terça-feira, junho 27, 2006

7. ARMILA PRIMEIRA

A REFORMA DO ENSINO

Para que fique claro, confesso que ainda não consegui ter uma ideia clara sobre a actual Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Isto é: a sua actuação fundamenta-se numa ideologia possidónia (como o Primeiro-Ministro, o Ministro da Finanças, ou o colégio de comissários da União Europeia) ou assenta numa visão correcta das necessidades reais do estado a que o ensino chegou? Ainda não entendi, mas o futuro próximo no-lo dirá.

Porém qualquer coisa lucila quando se toca no sistema de avaliação dos professores. Se é certo que vejo com preocupação o encerramento dum número tão elevado de escolas (1500 em 2007) ou a avaliação dos professores por parte dos pais (que no todo nacional, roçam o pouco menos que o analfabetismo) também vejo com alguma esperança, a formação, para melhor, dos novos professores.

Para tal é imperioso que os alunos tenham boa formação desde a Escola Primária até à Universidade. Não podemos mais tolerar que se chegue à Universidade - e dela se saia - sem saber a tabuada e a dar gravíssimos erros de Português. Aliás para qualquer área do saber é indispensável dominar bem a Língua Portuguesa, tal como diz o meu grande Amigo e linguista José Neves Henriques em artigo publicado no Boletim da Sociedade da Língua Portuguesa, onde põe o dedo na ferida, como no caso do professor de Matemática que tem de saber explicar aos alunos o que é um axioma, indo mesmo ao étimo do vocábulo; pois só assim, diz, "a língua penetra na alma do Homem e, fundindo-se com o seu pensar e sentir, leva-o à criação que deslumbra, tal como a água penetrando na semente lançada à terra".

É isto que os responsáveis pelo sistema de ensino, devem ter em conta. É isto que se exige do Ministério da Educação (e que antes deveria ser da Instrução, já que educação é outra coisa).

Para termos bons matemáticos, bons engenheiros, bons médicos, bons biólogos, bons físicos, bons químicos, bons investigadores, etc., é condição primeira conhecer e dominar bem a Língua Portuguesa, tal como se faz nos outros países. Ora, para atingir estes objectivos, temos que, desde o primeiro ano de escolaridade até ao último ano da Universidade, implementar um excelente programa do ensino da Língua Portuguesa. E isto passa, não o esqueçamos, pela leitura obrigatória dos nossos melhores escritores clássicos: Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, António Ferreira, Luis de Camões, João de Barros, Damião de Gois, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Rodrigues Lobo, Padre António Vieira, Luis António Verney, Bocage; ou da Época Contemporânea: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, e muitos outros. São estas as grandes referências que enriquecem o vocabulário dos jovens, lhes dão a perceber como se controem as frases e os leva a entender melhor como se estrutura um texto. Depois, depois da Universidade, é o estudar contínuo, já sem a ajuda do professor...

Para terminar: sei de professores que dão graves erros de Português. Justificam-se dizendo que não são professores de Português, mas sim de Matemática, Geografia, etc....... Sem comentários. Isto assim não pode continuar.

acs

8. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

QUADRAS DUM GRANDE POETA POPULAR

JESUS DISSE QUE SE AMASSEM
AOS QUE CRISTÃOS SE PROCLAMAM;
NÃO DISSE QUE SE MATASSEM,
E ELES MATAM-SE E NÃO SE AMAM
*
SEM QUE O DISCURSO EU PEDISSE,
ELE FALOU; E EU ESCUTEI.
GOSTEI DO QUE ELE NÃO DISSE;
DO QUE DISSE NÃO GOSTEI.
*
TU, QUE TANTO PROMETESTE
ENQUANTO NADA PODIAS,
HOJE QUE PODES - ESQUECESTE
TUDO QUANTO PROMETIAS...
*
OS QUE BONS CONSELHOS DÃO
ÀS VEZES FAZEM-ME RIR,
- POR VER QUE ELES PRÓPRIOS SÃO
INCAPAZES DE OS SEGUIR.
*
DESCREIO DOS QUE ME APONTEM
UMA SOCIEDADE SÃ:
ISTO É HOJE O QUE FOI ONTEM
E O QUE HÁ-DE SER AMANHÃ.

António Aleixo - in Este Livro Que Vos Deixo

sexta-feira, junho 23, 2006

3. ARMILA DO ASSOBIO

DO PLÁSTICO PARA O MILHO

Na sua edição nº 692 de 8 de Junho de 2006, noticia a revista Visão (pag. 109) que a empresa britânica BELU já colocou no mercado uma garrafa de água mineral fabricada à base de milho e que tem a vantagem de se degradar em apenas 12 semanas, "um milhão de anos antes das tradicionais congéneres de plástico", de acordo com o sítio da marca na Internet. A Visão dá-nos ainda conta que em comunicado para a imprensa a empresa britânica anuncia que 100% dos lucros reverte a favor dos países menos desenvolvidos, para que possam dispor de água potável.

O facto deste novo material se degradar em apenas 12 semanas e de ser fabricado à base de milho, tem tantos méritos que, face à evidência, me dispenso de comentar. Era bom que os fabricantes portugueses de objectos de plástico, agarrassem a ideia e apanhassem ainda a máquina do comboio que já está em marcha, para que mais tarde não se venham a queixar. Para além de garrafas poder-se-ão fabricar caixas de todo o tipo, desde as domésticas às embalagens para medicamentos, etc.

Paralelamente ajuda-se a nossa agricultura (que tão carenciada está) estimulando o aumento da produção de milho.

Que os nossos empresários saibam,de imediato, agarrar a novidade. Também não ficava nada mal ao Governo (que muito se afirma amigo do ambiente) legislar já sobre a matéria, dando assim um empurrão aos empresários.
acs

quarta-feira, junho 21, 2006

7. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

A GUERRA

É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades e talvez em algum momento sorve reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema; nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguroo seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a sua cela, e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro.

Pde. António Vieira- in Sermão panegírico pregado em Lisboa em 1668, no aniversário da rainha Maria Francisca Isabel de Saboia

AS NEGOCIAÇÕES DIPLOMÁTICAS

Que de tempos costuma gastar o mundo, não digo no ajustamento de qualquer ponto de uma paz, mas só em registar e compor os cerimoniais dela! Tratados preliminares lhe chamam os políticos, mas quantos degraus se hão-de subir e descer, quantas guardas se hão-de romper e conquistar, antes de chegar às portas da paz, para que se fechem as de Jano? E depois de aceites com tanto exame de cláusulas as plenipotências; depois de assentes com tantos ciúmes de autoridade as juntas; depois de aberto o passo às que chamam conferências, e se haviam de chamar diferenças, que tempos e que eternidades são necessários para compor os intricados e porfiados combates que ali se levantam de novo? Cada proposta é um pleito, cada dúvida uma dilação, cada conveniência uma discórdia, cada razão uma dificuldade: cada interesse um impossível, cada praça uma conquista: cada capítulo e cada cláusula dele uma batalha, e mil batalhas. Em cada palmo de terra encalha a paz, em cada gota de mar se afoga, em cada átomo de ar se suspende e pára. Os avisos e as postas a correr e cruzar os reinos, e a paz muitos anos sem dar um passo.

Pde. António Vieira - in Sermão panegírico pregado em Lisboa em 1668, no aniversário da rainha Maria Francisca Isabel de Saboia

5. ARMILA LINGUÍSTICA - Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

"SHOPPING CENTER" / CENTRO COMERCIAL

Abundam por aí os "Shopping Centers", com a conivência do Governo, da Assembleia da República e das autarquias. Sim, com todas estas cumplicidades, mas sobretudo da Assembleia da República e do Governo (dos sucessivos governos, entenda-se), pois cabe perguntar: onde estiveram os vários ministros da cultura e da educação quando se legislou sobre os Centros Comerciais? E o Primeiro-Ministro (os vários)? E a Comissão de Cultura da Asembleia da República? E a Presidência da República?

Para aqueles a quem não basta defender a nossa identidade
como Povo, lembro que "Shopping Center" quer dizer, apenas, que se trata dum Centro de Compras, enquanto que a expressão em Língua Portuguesa, CENTRO COMERCIAL, é mais PRECISA e mais VERDADEIRA, pois quer dizer que se trata dum local onde se praticam ACTOS DE COMÉRCIO, isto é onde se COMPRA aquilo que alguém VENDE, enquanto que a expressão em inglês só diz parte da verdade (onde se compra). Não será que só se pode comprar aquilo que se vende? Digamos pois CENTRO COMERCIAL e, na medida do possível, pressionemos os políticos (que dizem que nos representam), a tomar uma medida legislativa forte e defensora da nossa Identidade Cultural.
acs

terça-feira, junho 13, 2006

6. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

OS LUSÍADAS

PROPOSIÇÃO
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da morte libertando,
- Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram,
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Canto I, est. 1-3

PORTUGAL
Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-a de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
de Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os íncolas primeiros.
Canto III, est. 20-21
Luis de Camões in Os Lusíadas

segunda-feira, junho 12, 2006

6. ARMILA PRIMEIRA - OS I JOGOS DA LUSOFONIA

OS I JOGOS DA LUSOFONIA


Na sua edição de 15 de Abril de 2006, o Jornal electrónico Super Goa (http://www.supergoa.com/pt) dava-nos conta, a partir duma notícia divulgada pela Agência Lusa, que no próximo mês de Outubro se vão realizar em Macau os I JOGOS DA LUSOFONIA, numa organização da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP). Mas nesta notícia o Super Goa vai mais longe e dá-nos a saber que a ACOLOP aceitou as candidaturas dos Comités Olímpicos da Índia e do Sri Lanka, como seus membros associados, o que permite a participação de atletas Goeses logo na 1ª edição dos Jogos da Lusofonia.

Manuel Silvério, presidente em exercício da ACOLOP e da Comissão Organizadora dos jogos, declarou que "com esta admissão, os JOGOS DA LUSOFONIA alargam a sua dimensão às diversas comunidades que falam português no mundo e assumem-se como congregadores de todas essas comunidades" e acrescenta que a entrada da Índia e do Sri Lanka faz com que a ACOLOP "entre numa nova era e numa nova fase de desenvolvimento que dá possibilidades à associação de crescer não só ao nível das nações, como também das comunidades falantes da Língua Portuguesa".

Curioso é saber qual foi o orgão de informação português que divulgou esta notícia. Se algum a deu, foi tão discretamente que ninguém se apercebeu... Pode ser que algum jornal, rádio ou televisão retome a notícia da Lusa e lhe dê, em primeira mão, a importância que efectivamente tem.

Cabe aqui reconhecer que as pessoas do Olimpismo lusófono, vão muito à frente dos políticos que continuam a fazer da CPLP uma organização adormecida... Pessoas como Susana de Sousa (directora dos Assuntos Desportivos e da Juventude do Governo de Goa) e Vicente de Moura (presidente do Comité Olímpico Português e director da ACOLOP) têm-se destacado, não só nesta acção, mas sobretudo numa cooperação contínua entre Portugal e Goa. Coisa que, por cá, nós desconhecemos. Foi graças ao Super Goa, que eu tive conhecimento deste trabalho de mãos dadas.

Apetece-me lançar um desafio aos políticos: Estamos em vésperas de mais um aniversário da CPLP. Não seria uma boa oportunidade para se desenvolverem esforços no sentido de a China e a Índia passarem a ser membros de pleno direito da CPLP? Não nos esqueçamos que tanto a China como a Índia são países em que Língua Portuguesa é uma das suas línguas oficiais... Admiti-los na CPLP, para além de muitas outras vantagens, teria o condão de estimular e aumentar o ensino, naqueles países, da Língua Portuguesa.

acs

terça-feira, junho 06, 2006

5. ARMILA LITERÁRIA- Selecção de textos de grandes autores

ÁRVORES DO ALENTEJO


Horas mortas... Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido...e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam, desgrenhadas,
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram,
Em vão, remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca in Charneca em Flor

4. ARMILA LINGUÍSTICA- Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

O Corão / O ALCORÃO

Nos tempos que correm, e pelas piores razões, o ALCORÃO é bastas vezes citado nos noticiários de todo o mundo. Apesar dos muitos esforços de alguns, o certo é que em Portugal os nossos jornalistas, comentadores, políticos, etc., com acesso aos vários orgãos de informação, continuam teimosamente a dizer e escrever o Corão. Digo teimosamente porque após tantas chamadas de atenção já tiveram mais do que tempo para dobrar a língua... Ou será que é mais uma subserviência às línguas estrangeiras, sobretudo ao império da língua inglesa?...

ALCORÃO quer dizer A Leitura (al-qurân). Em Português ficou o termo ALCORÃO por não se tratar duma qualquer leitura, mas de A Leitura, que para os Muçulmanos é o Livro Sagrado do Islamismo. O mesmo, aliás, se passou com a BÍBLIA (vocábulo grego) e não Livros e EVANGELHO (também vocábulo grego) e não Boa Nova.

Mas quedemo-nos pela palavra ALCORÃO. Certos pseudo-puristas defendem que se deve dider o Corão, porque dizer ALCORÃO seria utilizar duas vezes o artigo definido árabe (al), sendo o mesmo que dizer O O CORÃO. É evidente que em ALCORÃO está o artigo definido árabe. Mas ele é indispensável para definir de que tipo de leitura se trata: A Leitura e não uma qualquer leitura. Aliás foi como o vocábulo entrou no nosso léxico, tal como muitas outras palavras. Note-se que a nossa língua, sendo basicamente de greco-latina, é-o também de origem árabe, como aliás muita da nossa Cultura (e ainda bem, pois os Árabes foram sempre uns grandes matemáticos, e não só...). Esses tais pseudo-puristas se querem dizer o Corão, devem, então dizer também, por exemplo (pois há muitos mais): o garbe (ALGARVE), a mofada (ALMOFADA), a cântara (ALCÂNTARA), o guidar (ALGUIDAR), o mofariz (ALMOFARIZ), o zeite (AZEITE), o finete (ALFINETE), etc.

A título de curiosidade registe-se que apesar de em francês se dizer Le Coran, ou Le Koran, o certo é que a língua francesa regista também a forma Alcoran (Gran Larousse Encyclopédique-3º vol.) e na língua inglesa também encontramos os vocábulos Alcoran e Koran (The Standford Dictionary of Anglicised Words and Phrases).

Na Língua Portuguesa, porém, só ALCORÃO é a palavra correcta, pois o artigo definido árabe (al) entrou na nossa língua já aglutinado à palavra árabe (qurân). Digamos pois sempre ALCORÃO. Já repararam no ridículo que muitas vezes acontece nas nossas televisões, quando convidam para uma entrevista o Presidente da Comunidade Inslâmica Portuguesa? A triste figura que fazem os jornalistas quando interrogam o entrevistado sobre o Corão e recebem como resposta o ALCORÃO, vocábulo pronunciado (sempre) com uma notável elegância rectificativa!...

acs