mande
que tope com ela já.
BER Outra adição nos acude:
que busca honra Todo-O-Mundo,
e Ninguém busca virtude.

NIN Buscas outro mor bem qu'esse?
TM Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
NIN E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errasse.
BER Escreve mais:
DIN Que tens sabido?
BER Que quer em extremo grado
Todo-O-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser reprendido.

NIN Buscas mais, amigo meu?
TM Busco a vida e quem ma dê.
NIN A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
BER Escreve lá outra sorte.
DIN Que sorte?
BER Muito garrida:
Todo-O-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.

TM E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NIN E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
BER Escreve com muito aviso.
DIN Que escreverei?
BER Escreve
que Todo-O-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.

TM Folgo muito d'enganar,
e mentir naceu comigo.
NIN Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
BER Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
DIN Quê?
BER Que Todo-O-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.

NIN Que mais buscas?
TM Lisonjar.
NIN Eu sou todo desengano.
BER Escreve, ande lá mano.
DIN Que me mandas assentar?
BER Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-O-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
........................................................

Gil Vicente, in Auto da Lusitânia

sábado, maio 23, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)
(1906-1997)

António Gedeão é o pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho. A sua revelação tardia como poeta, aos 50 anos, leva Jorge de Sena a considerá-lo como o lídimo continuador de toda a herança modernista. A sua primeira obra poética (Movimento Perpétuo) data de 1956, mostra-nos um professor de Ciências Fisico-Químicas, não liberto do seu saber técnico - o que só vem a enriquecer a sua poesia - mas pleno duma notável sensibilidade, só possível num homem já maduro e com um olhar atento à realidade social e política que o rodeia. Com o seu segundo livro, Teatro do Mundo (l958, consegue logo a consagração definitiva. A força de poemas como Fala do Homem Nascido, Ode Metálica, Poema do Homem Só e Calçada de Carriche, foi determinante.
Apesar da sua elevadíssima intelectualidade, António Gedeão conseguiu ser um poeta popular, graças à divulgação que Manuel Freire deu à sua obra, ao musicar e cantar alguns dos seus poemas. Nos anos 60 do SEC. XX, Portugal estava ávido de mudança política e a elegância que António Gedeão dá à sua poesia, fez com que os esbirros da Censura não o entendessem. Mas o Povo entendeu. Pertence pois ao raro escol daqueles que conseguem, em vida, subir às alturas do Povo, para utilizar as palavras de Pedro Homem de Melo.
Assinando com o seu próprio nome, Rómulo de Carvalho, publicou vários livros escolares especializados, que revelam a sua vasta obra literária, destacam-se títulos como Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), 4 Poemas da Gaveta (s/d), Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990), entre muitos outros. De salientar estes dois títulos que foram publicados ainda em vida. A razão dos títulos deve-se (disse o próprio António Gedeão) ao facto de já se considerar morto como poeta... O certo é que ainda hoje está vivo no sentir do Povo e as novas gerações ainda devoram os seus livros.

acs

sexta-feira, maio 22, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)


PEDRA FILOSOFAL*

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

*in MOVIMENTO PERPÉTUO (1956)

quarta-feira, maio 06, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

LAURO MOREIRA
UM HOMEM SEM PAPAS NA LÍNGUA

De há muito, particularmente nas Crónicas que mantive na RDP-Internacional, que tenho apontado o dedo aos políticos, pela sua inacção, tanto na defesa da Língua Portuguesa, como até no falar, pois não são poucas as vezes em que se abastardam, por pedantice bacoca, falando em línguas estrangeiras.
Isto mesmo o reconheceu ontem o Embaixador do Brasil, junto da CPLP. No Colóquio Sobre a Unidade e Diversidade Cultural na CPLP, que ontem teve lugar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, Lauro Moreira acusou os políticos de todos os países da CPLP, ao afirmar que "há um reconhecimento hoje, por parte de nós todos da CPLP, que este (a Língua Portuguesa) é o elo mais fraco da corrente e é um absurdo completo porque ele deveria ser o mais forte, pois é o cimento da organização".
A promoção da Língua Portuguesa cabe-nos a todos nós cidadãos, mas aos políticos exige-se toda a responsabilidade, pois, por via do voto, foi neles que delegámos todas as competências. Finalmente lá apareceu alguém, com responsabilidades, que assumiu frontalmente a defesa e a promoção da Língua Portuguesa, exigindo responsabilidades aos governos. De Lauro Moreira, um homem da Cultura, outra coisa não era de esperar, mas por isso mesmo merece o nosso apoio e o nosso abraço.
acs

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Brasil)
(9-1-1920/9-10-1999)
Bastar-lhe-ia ter escrito "Morte e Vida Severina", para ficar imortalizado na História das Literaturas de Língua Portuguesa. de si próprio disse, ao já extinto jornal português A Capital, em 1985: "Considero-me na linha dos poetas marginais, fora da tradição essencialmente lírica" (...) "O poeta não é só o guardião da palavra. O guardião da palavra é o gramático e por isso vive discutindo com o poeta".
Era considerado um poeta isolado em relação à Geração de 1945 de que fazia parte, porque João Cabral de Melo Neto procurou a síntese e a depuração do Modernismo, abrindo um novo caminho para as novas gerações. A sua poesia é concisa e precisa. Ele bate-se contra o irracionalismo, pela desmistificação dos seus próprios mitos. A sua técnica dá ao poema uma estrutura quase arquitectónica. É por isso que ele diz que o poeta vive discutindo com o gramático.
João Cabral de Melo Neto abraçou a carreira diplomática. Em Barcelona, onde foi Cônsul, conheceu o poeta português Alberto Serpa. Travaram-se de Amizade, uniram esforços e de colaboração com José Régio e Pedro Homem de Melo fizeram a revista O CAVALO DE TODAS AS CORES, de que saiu apenas um único número, que hoje é um documento histórico.
Intelectual de primeira água, João Cabral de Melo Neto, debruçou-se sobre a realidade que o rodeava. A sua obra é vasta. Escreveu o primeiro poema, "Sugestão de Pirandelo", em 1937, mas é em 1942 que publica o seu primeiro livro, "Pedra de Sono". Seguem-se, entre outros, O Engenheiro, O Cão Sem Plumas, O Rio, Paisagens Com Figuras, Morte e Vida Severina (que Chico Buarque haveria de musicar, dando-lhe uma divulgação internacional, para o grande público). A obra de João Cabral de Melo Neto está hoje reunida em POESIA COMPLETA (1940-1980), numa notável edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa-1986) e com um Prefácio notabilíssimo do Professor Óscar Lopes.
Vencedor do Prémio Camões em 1990, Melo Neto é um verdadeiro artista da palavra. Provocatoriamente e por contraste com a intelectualidade de João Cabral de Melo Neto, que era um homem que sabia entender o Povo, apetece-me citar António Aleixo, um poeta popular português, quase analfabeto, que gosto de revisitar de quando em vez, e que também sabia ter um olhar atento e crítico sobre a sociedade que o rodeava: "A arte é a força imanente,/não se ensina, não se aprende,/não se compra, não se vende,/nasce e morre com a gente." (...) "A arte em nós se revela/sempre de forma diferente:/cai no papel ou na tela/conforme o artista sente."
João Cabral de Melo Neto, nasceu no Recife em 9 de Janeiro de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro a 9 de Outubro de 1999.
acs

terça-feira, maio 05, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (BRASIL)



MINHA POBREZA

(...)COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
-Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos meus irmãos,
de leite, de lama, de ar.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
- Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
- Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
- Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
- Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
- Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
- Eis ostras chegadas agora.
Apanhadas no cais da Aurora.
- Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
- Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
- Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
- Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
- Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
- Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

in Morte e Vida Severina (auto de Natal pernambucano)

quarta-feira, abril 29, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP


FERNANDO SYLVAN
(1917 - 1993)

Alípio Leopoldo Mota-Ferreira nasceu em Díli (Timor) em 1917 e faleceu em Lisboa em 1993. Literariamente conhecido sob o pseudónimo de Fernando Sylvan é um escritor de origem timorense. A sua obra abraça as áreas da poesia, do ensaio e da dramaturgia.
A poesia de Fernando Sylvan, área onde mais se destacou, é marcada por uma estilística que varia entre o modernismo e o panfletário, quando aborda a intervenção política (muito marcante na sua obra) sobretudo quando Timor é a referência: "Pedem-me um minuto de silêncio por Timor./Não me calarei."
Fernando Sylvan destaca-se sobretudo na poesia autobiográfica, particularmente na lírica amorosa, que assume um relevo especial. "Mulher, ou o Livro do Teu Nome"(1982), é uma obra de amor exacerbado, quase levado para além do limite dos extremos. No poema "O Mar" diz: "... Eu falei-lhe de ti./E o mar sentiu-se pequenino"...
A poesia de Fernando Sylvan é bivalente, pois tem tendências ensaísticas, ao mesmo tempo que é politicamente muito comprometida. Até por ter nascido português em Timor, ele tem um conceito de Pátria muito abrangente, um tanto ao estilo de Fernando Pessoa, que fazia da Língua Portuguesa a sua Pátria. Ele sempre foi português mas sentia-se também timorense. Não chegou a ter a alegria de ver a sua terra natal independente; porém chegou a confidenciar-me que quando Timor fosse independente assumiria a dupla nacionalidade. Referi-lo hoje aqui, é uma homenagem a Timor e a Fernando Sylvan.
Fernando Sylvan era um acérrimo defensor do fenómeno da aculturação, na linha do brasileiro Gilberto Freyre e da sua tese do luso-Tropicalismo. Da sua obra destacam-se, entre outros, na POESIA: 7 Poemas Por Timor/Tempo Teimoso/Meninas e Meninos/Cantogrito Maubere/Mulher ou o Livro do Teu Nome; no ENSAIO: Comunidade Pluri-Racial/Filosofia e Política no Destino de Portugal/A Universidade no Ultramar Português/A Língua Portuguesa no Futuro de África/Comunismo e Conceito de Nação em África e no TEATRO, duas obras: Duas Leis/Culpados.

acs

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
FERNANDO SYLVAN (TIMOR)

VELHAS FLORESTAS DE AGORA

Eu tinha uma floresta
quando era pequenino.
Ela era na montanha
no alto lá dos altos.
E havia outros meninos
que tinham mais florestas
nos altos lá dos altos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.
Espécie de poesia
de árvores e bichos:
o perfume do sândalo
a paz da casuarina
a flor do cafeeiro
a altura dos coqueiros
o estilo dos bambus
os laços dos cipós
os ecos dos toqués
o riso dos macacos
o salto dos veados
o canto dos loricos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.
Mas não era verdade.
Ilusão de meninos.
As florestas serviam
desde séculos e séculos
como templo sagrado
de rezar liberdade.
Nossos pais e avós
nas florestas secretas
iam gritar sua revolta
e rezar liberdade.
E escreviam no chão
e escreviam nas pedras
e escreviam nas árvores
contra o opressor
as palavras precisas
de rezar liberdade.
As florestas serviam
desde séculos e séculos
como templo sagrado
de rezar liberdade.
E ainda servem agora
a heróis guerrilheiros
como templo sagrado
de rezar liberdade!

in Cantogrito Maubere (Lisboa-1981)

terça-feira, abril 28, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - GUINÉ (BISSAU)

HELDER PROENÇA

Helder Proença nasceu em Bolama a 31.12.1956. teve formação académica em Portugal ainda nos tempos em que a Guiné era uma colónia portuguesa. Foi professor do Ensino Secundário, mas cedo se viu "obrigado" a entrar na política, tendo sido Presidente da Câmara Municipal de Bissau e deputado à Assembleia Nacional. De todas as ex-colónias portuguesas de África, a Guiné foi a que menos se desenvolveu e onde o analfabetismo melhor se instalou. Daí a grande falta de quadros dirigentes e o estado calamitoso em que ainda hoje se encontra.
Helder Proença, tal como os poucos escritores guineenses, sentiu a necessidade de avançar para a criação dum sistema literário nacional. A sua obra poética é marcada pelo período pós-colonial que, na Guiné levou consigo até aos dias de hoje a chancela de guerra de libertação e de independência.
Na linha da tradição da poesia de Amílcar Cabral, a poesia de Helder Proença mistura o humano com o político, pelo que o tema do amor não se limita ao ao binómio homem/mulher, mas abrange também o amor do Povo pela Pátria nascente. Em "Não Posso Adiar a Palavra" (1982) Helder Proença divide a obra em três partes, mas por todas elas passam os temas da africanidade e da identidade nacional duma Guiné nascente. O seu discurso é por isso de oralidade radical, militante e aparentemente pouco transparente.
A escolarização do Povo Guineense é uma batalha de Helder Proença. Mas as suas armas são fracas, por isso cabe a Portugal e à CPLP darem-lhe um exército de professores e as armas dos livros. OS PROFESSORES PORTUGUESES QUE LÁ ESTÃO, ESTÃO A FAZER UM TRABALHO NOTÁVEL. MAS SÃO TÃO POUCOS PARA AS NECESSIDADES DAQUELE POVO.

acs

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - GUINÉ (BISSAU)


NÓS SOMOS

Nós somos
aqueles que dia e noite
fazem com suas mãos
os alicerces da vida.

Nós somos
lágrimas, suor e sangue
que desafiando mortes e séculos...
fundiram esperanças e fé!

Nós somos irmãos
o florir, a madrugada
e o verde selvagem dos maquis
que em noites sombrias
trazem a canção da vida.

Nós somos
dança, música e ritmo
que em anos 40
sobreviveram à tempestade da fome.

Nós somos irmãos
terra, chuva e arado
que alimentam vidas
e alicerçam o Homem!


Nós somos
o tantã da verdade
em místicas noites do fanado
nós somos irmãos
a certeza e o porvir!

Helder Proença

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

ARMILA PRIMEIRA

POETAS DA CPLP - SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE


CAETANO COSTA ALEGRE
(1864-1890)


Caetano da Costa Alegre nasceu em S. Tomé em 1864 e veio a falecer em Portugal, na vila de Alcobaça em 1890, três anos depois de se ter matriculado no curso de Medicina na Escola Naval.
O seu único livro, "Versos", foi editado postumamente em 1916 e teve duas reedições em 1950 e 1951. Deixou obras dispersas no Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (1893), na História Ethnográphica da Ilha de S. Tomé (1895) e no Correio de África já postumamente (1921-1923).
"Versos" é um conjunto de 100 poemas seleccionados do seu espólio pelo seu amigo, o jornalista Artur da Cruz Magalhães.
A poesia de Costa Alegre é marcada por um estilo límpido e uma espontaneidade que lhe surge com musicalidade e que deambula entre o romântico, o simbolismo e o parnasianismo, pela busca de objectividade das emoções.
Costa Alegre foi, pode dizer-se sem qualquer risco de erro, o pioneiro da Poesia da Negritude. Inicialmente indicia a formulação (ainda incipiente) das diferenças rácicas, contrapondo os valores da cor negra, às características da cor branca. Mais tarde evolui para a exaltação e glorificação ufana dos poetas da negritude, fazendo da etnicidade a marca das literaturas africanas de Língua Portuguesa, como essência diferenciadora: «A minha cor é negra,/ Indica luto e pena/ É luz, alegra, / A tua cor é morena. / É negra a minha raça, / A tua raça é branca / (...) / Porém, brilhante e pura, / Talvez seja a manhã / Irmã da noite escura! / Serás tu minha irmã?!...»
Costa Alegre, não era racista. Defendia a convivência harmoniosa entre negros, brancos e mestiços. Não se sentia superior nem inferior. Sentia, isso sim, uma certa segregação que então ainda se fazia sentir. É um dos maiores valores das literaturas lusófonas.
acs

domingo, fevereiro 01, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - SÃO TOMÉ E PRINCIPE

VISÃO

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;

Ias de luto, doce tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;

Depois , cativa de invisível laço,
(O teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo

Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

Caetano Costa Alegre

quinta-feira, janeiro 29, 2009

ARMILA DO ASSOBIO

PORTUGUESA DISTINGUIDA


JOANA CARNEIRO


É jovem. Muito jovem. Chama-se Joana Carneiro e fez o seu curso de música no Conservatório de Lisboa. Já se destacava antes de terminar o curso, mas logo que o concluiu, esta miúda com ar de gaiata, impôs-se no mundo musical. É uma maestrina de mérito e tem feito o seu percurso sempre no estrangeiro, apenas com algumas passagens esporádicas por Portugal.
Agora, a nossa maestrina Joana Carneiro, foi nomeada (no passado dia 15) directora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, nos Estados Unidos da América. Foi-lhe reconhecido o mérito, o que é muito justo. Pena é que por cá se contratem maestros estrangeiros para as nossas orquestras.
Como diz o ditado popular, SANTOS DA CASA NÃO FAZEM MILAGRES...
Parabéns Joana e felicidades para a tua carreira.
acs

ARMILA PRIMEIRA

POETAS DA CPLP - ANGOLA


ALDA LARA
(1930-1962)



Alda Lara nasceu em Benguela em 9-6-1930 e faleceu em Cambambe em 30-1-1962. A vida foi--lhe breve. Depois dos estudos liceais feitos em Sá da Bandeira, vem para Portugal, onde inicia o curso de medicina em Lisboa, vindo a terminá-lo na Universidade de Coimbra. Dizem os seus amigos mais próximos que se avida não lhe tivesse sido madrasta, teria sido um grande vulto da medicina. Irmã de Ernesto Lara Filho, outro grande vulto das letras angolanas, conheceu na Faculdade de Medicina de Coimbra, Orlando de Albuquerque, um moçambicano também médico e escritor (hoje residente em Portugal)com quem viria a casar e que após a sua morte compilou em "Poesias" toda a sua produção poética.
A Casa dos Estudantes do Império (CEI) sempre foi um alfobre da intelectualidade dos estudantes oriundos das ex-colónias portuguesas de África. Foi aí que também Alda Lara achou o seu aconchego cultural tendo publicado os seus primeiros poemas no boletim Mensagem da CEI.
Poetisa de primeira água, soube de forma ímpar aculturar na sua obra as suas raízes africanas com a formação académica europeia e a cultura portuguesa. É notável a simbiose que soube fazer entre o neo-romantismo de que tanto gostava, com a sua vivência angolana, oferecendo-nos uma obra fortemente autobiográfica plena duma angolanidade autêntica, alicerçada nos valores humanos.
No campo da prosa Ana Maria Martinho destaca de Alda Lara "... o texto Desencontro (incluído em Contos Portugueses do Ultramar, 1969) e o vol. Tempo de Chuva, de 1973, em que o conto homónimo é um claro exemplo de anti novela, já que rejeita a linearidade diegética a favor de uma leitura lírica e fragmentária das pulsões da guerra e da estranheza do Homem e da Natureza perante a mudança e o excesso."
De Alda Lara encontramos muitos escritos espalhados pela imprensa angolana da época: ABC, O Lobito, Jornal de Angola, Jornal de Benguela, entre outros. Era justo que hoje se reunisse em livro todo este manancial tão disperso... Angola bem precisada está de estudar os seus valores e com eles construir o seu futuro. E nós, povos da CPLP também.
acs

segunda-feira, janeiro 26, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - ANGOLA


TRAMPOLIM

Mãe:
Deixa-me saltar no trampolim...
Deixa-me ser como os outros,
Gritar
Empurrar
Saltar nos trampolins que há por aí!


Mãe:
Não me prendas mais...
Já que não posso ser acrobata,
serei palhaço
A fingir, que também
sou capaz
De dar saltos no espaço!...


...Mas ficar, não!
Deixa-me tentar...
Deixa-me saltar o trampolim!

Alda Lara

sexta-feira, janeiro 23, 2009

ARMILA PRIMEIRA

POETAS DA CPLP


ONÉSIMO DA SILVEIRA


Onésimo da Silveira, poeta, ficcionista e ensaísta cabo-verdiano, nasceu no Mindelo em 10.2.1935, fez os estudos liceais em S. Vicente e em 1956 percorre a tradicional rota do povo das ilhas e vai para São Tomé e Príncipe. Aliás, S. Tomé é tema recorrente da literatura e dos Cantos populares de Cabo Verde.
Em S. Tomé e príncipe convive com o meio intelectual do outro arquipélago do Atlântico e em 1960 parte para Angola, onde na cidade de Sá da Bandeira continua os estudos que lhe permitirão ingressar no ensino superior. É também aqui que convive com os escritores ali radicados, particularmente com os ligados à Editora Imbondeiro e à Sociedade Cultural de Angola. Edita aqui o seu primeiro livro, na Colecção Imbondeiro, um livro de contos, com o título: "Toda a Gente Fala: sim, senhor".
Em 1964 vem para Lisboa, onde inicia a sua militância política no PAIGC, o que o leva até à França, à China, à Holanda e à Suécia, onde acaba por se licenciar em Ciências Sociais.
Na sua obra Onésimo da Silveira revela-se-nos um ilhéu típico: agarrado às raízes do arquipélago, mas que ultrapassa a vastidão do mar e deambula por todo o mundo. O mundo é seu, as ilhas o seu lar acolhedor.
Em "A Língua Portuguesa: Herança Comum", ao afirmar que «a colonização portuguesa, sem o programar, tinha criado nas ilhas desertas uma sociedade nova, com coloração fortemente ocidental. Talvez sem o desejar tinha acabado de dotar essa mesma soiedade duma ferramenta política e institucional de formato e inspiração ocidental», Onésimo da Silveira está a entender a crioulidade de Cabo Verde, exactamente como a luso-tropicalidade de que nos falava o brasileiro Gilberto Freire, nos anos 60 do SEC. XX. Estão ambos em sintonia; e foi esta luso-tropicalidade que sempre esteve na génese do que hoje é a CPLP, como já tenho dito noutras ocasiões.
acs

quinta-feira, janeiro 22, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP - CABO VERDE

UM POEMA DIFERENTE

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Sem gemidos de homens desterrados
na quietação da sua existência

Um poema
Sem crianças que se alimentem
do leite negro das horas abortadas

Um poema
Sem mães olhando
o quadro dos seus filhos sem mãe

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Sem braços à espera de trabalho
nem bocas à espera de pão

Um poema
Sem barcos lastrados de gente
a caminho do sul

Um poema
Sem palavras estranguladas
nas grades do silêncio

O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
Com seiva nascendo no coração da Origem
Um poema
Com batuque e tchabéta
e badias de Sta Catarina
Um poema
Com saracoteio d'ancas
e gargalhadas de marfim
O povo das ilhas
quer um poema diferente
para o povo das ilhas

Um poema
sem homens que percam a graça do mar
e a fantasia dos pontos cardeais!

Onésimo da Silveira

sexta-feira, janeiro 16, 2009

ARMILA PRIMEIRA

FOI HÁ 60 ANOS


GRUPO SURREALISTA DE LISBOA

Foi no último andar do n. 25 da Travessa da Trindade em Lisboa, que no dia 19 de Janeiro de 1949, o Grupo Surrealista de Lisboa, constituído por jovens artistas e escritores- Alexandre O'Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Marcelino Vespeira, provocaram um pequeno "terramoto" na sociedade lisboeta ao efectuarem a sua primeira e única exposição. Foi há 60 anos.
O Surrealismo foi uma corrente literária e artística de origem francesa que teve o seu apogeu entre as duas Grandes Guerras e teve a sua primeira apresentação feita por André Breton, com o seu Manifesto de 1924 e em que o movimento é apresentado como um automatismo psíquico puro através do qual se pode exprimir o funcionamento real do pensamento.
Em Portugal foi nos finais os anos 30 que com António Pedro se começou a falar do Surrealismo, então denominado super-realismo ou sobrerrealismo. António Pedro aderiu em 1936 ao surrealismo inglês, depois de em 1935 ter assinado em Paris o Manifesto Dimensionista com outros nomes como Marcel Duchamps e Francis Picabia.
Em 1948, porém, por divergências entre José-Augusto França e Cesariny é criado por este e António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira, Pedro Oom e Cruzeiro Seixas, o Grupo Surrealista Dissidente.
1949 é o ano que marca as principais manifestações dos dois grupos surrealistas, mas o Grupo Surrealista de Lisboa destaca-se, quando no dia 19 de Janeiro atira a pedra no charco do marasmo cultural em que Portugal vivia, inaugurando a sua primeira e única exposição. Ali foram lançados os primeiros quatro Cadernos Surrealistas, o Catálogo da Exposição, A Ampola Miraculosa de O'Neill, Proto-Poema da Serra d'Arga de António Pedro e Balanço das Actividades Surrealistas em Portugal de José-Augusto França.
Era intenção dos surrealistas intervir nas eleições para a Presidência da República, tomando o partido de Norton de Matos contra Carmona. Impedidos pela Censura, foram obrigados a alterar a capa do Catálogo, por outra com um enorme X.
José- Augusto França, que doou à sua cidade natal as obras que constituem o Núcleo de Artes Contemporâneas de Tomar (embrião do futuro Museu de Artes Contemporâneas, deseja-se) é um dos surrealistas ainda em actividade. É pois justo que seja a Câmara Municipal de Tomar, por intermédio do Núcleo de Arte Contemporânea de Tomar, a evocar a efeméride durante todo o ano de 2009, tendo como ponto de partida a Mesa Redonda que terá lugar já no próximo doa 19 no Clube Thomarense e em que participarão além de José-Augusto França, Cristina Azevedo Tavares, Raquel Henriques Silva e Rui Mário Gonçalves.
O Núcleo de Arte Contemporânea de Tomar, conta no seu acervo com um importante conjunto de obras produzidas pelo Grupo Surrealista de Lisboa, talvez, mesmo, a melhor colecção dos artistas do Grupo.
acs

quinta-feira, janeiro 15, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

MEMÓRIA


LOUIS BRAILLE E CHARLES DARWIN


Por coincidência, 2009 é um ano de efemérides felizes. Foi em 1809 que, por exemplo, nasceram Louis Braille (1809-1852) e Charles Darwin (1809-1882). Comemoramos agora o bicentenário do nascimento destas duas grandes figuras mundiais.
Louis Braille foi o inventor do chamado Alfabeto Braille, que consiste em pontos salientes, cujas 64 combinações permitem utilizá-los na escrita e na leitura. Tiveram ainda aplicação na notação musical, na estenografia e no cálculo. É graças a ele que os cegos de todo o mundo conseguem ler e escrever.
Para celebrar a data, a Biblioteca Nacional Portuguesa descobriu a melhor forma de homenagear Louis Braille, inaugurando a Área de Leitura para Deficientes Visuais, uma zona com mais de 500 metros quadrados. Todas as zonas de trabalho estão integradas num espaço exclusivo para cegos, incluindo o depósito das colecções. A Biblioteca Nacional Portuguesa renovou toda a logística para os trabalhos de digitalização e impressão em Braille, reforçando as actividades de leitura e gravação objectivando na preparação de livros sonoros.
Parabéns pois à Biblioteca Nacional Portuguesa. Isto é a todos, nós portugueses.
**********
Charles Darwin, naturalista, foi o autor da teoria da evolução das espécies. Trata-se duma teoria biológica que está na base da profunda modificação do pensamento filosófico e científico moderno.
Depois de estudar medicina, botânica, geologia e teologia, fez uma expedição ao Pacífico e à América do Sul. Foi nessa viagem, de cinco anos, que nasceram e foram aperfeiçoadas as suas ideias sobre as espécies biológicas. Em 24 de Novembro de 1859 publica a sua principal obra: Sobre A Origem das Espécies, pela Selecção Natural.
Darwin veio a Portugal, tendo sido recebido por professores da Faculdade de Ciências de Lisboa, dada a vasta e importante experiência portuguesa em África, na América e na Ásia.
acs

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

O ERRO DE SÓCRATES

SALVEMOS O CONVENTO DE CRISTO

Na sua penúltima edição, noticiava o semanário Expresso, mais do que o estado degradante, o estado de eminente ruína em que se encontram alguns dos maiores valores da nossa monumentalidade. São eles o Convento de Cristo em Tomar, o Mosteiro da Batalha, o Mosteiro de Alcobaça e a Sé de Lisboa. Da reportagem ressalta que o que se encontra pior é o Convento de Cristo.
É no mínimo preocupante. A responsabilidade é de todos os governos que nos têm desgovernado ao longo destes anos todos. Hoje porém, a responsabilidade cabe a José Sócrates e é a ele que devemos (e temos a obrigação) de exigir responsabilidades. Mais: TEMOS A OBRIGAÇÃO DE EXIGIR ACÇÃO IMEDIATA, pois se tudo se destruir, não haverá dinheiro, nem haverá QUEM ponha de novo tudo em pé.
O Monumento de Tomar foi o berço dos Descobrimentos Portugueses. Foi no Convento de Cristo que o Infante D. Henrique delineou ao pormenor com todos os seus conselheiros a Grande Ousadia e foi com a fabulosa fortuna da Ordem de Cristo que Portugal deu início à Primeira Era da Globalização. A Janela da Sala do Capítulo é uma maravilha da Arte Portuguesa e é considerada, por muitos especialistas de renome mundial, a mais bela janela do mundo. Grande parte da História de Portugal está ali, INTEIRA.
O Convento de Cristo data já do SEC. XII e é um dos principais monumentos da arquitectura portuguesa, que documenta profusamente todas as etapas estéticas do SEC. XII ao XVIII. É pois obra única e de rara beleza, mas acima de tudo é um acervo raro da nossa História.
É certo que vivemos um momento económico particularmente difícil. Isso porém, não justifica o injustificável. Afirmou há pouco tempo o primeiro-ministro, José Sócrates, que não fazer investimento pública, no actual momento, não é apenas um erro político: é, também um erro moral. De acordo. Mas não recuperar um património como o Convento de Cristo, que é de Tomar, é nacional e é mundial, graças à UNESCO, também não é só um erro político. É, garantidamente, um erro moral e um crime. Sr. Primeiro-Ministro, faça o novo aeroporto de Lisboa, porque é urgente, mas não invista um tostão no CAV - Comboio de Alta Velocidade (rejeito o galicismo TGV), pois são muitos milhões para ganhar escassos minutos para ir de Lisboa ao Porto, e para Espanha também pouco se ganha. Invista esse dinheiro na recuperação da nossa Memória Colectiva. Que é o mesmo que investir no Turismo Cultural, o que em Portugal, será como que o ovo de Colombo... Para isso até tem verbas da União Europeia e talvez da própria UNESCO. Creia que investir no nosso Património Cultural, também dá votos. Até talvez mais do que o alcatrão.
É tempo dos portugueses começarem a pensar em sentar no banco dos réus os políticos, pelas medidas que não tomaram em favor de outras que lhes dão mais votos.
acs

ARMILA LITERÁRIA

EFEMÉRIDE
No centenário do nascimento do Poeta


SURGE ET AMBULA*

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério,
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E tu dormes no outro o sono teu infindo...

A selva faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo...
Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério
E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo...

Desperta. Já no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula...

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno...
Ouve a Voz do Progresso, esse outro Nazareno
Que a mão te estende e diz-te: - África, surge et ambula!

Rui de Noronha

*Levanta-te e caminha

sexta-feira, janeiro 09, 2009

ARMILA PRIMEIRA

EFEMÉRIDE


CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE
RUI DE NORONHA
(1909-1943)

Escritor moçambicano, Rui de Noronha nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo) em 28-10-1909 e aí veio a falecer em 25-12-1943. Foi jornalista e crítico literário de primeira água na imprensa moçambicana - O Brado Africano, África Magazine, O Mundo Português, Moçambique, Miragem e Notícias do Bloqueio, onde também publica muitos dos seus poemas que viriam a ser compilados no livro "Sonetos", editado postumamente.
Rui de Noronha foi um dos precursores da Literatura Moçambicana e é hoje um dos maiores valores das literaturas de Língua Portuguesa, estando antologiado em vários países: Portugal, Brasil, França, Suécia, Estados Unidos da América, Holanda, Itália, Rússia, Argélia e república Checa. Como poucos ele domina a nossa língua, dando-lhe exaltação e doçura, pujança e delicadeza. Homem de formação cultural portuguesa, é um amante e cultor da estética portuguesa oitocentista: Augusto Gil foi sua referência. Isto mesmo se testemunha no ritmo que imprimiu na sua poesia (comparemos a Balada da Neve com Quenguêlêquêze).
Poeta de raízes africanas, exaltou de forma inigualável a vida do povo moçambicano e dos seus valores. Defendeu com denodo os valores da dignidade nacional, sem ódios nem rancores, reescrevendo a história de Gungunhana e de Mouzinho de Albuquerque. Noémia de Sousa, uma poetisa da negritude homenageou-o com "Poema Para Rui de Noronha".
Já naquele tempo, muito antes da luta armada pela independência dos povos africanos, Rui de Noronha lançava o grito em "Surge et Ambula": "...Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério/ E tu, ao Tempo alheia, ó África dormindo..." . Neste poema, como ao longo da sua obra, não manifesta ódios nem rancores. Defende apenas o progresso-"ouve a Voz do Progresso, este outro Nazareno"- de mãos dadas com todos (brancos e negros), ainda que fossem os Moçambicanos a gerir o seu destino. Homem solidário e amigo, Rui de Noronha para todos tinha um sorriso e em todos tinha um Amigo. Em sua homenagem, Elsa de Noronha, sua filha, senhora duma voz portentosa editou em finais do século passado um CD com poemas do pai e de outros autores de todos os países da CPLP, pois Rui de Noronha era um acérrimo defensor da Língua Portuguesa: " A Língua Portuguesa, é verdade que não é das mais fáceis de aprender. Ensine-se-lhe a Língua Portuguesa..."
A obra poética de Rui de Noronha está, hoje, esgotada. Os seus contos continuam (ao que sei) inéditos. No centenário do seu nascimento, a melhor forma do homenagear e de o recordar às novas gerações, seria reeditar a sua obra completa. Confiemos que assim se faça.
acs

quarta-feira, janeiro 07, 2009

ARMILA LITERÁRIA

No Centenário do nascimento do Poeta Moçambicano


QUENGUÊLÊQUÊZE*

"Quenguêlêquêze!...Quenguêlêquêze!..."
Surgia a lua nova,
E a grande nova
-Quenguêlêquêze! - ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,

Loucamente,
Pertubadoramente...

Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...

E ao som das palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas ímpias inimigas
-Obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.

"Quenguêlêquêze! Quenguêlêquêze!"

Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos...

Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um quê diabólico...

"...quêze! Quenguêlêquêze!..."

...Entretanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia ali um cheiro estranho
As cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas...
O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora um ar abafadiço,
Um ar a podridão...
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: "Olha é tua",
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.

- O estrepitar das palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo... foi crescendo...
Lentamente...

Como se fora em brando e afagado leito
Deitaram a criança, rebolando-a,
Na cinza do monturo...
E de repente,
Quando chorou, a mãe, arrebatando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito...

Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p'los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:

«Meu filho, eu estou contente!
Agora já não temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou à lua!
Agora tens abertos os ouvidos
P'ra tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem temer...
Meu filho, eu estou contente!
Tu agora és um ser inteligente,
E assim, hás-de crescer, hás-de ser um homem forte

Até que já cansado
Um dia, muito velho
De filhos rodeado,
Sentindo já dobrar-se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte...
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!...»

Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas, foi morrendo...
E a lua foi crescendo...
- Crescendo
Como um ai...

Rui de Noronha

*QUENGUÊLÊQUÊZE - Ritual da apresentação da criança recém-nascida à lua

segunda-feira, janeiro 05, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

EFEMÉRIDE
NO 60. ANIVERSÁRIO DA ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DA MEDICINA


EGAS MONIZ
(1874 -1955)


Professor universitário, escritor, político, foi, no entanto, como médico que se viria a destacar, tendo-se tornado num dos maiores nomes das ciências médicas a nível mundial. Licenciado em medicina pela Universidade de Coimbra em 1898 onde foi professor, transferiu-se para Lisboa para, em 1911, reger a recém-criada cátedra de Neurologia.
A sua carreira política não nos merece aqui qualquer atenção. Importa isso sim destacar a figura prestigiada e ímpar do médico e cientista que foi António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz.
No campo da investigação científica, Egas Moniz é um pioneiro nas áreas da neurologia e da psiquiatria. Desenvolveu estudos no campo da anatomia viva e funcional dos vasos sanguíneos cerebrais. Efectuou a primeira angiografia cerebral em 1927 e em 1935 concebeu a leucotomia pré-frontal, descoberta de grande importância terapêutica que abriu novos caminhos ao estudo do sistema nervoso central.
Foi por isto que em 1949 (há 60 anos) lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Medicina, o que se deve destacar por se tratar do Nobel da área da medicina. Sessenta anos depois, é obrigatório recordar esta data.

acs

sexta-feira, janeiro 02, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

CENTENÁRIO

ADOLFO SIMÕES MÜLLER
(1909 - 2009)


Nascido em Lisboa em 18.8.1909, é na sua cidade natal que Adolfo Simões Müller vem a falecer em 17.4.1989. Foi uma das mais notáveis figuras da literatura infanto-juvenil. Iniciou a sua actividade literária em 1926 com o livro de poesia Asas de Ícaro.
Todo o fulgor e pujança da sua obra se destaca na singularidade com que se dirige às crianças, numa linguagem acessível, obrigando-os aqui e acolá a tomarem conhecimento com novos vocábulos, por forma a enriquecer o seu léxico. Trabalhou na Emissora Nacional ( actual RDP) tendo escrito inúmeros textos infantis para rádio.
Da vasta obra de Adolfo Simões Müller destacam-se Meu Portugal Meu gigante, Jesus Pequenino, Caixinha de Brinquedos, A Pedra Mágica e a Princesinha Doente, O Feitiço da Cabana Azul, Marie Curie e a Sua Descoberta, A Primeiro Volta ao Mundo: A Vida de Fernão de Magalhães e a Sua Viagem de Circunavegação, O Homem das Mil Invenções: Pequena História de Edison e Seus Inventos, O Grande Almirante das Estrelas do Sul: Pequena História de Gago Coutinho e a Primeira Viagem Aérea ao Brasil.
Notabilíssimas são as suas adaptações infanto-juvenis de obras da Literatura Portuguesa e não só, como Os Lusíadas de Luis de Camões contados aos Jovens, Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, As Viagens de Gulliver de Swift, para além da adaptação de As Mil e Uma Noites.
Durante as décadas de 1930/1940/1950 dirigiu várias revistas, jornais e suplementos de jornais para crianças, como O Senhor Doutor, O Papagaio, O Diabrete, O Faísca, O Mosquito, O Cavaleiro Andante, João Ratão, O Foguetão, Zorro ou A Nau Catrineta. Foi, aliás, nas páginas de O Papagaio que pela primeira vez foram publicadas em Portugal as histórias de Hergé e foi nas páginas de O Diabrete que divulgou algumas das hoje famosas personagens da Banda Desenhada, como Astérix e Lucky Luke.
Educar e instruir os nossos jovens de forma lúdica era uma preocupação constante de Adolfo Simões Müller. Isto está patente em obras como Meu Portugal Meu Gigante, Historiazinha de Portugal, Aventuras do Trincafortes: Pequena História de Luis de Camões e do Seu Poema, O Mercador de Aventura: Marco Polo, a Sua Vida e o Seu Livro Maravilhoso, O Piloto do Navio Fantasma: História Maravilhosa de Ricardo Wagner e a sua Música Genial e ainda O Exército Imortal: Pequena História de Gutenberg e do Livro.
Adolfo Simões Müller foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura Infantil, Prémio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças.
No ano do centenário do seu nascimento (e por coincidência no 2oº sobre a sua morte) é nossa (de todos os portugueses) obrigação celebrar condignamente a efeméride, sobretudo reeditando a sua obra, ou pelo menos grande parte dela.
A sugestão aqui fica.

acs