TEATRO
Gil Vicente (1465?-1536?), o fundador do Teatro Português, de há muito merecia uma referência neste meu blogue. A crítica foi-me feita e aceito-a. Mas falar dele é uma redundância num espaço tão curto como este. Opto por transcrever parte duma das suas Obras. A escolha de Todo-O-Mundo e de Ninguém, não é inocente. Ela reflecte a permanente actualidade da Obra de Gil Vicente. Se esta Peça de Teatro fosse escrita hoje não teria mais actualidade em qualquer parte do mundo. Deliciemo-nos, pois.
acs
TODO-O-MUNDO E NINGUÉM
«Apresentada a vida quotidiana duma família judaica, que se prepara para assistir a um Auto de Gil Vicente, um licenciado faz considerações sobre o autor, a quem, segundo ele, Sibila ensinara os segredos do Portugal antigo. Surge Portugal que se enamora de Lusitânia, a quem seu pai, o Sol, por intermédio de Maio, envia um novo esposo, Mercúrio. Acompanham-no deusas, que cantam e dançam e os capelães destas, Dinato e Berzebu, que decidem anotar o que virem para informar Lucifer.»
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BER Por darmos alguma conta
ao deus rei Lucifer,
põe-te tu a escrever
tudo quanto aqui se monta,
e quanto virmos fazer;
porque a fim do mundo é perto,
e pera o que nos hão-de dar,
cumpre-nos ter de alegar;
pois pera provar o certo,
escreve quanto passar.
Entra Todo-O-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu e logo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:
NIN Que andas tu i buscando?
TM Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quam bom é porfiar.
NIN Como hás nome cavaleiro?
TM Eu hei nome Todo-O-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.
NIN E eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
BER Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
DIN Que escreverei, companheiro?
BER Que Ninguém busca consciência,
e Todo-O-Mundo dinheiro.
NIN E agora que buscas lá?
TM Busco honra muito grande.
NIN Eu virtude que Deos mande
que tope com ela já.
BER Outra adição nos acude:
que busca honra Todo-O-Mundo,
e Ninguém busca virtude.
NIN Buscas outro mor bem qu'esse?
TM Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
NIN E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errasse.
BER Escreve mais:
DIN Que tens sabido?
BER Que quer em extremo grado
Todo-O-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser reprendido.
NIN Buscas mais, amigo meu?
TM Busco a vida e quem ma dê.
NIN A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
BER Escreve lá outra sorte.
DIN Que sorte?
BER Muito garrida:
Todo-O-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.
TM E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NIN E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
BER Escreve com muito aviso.
DIN Que escreverei?
BER Escreve
que Todo-O-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.
TM Folgo muito d'enganar,
e mentir naceu comigo.
NIN Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
BER Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
DIN Quê?
BER Que Todo-O-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.
NIN Que mais buscas?
TM Lisonjar.
NIN Eu sou todo desengano.
BER Escreve, ande lá mano.
DIN Que me mandas assentar?
BER Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-O-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
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Gil Vicente, in Auto da Lusitânia
3 comentários:
É a tristeza do mundo em que vivemos que faz com que a obra de Gil Vicente nunca tenha perdido actualidade. Cabe-nos a todos modificar este estado de coisas. Obrigado por nos recordar mais esta excelente obra de um dos nossos maiores escritores.
Jorge Santos - Lisboa
Que bom voltar a ler este texto, do nosso grande Gil Vicente.Temos que ser nós a alterar o mundo para que a mensagem de Todo-O-Mundo e Ninguém deixe de ter actualidade.
Obrigada.
Maria Isabel - Luxemburgo
Plenamente de acordo com os 2 comentários atrás referidos. Há obras que feliz ou infelizmente estão sempre actualizadas. Gil Vicente ,foi e é o Pai do Teatro Português e continua actual. Pena é que os directores de Teatros e a RTP não divulguem mais estas obras ,tendo em vistas as novas gerações.
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