quarta-feira, abril 29, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
FERNANDO SYLVAN (TIMOR)

VELHAS FLORESTAS DE AGORA

Eu tinha uma floresta
quando era pequenino.
Ela era na montanha
no alto lá dos altos.
E havia outros meninos
que tinham mais florestas
nos altos lá dos altos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.
Espécie de poesia
de árvores e bichos:
o perfume do sândalo
a paz da casuarina
a flor do cafeeiro
a altura dos coqueiros
o estilo dos bambus
os laços dos cipós
os ecos dos toqués
o riso dos macacos
o salto dos veados
o canto dos loricos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.
Mas não era verdade.
Ilusão de meninos.
As florestas serviam
desde séculos e séculos
como templo sagrado
de rezar liberdade.
Nossos pais e avós
nas florestas secretas
iam gritar sua revolta
e rezar liberdade.
E escreviam no chão
e escreviam nas pedras
e escreviam nas árvores
contra o opressor
as palavras precisas
de rezar liberdade.
As florestas serviam
desde séculos e séculos
como templo sagrado
de rezar liberdade.
E ainda servem agora
a heróis guerrilheiros
como templo sagrado
de rezar liberdade!

in Cantogrito Maubere (Lisboa-1981)

1 comentário:

Anónimo disse...

Excelente poema de quem conheceu bem a sua Terra Natal