segunda-feira, fevereiro 28, 2011

ARMILA LINGUÍSTICA

Após a minha prolongada ausência nestas páginas, aqui estou de novo. Durante este período algumas dúvidas sobre a Língua Portuguesa me foram chegando. Aqui vão as respostas a algumas. Prometo responder a todas.

ATENTÓRIO OU ATENTATÓRIO?
O correcto é atentatório, formado de atente(r)+tório. O sufixo é -tório e não -ório, pois provém do latim: -toriu(m).
Este sufixo também aparece com as formas -douro/-doiro, como em suadouro e suadoiro. As formas -douro e -doiro são o mesmo sufixo. É muito vulgar os ditongos ou e oi alternarem na mesma palavra: touro e toiro, rio Douro e rio Doiro, etc.
A forma -toiro veio por via culta. É o latim transposto para português. As outras formas vieram por via popular. Mas, interessante, é que temos em português lavadoiro e lavatório. Ambas significam o sítio onde se lava. A primeira chegou-nos por via popular; a segunda, por via culta.
A forma atentório, embora incorrecta tem a sua explicação. Dá-se muito em português o fenómeno fonético denominado haplologia, que é o desaparecimento de uma de duas sílabas iguais ou semelhantes contíguas. Por exemplo: de piedade+-oso, formou-se piedadoso, mas o correcto é piedoso. Muitas palavras existem em que se deu a haplologia. O mesmo teria (e não terá, como se ouve ou lê por aí) acontecido com atentório.
acs

segunda-feira, junho 21, 2010

ARMILA LITERÁRIA

JOSÉ SARAMAGO (16.11.1922 - 18.06.2010)

LEVANTADO DO CHÃO

A MELHOR HOMENAGEM: LER/RELER A SUA OBRA

Natural da Azinhaga, uma pequena aldeia do Concelho da Golegã, esta foi a sua TERRA DO PECADO. Sim, é pecado viver como se vivia naquele tempo, não só nas pequenas aldeias portuguesas, mas em muitos locais do mundo. Por isso quando tinha dois anos veio com os pais para Lisboa, na busca por uma vida melhor. Em Lisboa cresceu e ouviu OS POEMAS POSSÍVEIS e em Lisboa encontrou PROVAVELMENTE ALEGRIA. Já tinha na BAGAGEM DE VIAJANTE a procura DESTE MUNDO E DO OUTRO. Foi assim que em busca d'O ANO DE 1993 nos deu AS OPINIÕES QUE O DL TEVE e ainda OS APONTAMENTOS, que eram como que um OBJECTO QUASE, para um MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA.
Desenhadas as letras, feitas as frases, terá sido durante A NOITE, que, QUAL POÉTICA DOS SENTIDOS - O OUVIDO se interrogou: QUE FAREI COM ESTE LIVRO?. Faz então uma VIAGEM A PORTUGAL e da sua passagem por Mafra fica-lhe o MEMORIAL DO CONVENTO. Já ia longe O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, quando, provocatoriamente, se faz ao mar numa tosca (A) JANGADA DE PEDRA. Nesta viagem atlântica lembra-se de dois dos mais populares santos da Igreja: Santo António de Lisboa e São Francisco de Assis. Ambos defensores dos pobres e pioneiros do Movimento Ecologista Mundial. Conclui que em finais do SEC. XX é tempo para A SEGUNDA VIDA DE FRANCISCO DE ASSIS.
Ao recordar a HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA, acha que IN NOMINE DEI é justo que O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO seja a pedra de toque para um ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA. Queda-se por Tías, uma pequena aldeia da ilha de Lanzarote. Aí tem à mão cinco cadernos que lhe lembram os tempos da Escola Primária e decide escrever neles um diário. Junta-os. Ata-os com um retrós e por fora escreve CADERNOS DE LANZAROTE. Pôs-se a pensar em TODOS OS NOMES daqueles que fizeram a História de Portugal, deambulou por todo o mundo e ao recordar o Padre António Vieira, deu por ele na Suécia, numa cidade chamada Estocolmo. Aí deu-lhe para falar às gentes. Falando em Português todos o entenderam. Estas suas falas ficaram conhecidas por DISCURSOS DE ESTOCOLMO. Na volta decide passar pela sua terra natal e dar um salto a Lavre, no Alentejo, para dar dois dedos de conversa com sua amiga Mariana Amália. No caminho ao ver a monumentalidade duma estátua, conjectura porque é que A ESTÁTUA E A PEDRA se entendem tão bem, lembra-se d'O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA que a mãe lhe contava à cabeceira da cama quando era menino. Repousa a cabeça sobre umas FOLHAS POLÍTICAS - 1976/1988 e adormece. Ao acordar vê que está n'A CAVERNA onde O HOMEM DUPLICADO fez um ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ e lhe havia falado dum tal DON GIOVANNI OU O DISSOLUTO ABSOLVIDO. Levanta-se, esfrega os olhos para melhor enfrentar a luz do sol e vai ter com Pilar que o aguarda em Tías. Cogita sobre AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, olha para o seu reflexo num lago e conclui: eu José Saramago sou um homem LEVANTADO DO CHÃO.
acs

sexta-feira, maio 21, 2010

ARMILA PRIMEIRA

PORTUGAL (1910-2010) - 100 ANOS DE REPÚBLICA

IV - O ANO DE 1910

Em 4 de Outubro de 1910 Machado dos Santos certo que já nada tem a perder, nem a defendê-lo, decide resistir. Como membro da Direcção da Carbonária, só ele sabe quais os efectivos de que dispõe e a capacidade de actuação dos seus homens. Foram então os grupos de civis armados da Carbonária que na manhã de 4 de Outubro impediram o estrangulamento da insurreição estabelecendo comunicações entre os núcleos revoltosos da Rotunda, do Quartel de Marinheiros e do Regimento de Artilharia 1, atacando as unidades militares realistas que se encontravam em trânsito e isolando outras. Assim, à Rotunda foram afluindo ao longo de todo o dia, civis e militares rebeldes, sobretudo soldados e baixas patentes, além dos alunos da Escola do Exército (actual Academia Militar).
As forças monárquicas que ocupavam o Rossio, hesitaram muito, antes de se decidirem em atacar as forças republicanas lideradas por Machado dos Santos, que saiu vitorioso dado o fogo cruzado da Rotunda e da Artilharia 1. O navio D. Carlos assume-se neutral e os navios S. Rafael e Adamastor bombardeiam o Rossio e o Palácio das Necessidades.
Perante a iminência do desembarque as forças fieis ao rei desanimam e o rei foge de Lisboa. às 22 horas o Navio-Almirante é tomado pelos republicanos. Durante toda a noite os monárquicos
vão desacreditando de si próprios.
Em 5 de Outubro de 1910 cerca das 8 horas da manhã o Embaixador da Alemanha solicita a Machado dos Santos uma trégua. Ao ver a bandeira branca hasteada no Rossio, a multidão julga consumada a capitulação e invade eufórica toda a Baixa de Lisboa, inviabilizando qualquer acção militar. É então que o Quartel-General se rende e cerca das 10 horas a República é proclamada na varanda principal da Câmara Municipal de Lisboa. No resto do país a República é proclamada por telégrafo, tal como havia previsto João Chagas.
Em 10 de Novembro de 1910 a Inglaterra reconhece, de facto, a República Portuguesa.
Neste século de vida da República, altos e baixos marcaram a História de Portugal. Duas Guerras Mundiais (só participámos na I), a ditadura, a Guerra Colonial e o 25 de Abril, foram os factos mais marcantes destes 100 anos de História. Agora a crise é grave, mais por incompetência dos políticos que o Povo elegeu nestes 36 anos de Democracia. A República tem de ter a Arte e o Engenho, de que nos falava Camões, para solucionar o problema.
(FIM)
acs

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

ARMILA PRIMEIRA

PORTUGAL (1910-2010) - 100 ANOS DE REPÚBLICA
(CONTINUAÇÃO)

III - O ANO DE 1910

Em 1 de Janeiro de 1910 as agremiações filiadas no Partido Republicano Português (PRP) já eram 167, disseminadas por todo o País.

Em Fevereiro de 1910 surge, editado em Coimbra, o jornal anarquista O Clarão.

A 29 e 30 de Abril de 1910, o PRP reune-se em Congresso e decide sondar as potências europeias quanto à implantação da República em Portugal. Receava-se a posição da Inglaterra.

Em 14 de Junho de 1910 a Maçonaria decide nomear uma comissão constituída por José de Castro, Miguel Bombarda, Machado dos Santos, entre outros, visando uma colaboração mais activa com a CARBONÁRIA PORTUGUESA. Nesta Comissão, António José de Almeida e Cândido dos Reis eram os representantes do Directório Republicano.

Nas eleições de 28 de Agosto de 1910 para o Parlamento, o PRP consegue eleger 14 deputados.

Em 5 de Setembro de 1910 tem lugar o Congresso Cooperativista e Sindicalista. Durante todo o mês de Setembro um surto de greves toma conta do País, sobretudo nas zonas de maior implantação operária, como a Margem Sul do Tejo e os trabalhadores da cortiça do Alentejo e do Algarve.

Em 3 de Outubro de 1910, Miguel Bombarda é assassinado, o que quase comprometeu o plano de acção dos republicanos e deu origem a incontroladas manifestações de revolta
popular. Às 22Hoo os revolucionários reunem-se pela última vez para acerto dos pormenores do plano a desenvolver e acordar o sinal que deverá dar início à Revolução Republicana: A uma salva disparada pelos cruzadores estacionados no Tejo, responderia, com outra o Regimento de Artilharia 1.
Desconhecedor do acordado, por não ter participado na reunião, Machado dos Santos leva a cabo a tarefa que lhe estava atribuída: Tomar o Regimento de Infantaria 16 à 1 hora da madrugada. Os capitães Palla e Sá Cardoso organizam duas colunas militares objectivando o Palácio das Necessidades, onde se encontrava o Rei e o Quartel da Guarda Municipal do Largo do Carmo. Dada a descoordenação motivada pela ausência de Machado dos Santos na última reunião, estes capitães ficaram rodeados pelas forças monárquicas. Os republicanos, no entanto, continuavam o seu plano previamente traçado. A Marinha avançava, mas à hora combinada (3 da madrugada) o sinal não se deu, porque Cândido dos Reis não conseguiu entrar a bordo do navio-almirante D. Carlos. Convencido do fracasso, Cândido dos Reis suicida-se na madrugada de 4 de Outubro. Entretanto as forças dos capitães Palla e Sá Cardoso avançam para a Rotunda.
(continua)
acs

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

ARMILA PRIMEIRA

PORTUGAL (1910-2010) - 100 ANOS DE REPÚBLICA

I - OS PRIMÓRDIOS

O republicanismo português tem os seus alicerces na magnífica triologia da Revolução Francesa: Liberdade-Igualdade-Fraternidade. Liberdade de pensamento, igualdade jurídica de todos os cidadãos, solidariedade das diferentes classes sociais. Estas ideias-força que motivaram os republicanos portugueses de várias tendências, que interpretavam os sentimentos populares já cansados duma monarquia arrogante, sobranceira, podre e caduca. Defendiam ao mesmo tempo a soberania nacional, eleições livres e a adopção duma constituição aprovada pelos eleitos do Povo e a subordinação do poder executivo ao poder legislativo.

Tinha sido assim em França com a Revolução Francesa de 1789, que levaria à queda da monarquia e assim veio a ser em Portugal, ainda que com um processo mais lento e menos conturbado.

A 25 de Abril de 1848 surge o primeiro número do jornal A República. António José de Almeida, José Relvas, Rodrigues Sampaio, Elias Garcia, João Chagas, Alves da Veiga, Basílio Teles, Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, entre muitos outros, são nomes grandes que pontificam nas hostes republicanas.

A insatisfação popular e de várias classes sociais, levam os republicanos a encontrar no Ultimato Inglês de 11 de Janeiro de 1890, reforçado pelo Tratado de 20 de Agosto do mesmo ano e que as Cortes se recusaram a ratificar, a justificação para o movimento revolucionário que destituiria a monarquia. Surge assim o 31 de Janeiro de 1891.

II - O 31 DE JANEIRO DE 1891

O clima favorável que se criou nos meses anteriores à acção revolucionária, contou com o apoio do Partido Republicano Português (PRP) de Elias Garcia. Porém tudo se precipitou pela traição de um sargento infiltrado no movimento, levando a que os republicanos arrancassem para o teatro de operações, sem a conclusão dos preparativos. Erro fatal.

Na madrugada de 31 de Janeiro, cerca das 03H30 iniciou-se a concentração no Campo de Santo Ovídio das primeiras unidades sublevadas. Às 06 horas da madrugada as forças militares chegaram à Câmara Municipal do Porto, precedidas duma fanfarra militar que tocava A PORTUGUESA, que é hoje o Hino Nacional. Às 07 horas é içada no mastro da Câmara a bandeira do Centro Democrático Federal 15 de Novembro do P R P e proclamada a República.

As forças monárquicas, informadas pelo tal sargento, já estavam de prevenção e às 09 horas esmagaram o movimento. Dada a precipitação dos revolucionários, esta acção estava condenada ao fracasso.

No seu livro "Do Ultimatum ao 31 de Janeiro", editado em 1905 Basílio Teles escrevia:«Em 31 de Janeiro começaria, com efeito, o estretor do moribundo? Só nos restará receber-lhe o último suspiro e descê-lo piedosamente à vala escura da História». Dez anos mais tarde João Chagas e o Tenente Manuel Maria Coelho, editaram a "História da Revolta do Porto", onde diziam que o 31 de Janeiro «não fora a aventura sangrenta mais infecunda de um bando de sectários apaixonados», mas que «fora largamente fecunda, pois determinara o mais belo abalo moral por que passou a sociedade portuguesa do século XIX».
(continua)
acs

quarta-feira, janeiro 06, 2010

ARMILA PRIMEIRA

GRANDE ANTOLOGIA

OITO SÉCULOS DE POESIA

2009, todos o sabemos, foi um ano horrível. Mas contrariamente ao que muitos dizem, não é um ano para esquecer. Importa recordá-lo para que se evitem os mesmos erros...
Em Portugal, porém, já no seu final, 2009 deu-nos uma lufada de vitalidade, com a edição de uma das maiores antologias do mundo. Dois poetas da nova geração, Jorge Reis-Sá (nascido em 1977) e Rui Lage (nascido em 1975) arregaçaram as mangas e meteram mãos à obra e compilaram em notável antologia 267 poetas portugueses em mais de 2000 poemas. A apresentação é feita por ordem cronológica segundo a data de nascimento dos autores e a data de publicação dos poemas. Esta obra de fôlego é-nos apresentada num único volume de 2000 páginas e cobre oito séculos da nossa Literatura poética (do Séc. XIII ao Séc. XXI «fim de 2007»). Começa com uma Cantiga de Amor de Paio Soares de Taveirós (o primeiro texto poético em Língua Portuguesa) e termina com um poema de Pedro Mexia publicado em 2007.
Dizem os organizadores da antologia que procuraram que ela fosse "o mais possível representativa, que abrangesse tantas tendências, sensibilidades e credos poéticos, quantos conseguíssemos divisar". Como em todos os trabalhos de selecção o critério adoptado leva sempre a que alguns fiquem excluídos, mas, no prefácio à obra Vasco Graça Moura adverte logo que "nenhum poeta importante ficou à porta". Aliás os organizadores desta obra superlativa, fazem questão de, a propósito, citar Mário Cesariny, um poeta fundamental do Séc. XX, quando disse que todas as antologias devem ser "tendenciosíssimas", querendo dizer que a parcialidade é sempre mais honesta que a pseudo-imparcialidade, tantas vezes vendida.
Eis pois a boa nova:
POEMAS PORTUGUESES. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI / Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage / Prefácio de Vasco Graça Moura - Edição: Porto Editora.
Que 2010 nos traga outras boas novas do género vindas de todos os quadrantes do Mundo Lusófono.
acs

quarta-feira, outubro 28, 2009

ARMILA LINGUÍSTICA

RADIACTIVIDADE OU RADIOACTIVIDADE? (II)

Num dos comentários à anterior Armila Linguística, podemos ler a opinião de um dos maiores mestres da Linguística, o professor D'Silva Filho, figura notável do pensamento brasileiro e autor de vasta e valiosíssima obra sobre a Língua Portuguesa. Discordando de José Pedro Machado, quanto à sua preferência por radiactividade em contraponto com radioactividade, apesar de dicionarizar ambos os vocábulos. Aqui fica o seu texto:

" Confesso a minha ignorância por não saber a preferência de José Pedro Machado por radiactividade. «Radi» significa aparelho de «rádio», mas é um regionalismo, segundo as minhas fontes. Horror ao hiato?
Que se prefira, por exemplo, sobrelevação a sobreelevação, compreende-se, pois que o segundo «e» é praticamente mudo, enquanto em radiactividade foi suprimido o elemento de ligação habitual nos compostos com o antepositivo rádio-. Por meu lado, prefiro radioactividade, que no novo Acordo Ortográfico será radioactividade".
23.10.2009
D'Silva Filho

A diferença de opinião entre linguistas sempre foi um sinal de pujança das línguas. No caso da nossa, a Portuguesa, ela, como dizia o poeta José Carlos Ary dos Santos, é força e vida.
Este espaço está aberto aos linguistas. Todas as opiniões que nos chegarem sobre este assunto, serão aqui publicadas. Como diz o Povo, da discussão nasce a luz. A palavra aos linguistas.
acs

quarta-feira, outubro 21, 2009

ARMILA LINGUÍSTICA

RADIACTIVIDADE OU RADIOACTIVIDADE?

A dúvida chegou-me do Brasil pela mão Amiga da Margarida de Castro, que me relatou várias opiniões e sensibilidades. Aqui vai mais uma achega.

Consultado o GRANDE DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, da Sociedade da Língua Portuguesa, que este ano comemora 60 anos de existência, eis o que lá consta:

RADIACTIVIDADE, s.f. O mesmo e melhor que radioactividade.
RADIACTIVO, adj. O mesmo e melhor que radioactivo.
RADIACTOR, adj. O mesmo e melhor que radioactor.
RADIOACTIVIDADE Que sofreu radioactivação. Designativo de líquido a que se misturou água radioactiva. Propriedade que possuem certos elementos, tais como o urânio, o tório, o rádio, etc., de emitir espontâneamente radiações corpusculares. Vj. radiactividade.
RADIOACTIVO Que possui radioactividade. Vj. radiactivo.
RADIOACTOR Actor de rádio. Vj. radiactor.


O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (7 volumes + 1 de actualização) foi coordenado pelo grande mestre linguista José Pedro Machado, com quem tive a honra de partilhar uma boa amizade. A pergunta baila já na cabeça de todos: Então se José Pedro Machado entende que RADIACTIVIDADE (e seus derivados) é a forma mais correcta, qual a razão de nos remeter para RADIOACTIVIDADE? Simplesmente porque é a palavra mais comum no nosso linguajar quotidiano.

A preferência deve ser dada a RADIACTIVIDADE, mas para que esta palavra entre no léxico do nosso dia-a-dia, isto é, dos falantes da nossa Língua, é necessário um grande esforço. Dizer RADIOACTIVIDADE, também é bom Português. É esta mais uma das maiores riquezas da Língua Portuguesa.
acs

quarta-feira, junho 03, 2009

ARMILA LITERÁRIA

QUADRAS DE
ANTÓNIO ALEIXO

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que meus versos possam ter.
...............................................
Julgam-me muito sabedor;
e é tam grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!
............................................
Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
...............................................
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
......................................................
É um moço inteligente
o que passou há bocado;
julga enganar toda a gente,
mas ele é que é enganado.
...................................................
P'ra te tornares distinto
e mostrar capacidade,
dizes sempre que te minto,
quando te digo a verdade.
...................................................
O meu merceeiro é um santo
a há quem diga que ele é mau!
Digo-lhe só:- dou mais tanto,
já me arranja bacalhau.
....................................................
És parvo, mas és distinto,
só vês o bem que tens perto;
não compreendes que te minto
quando te trato por esperto?
.......................................................
Descreio dos que me apontem
uma sociedade sã:
isto é hoje o que foi ontem
e o que há-de ser amanhã.
......................................................
Sem que o discurso eu pedisse,
ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
..............................................
Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes - esqueceste
tudo quanto prometias...
...................................................
Os que bons conselhos dão
às vezes fazem-me rir,
- por ver que eles próprios são
incapazes de os seguir.
.....................................................
Eu era mendigo outrora,
tantas esmolas pedi,
que não sei dizer agora
quantas vezes me vendi.
....................................................
Fiz do meu estro uma vara
para medir a verdade
e dar com ela na cara
do cinismo e da vaidade.
.....................................................
Se tudo me foi vedado,
se vivi de tudo à míngua,
deixai que vos mostre a língua
com o freio bem cortado.
................................................
Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.
....................................................
Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
.......................................................
Fizeste-te meu amigo
por teres medo de mim;
não posso contar contigo,
não quero amigos assim.
......................................................
Não me faças cumprimentos,
deixa-te de hipocrisias:
o alívio aos sofrimentos
não se dá com cortesias.
...................................................
Negociando viveste,
tens dinheiro e excelência;
são coisas que recebeste
a troco da consciência.
........................................................
Jesus disse que se amassem
aos que cristãos se proclamam;
não disse que se matassem,
e eles matam-se e não se amam.
...........................................................
S. João, reparem nisto,
teve este grande condão:
ao baptizar Cristo
foi quem fez Cristo cristão.
.................................................
Gosto de apertar a mão
áspera dos calos que tem;
também as côdeas de pão
são ásperas, mas sabem bem.
......................................................
O pão negro, onde ele é raro,
faz sempre melhor figura
do que o pão alvo e mais claro
na mesa onde há fartura.
........................................................
Roubou-lhe p primeiro beijo
o patrão, que a iludiu...
hoje o seu corpo é sobejo
da casa onde serviu.
..................................................
Perdida de canto a canto,
dormindo em qualquer portal;
se era rica, causa espanto,
se era pobre... é natural.
.............................................
(Reconhecendo a sua incapacidade para cuidar da filha tuberculosa)

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.

terça-feira, junho 02, 2009

ARMILA LITERÁRIA

O POETA DO POVO

ANTÓNIO ALEIXO
(1899-1949)


António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António a 18-02-1899 e faleceu em Loulé a 16-11-1949. Este poeta popular algarvio foi, no mais rigoroso sentido do termo, um autodidacta. Quase analfabeto, foi pastor, pedreiro, emigrante, tecelão e cauteleiro. Andando de feira em feira vendendo lotaria, improvisava à guitarra e vendia também avulsamente pequenas folhas com quadras e glosas. Foi aliás nas feiras que encontrou motivos de inspiração para a sua obra.
Seu grande Amigo, redactor e compilador da sua Obra foi o professor de Liceu Joaquim de Magalhães, que ao prefaciar em 1943 o seu livro «Quando Começo a Cantar», garante que "embora não totalmente analfabeto - sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros - não é capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto".
Quando a sua obra poética e teatral (Teatro Popular) foi reunida num livro único, com o título Este Livro Que Vos Deixo em 1969 e na sua reedição de 1970, conseguiu o feito inédito de, durante semanas seguidas ocupar o primeiro lugar dos livros mais vendidos em Portugal. E a razão é simples: A FORÇA SINGULAR DAS SUAS QUADRAS, como aliás também nos diz Joaquim de Magalhães: "A razão desta singularidade está em que o conteúdo das quadras e dos esboços de teatro, contidos no volume, correspondia a preocupações morais e aspirações sociais que, já por esse tempo, animavam as consciências de grande número de portugueses. E sob a forma lapidarmente sintética de muitas das quadras do singular poeta algarvio, explodia, ou sorria, a expressão contundente ou contestatária de velados ou explícitos protestos humanos e justos, perante uma sociedade fortemente policiada e dificilmente vulnerável por outras formas directas de crítica ou ataque frontal."
Ironizando bastas vezes a partir de si próprio, a sua crítica social é mordaz e certeira. Dotado de invulgar capacidade de fazer quadras de sabor popular e aforismático, ele sintetiza magistralmente o seu pensamento crítico e moral.
Apesar da sua falta de instrução António Aleixo é um poeta sempre actual. O mundo-cão em que vivemos a isso o obriga. Saibamos nós mudar o mundo.
A leitora deste blogue, Estela Lisboa do Rio de Janeiro, no comentário ao texto que fiz sobre João Cabral de Melo Neto, solicitou que falasse sobre António Aleixo por ele não ser conhecido no Brasil. A apresentação, breve, de António Aleixo aqui está. Na próxima página divulgarei algumas quadras de António Aleixo. A Estela Lisboa, o meu profundo agradecimento por me ter possibilitado falar deste autor da minha preferência.
Para qualquer eventual publicação no Brasil da Obra de António Aleixo (era bonito que uma editora brasileira assumisse a edição) o melhor será contactar a Fundação António Aleixo, entretanto criada. Em Portugal, de momento, as edições estão esgotadas. Aqui fica o sítio na Internet da Fundação, bem como o seu endereço electrónico:
http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt
fundacao.aleixo@mail.telepac.pt
OBRA COMPLETA DE ANTÓNIO ALEIXO: Quando Começo A Cantar (1943), Intencionais (1945), Auto Da Vida E Da Morte (1 Acto) (1948), Auto Do Curandeiro (1 Acto) (1949), Auto Do Ti Joaquim (2 Actos) (inédito até à inclusão em 1969 em Este Livro Que Vos Deixo), Este Livro Que Vos Deixo (1969), Tremem De Medo Os Tiranos (Inéditos) (1978)
acs

terça-feira, maio 26, 2009

ARMILA LITERÁRIA

TEATRO

Gil Vicente (1465?-1536?), o fundador do Teatro Português, de há muito merecia uma referência neste meu blogue. A crítica foi-me feita e aceito-a. Mas falar dele é uma redundância num espaço tão curto como este. Opto por transcrever parte duma das suas Obras. A escolha de Todo-O-Mundo e de Ninguém, não é inocente. Ela reflecte a permanente actualidade da Obra de Gil Vicente. Se esta Peça de Teatro fosse escrita hoje não teria mais actualidade em qualquer parte do mundo. Deliciemo-nos, pois.
acs

TODO-O-MUNDO E NINGUÉM

«Apresentada a vida quotidiana duma família judaica, que se prepara para assistir a um Auto de Gil Vicente, um licenciado faz considerações sobre o autor, a quem, segundo ele, Sibila ensinara os segredos do Portugal antigo. Surge Portugal que se enamora de Lusitânia, a quem seu pai, o Sol, por intermédio de Maio, envia um novo esposo, Mercúrio. Acompanham-no deusas, que cantam e dançam e os capelães destas, Dinato e Berzebu, que decidem anotar o que virem para informar Lucifer
Código:BERZEBU (BER)/TODO-O-MUNDO (TM)/NINGUÉM(NIN)DINATO (DIN)
.......................................
BER Por darmos alguma conta
ao deus rei Lucifer,
põe-te tu a escrever
tudo quanto aqui se monta,
e quanto virmos fazer;
porque a fim do mundo é perto,
e pera o que nos hão-de dar,
cumpre-nos ter de alegar;
pois pera provar o certo,
escreve quanto passar.

Entra Todo-O-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu e logo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:

NIN Que andas tu i buscando?
TM Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quam bom é porfiar.
NIN Como hás nome cavaleiro?
TM Eu hei nome Todo-O-Mundo,
e meu tempo todo enteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

NIN E eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
BER Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
DIN Que escreverei, companheiro?
BER Que Ninguém busca consciência,
e Todo-O-Mundo dinheiro.

NIN E agora que buscas lá?
TM Busco honra muito grande.
NIN Eu virtude que Deos mande
que tope com ela já.
BER Outra adição nos acude:
que busca honra Todo-O-Mundo,
e Ninguém busca virtude.

NIN Buscas outro mor bem qu'esse?
TM Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fezesse.
NIN E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errasse.
BER Escreve mais:
DIN Que tens sabido?
BER Que quer em extremo grado
Todo-O-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser reprendido.

NIN Buscas mais, amigo meu?
TM Busco a vida e quem ma dê.
NIN A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
BER Escreve lá outra sorte.
DIN Que sorte?
BER Muito garrida:
Todo-O-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.

TM E mais queria o Paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NIN E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.
BER Escreve com muito aviso.
DIN Que escreverei?
BER Escreve
que Todo-O-Mundo quer Paraíso,
e Ninguém paga o que deve.

TM Folgo muito d'enganar,
e mentir naceu comigo.
NIN Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
BER Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
DIN Quê?
BER Que Todo-O-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.

NIN Que mais buscas?
TM Lisonjar.
NIN Eu sou todo desengano.
BER Escreve, ande lá mano.
DIN Que me mandas assentar?
BER Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-O-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
........................................................

Gil Vicente, in Auto da Lusitânia

sábado, maio 23, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)
(1906-1997)

António Gedeão é o pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho. A sua revelação tardia como poeta, aos 50 anos, leva Jorge de Sena a considerá-lo como o lídimo continuador de toda a herança modernista. A sua primeira obra poética (Movimento Perpétuo) data de 1956, mostra-nos um professor de Ciências Fisico-Químicas, não liberto do seu saber técnico - o que só vem a enriquecer a sua poesia - mas pleno duma notável sensibilidade, só possível num homem já maduro e com um olhar atento à realidade social e política que o rodeia. Com o seu segundo livro, Teatro do Mundo (l958, consegue logo a consagração definitiva. A força de poemas como Fala do Homem Nascido, Ode Metálica, Poema do Homem Só e Calçada de Carriche, foi determinante.
Apesar da sua elevadíssima intelectualidade, António Gedeão conseguiu ser um poeta popular, graças à divulgação que Manuel Freire deu à sua obra, ao musicar e cantar alguns dos seus poemas. Nos anos 60 do SEC. XX, Portugal estava ávido de mudança política e a elegância que António Gedeão dá à sua poesia, fez com que os esbirros da Censura não o entendessem. Mas o Povo entendeu. Pertence pois ao raro escol daqueles que conseguem, em vida, subir às alturas do Povo, para utilizar as palavras de Pedro Homem de Melo.
Assinando com o seu próprio nome, Rómulo de Carvalho, publicou vários livros escolares especializados, que revelam a sua vasta obra literária, destacam-se títulos como Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), 4 Poemas da Gaveta (s/d), Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990), entre muitos outros. De salientar estes dois títulos que foram publicados ainda em vida. A razão dos títulos deve-se (disse o próprio António Gedeão) ao facto de já se considerar morto como poeta... O certo é que ainda hoje está vivo no sentir do Povo e as novas gerações ainda devoram os seus livros.

acs

sexta-feira, maio 22, 2009

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
ANTÓNIO GEDEÃO (PORTUGAL)


PEDRA FILOSOFAL*

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

*in MOVIMENTO PERPÉTUO (1956)

quarta-feira, maio 06, 2009

ARMILA D'A ACÇÃO

LAURO MOREIRA
UM HOMEM SEM PAPAS NA LÍNGUA

De há muito, particularmente nas Crónicas que mantive na RDP-Internacional, que tenho apontado o dedo aos políticos, pela sua inacção, tanto na defesa da Língua Portuguesa, como até no falar, pois não são poucas as vezes em que se abastardam, por pedantice bacoca, falando em línguas estrangeiras.
Isto mesmo o reconheceu ontem o Embaixador do Brasil, junto da CPLP. No Colóquio Sobre a Unidade e Diversidade Cultural na CPLP, que ontem teve lugar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, Lauro Moreira acusou os políticos de todos os países da CPLP, ao afirmar que "há um reconhecimento hoje, por parte de nós todos da CPLP, que este (a Língua Portuguesa) é o elo mais fraco da corrente e é um absurdo completo porque ele deveria ser o mais forte, pois é o cimento da organização".
A promoção da Língua Portuguesa cabe-nos a todos nós cidadãos, mas aos políticos exige-se toda a responsabilidade, pois, por via do voto, foi neles que delegámos todas as competências. Finalmente lá apareceu alguém, com responsabilidades, que assumiu frontalmente a defesa e a promoção da Língua Portuguesa, exigindo responsabilidades aos governos. De Lauro Moreira, um homem da Cultura, outra coisa não era de esperar, mas por isso mesmo merece o nosso apoio e o nosso abraço.
acs

ARMILA LITERÁRIA

POETAS DA CPLP
JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Brasil)
(9-1-1920/9-10-1999)
Bastar-lhe-ia ter escrito "Morte e Vida Severina", para ficar imortalizado na História das Literaturas de Língua Portuguesa. de si próprio disse, ao já extinto jornal português A Capital, em 1985: "Considero-me na linha dos poetas marginais, fora da tradição essencialmente lírica" (...) "O poeta não é só o guardião da palavra. O guardião da palavra é o gramático e por isso vive discutindo com o poeta".
Era considerado um poeta isolado em relação à Geração de 1945 de que fazia parte, porque João Cabral de Melo Neto procurou a síntese e a depuração do Modernismo, abrindo um novo caminho para as novas gerações. A sua poesia é concisa e precisa. Ele bate-se contra o irracionalismo, pela desmistificação dos seus próprios mitos. A sua técnica dá ao poema uma estrutura quase arquitectónica. É por isso que ele diz que o poeta vive discutindo com o gramático.
João Cabral de Melo Neto abraçou a carreira diplomática. Em Barcelona, onde foi Cônsul, conheceu o poeta português Alberto Serpa. Travaram-se de Amizade, uniram esforços e de colaboração com José Régio e Pedro Homem de Melo fizeram a revista O CAVALO DE TODAS AS CORES, de que saiu apenas um único número, que hoje é um documento histórico.
Intelectual de primeira água, João Cabral de Melo Neto, debruçou-se sobre a realidade que o rodeava. A sua obra é vasta. Escreveu o primeiro poema, "Sugestão de Pirandelo", em 1937, mas é em 1942 que publica o seu primeiro livro, "Pedra de Sono". Seguem-se, entre outros, O Engenheiro, O Cão Sem Plumas, O Rio, Paisagens Com Figuras, Morte e Vida Severina (que Chico Buarque haveria de musicar, dando-lhe uma divulgação internacional, para o grande público). A obra de João Cabral de Melo Neto está hoje reunida em POESIA COMPLETA (1940-1980), numa notável edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa-1986) e com um Prefácio notabilíssimo do Professor Óscar Lopes.
Vencedor do Prémio Camões em 1990, Melo Neto é um verdadeiro artista da palavra. Provocatoriamente e por contraste com a intelectualidade de João Cabral de Melo Neto, que era um homem que sabia entender o Povo, apetece-me citar António Aleixo, um poeta popular português, quase analfabeto, que gosto de revisitar de quando em vez, e que também sabia ter um olhar atento e crítico sobre a sociedade que o rodeava: "A arte é a força imanente,/não se ensina, não se aprende,/não se compra, não se vende,/nasce e morre com a gente." (...) "A arte em nós se revela/sempre de forma diferente:/cai no papel ou na tela/conforme o artista sente."
João Cabral de Melo Neto, nasceu no Recife em 9 de Janeiro de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro a 9 de Outubro de 1999.
acs