terça-feira, novembro 14, 2006

10. ARMILA PRIMEIRA

A DECADÊNCIA DO RISO

" Foi o grande mestre Rabelais que disse: Ride! Ride! Porque o riso é próprio do Homem! Mas como poderia pensar de outro modo o tão profundamente humano abade de Meudon? Quando ele lançava este salutar ditame, o mundo todo, em torno, era alegre e ria! (...) De que provém esta desoladora decadência do riso? Haveria um estudo a compor sobre a "Psicologia da Macambuzice Contemporânea". Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único Homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artistica que matou o nosso riso..."
Este excelente naco de prosa, já com mais de cem anos, faz parte das Notas Contemporâneas de Eça de Queiroz. Faço questão de o trazer hoje aqui, por um lado para nos deliciarmos com a maravilha da prosa deste que foi um dos maiores vultos da literatura mundial; por outro para reflectirmos um pouco sobre a decadência do riso que já afligia o nosso grande Eça.
Esta coisa da alegria, da ventura, do júbilo ou do regozijo, que quantas vezes se manifesta pelo riso, tem-se vindo a perder ao longo dos tempos. E Eça de Queiroz é capaz de ter razão quando diz que isso é fruto da civilização que o Homem tem vindo a construir. Se não, notemos que cada vez são menos comuns, no nosso linguajar, expressões populares como: corar de riso, risão, dar riso, fazer riso de, risada, meter riso a, morrer de riso, rir a bandeiras despregadas, perder-se de riso, riso alvar, riso amarelo, riso cristalino, riso de paz, sorrriso, riso franco, riso homérico, sufocar de riso, ter boca de riso, risota e risoteiro, entre muitas outras em que o povo português é fértil.
Amigo e companheiro de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, a propósito da eloquência parlamentar portuguesa, escrevia n'As Farpas, esta delícia: "Os homens mediocres, os espíritos estreitos que em todas as reuniões formam maiorias e dão às assembleias o seu carácter predominante, à força de se imitarem, de se desgastarem em velhas questões, sempres as mesmas, sem princípios, sem ideias, sem estudo, sem interesse na verdade, sem sacrifício, sem elevação, acabaram por fazer da eloquência parlamentar portuguesa uma atafona de palavrões estafados, de fórmulas ocas, velhas imagens pegajosas e safadas, como as cartas dum baralho imundo pelas dedadas sórdidas de vinte anos de bisca. Esta retórica trôpega, relaxada e senil, não podendo criar uma língua forte e digna, deu o ser a um estilo especial de malandragem política; fez a gíria constitucional, a geringonça parlamentar, o calão burguês."
Se atentarmos bem neste texto, Ramalho Ortigão, se é verdade que aborda um tema sério, não é menos verdade que o faz com elevada dose de humor. Dum humor fino e mordaz. Esta notável capacidade de rir dos políticos do seu tempo, fez de Ramalho um dos raros escritores que ainda escreviam com humor, pois tal como Eça nos diz, a capacidade de rir estava em decadência.
Os portugueses sempre tiveram o condão de saber rir, mas, porque somos um povo de extremos, ora rimos, ora ficamos macambúzios. Esta nossa capacidade de satirizar, de rirmos de tudo e de todos, até de nós próprios, ou de rirmos tão simplesmente de alegria, tem tido altos e baixos ao longo da nossa História.
Nós que somos um povo com um anedotário riquíssimo, estamos hoje em nova decadência humoristica. Talvez maior do que no tempo de Eça. A culpa, tal como nos diz o romancista, talvez seja da civilização que temos vindo a construir. Confiemos que o nosso anedotário e a nossa capacidade de rir regressem muito em breve ao nosso quotidiano.
acs.

segunda-feira, outubro 23, 2006

11. ARMILA LITERÁRIA

O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa - in "Mensagem"

2. ARMILA D'A ACÇÃO

A JUSTIÇA E O FUTEBOL

Recordam-se certamente que em 13 de Setembro, na Armila do Assobio nº 4 manifestei a minha revolta oerante a subserviência das entidades portuguesas que "administram" o futebol em portugal (FPF e Liga) perante a toda poderosa FIFA, bem como perante a passividade do Governo Português.

Trata-se do chamado "Caso Mateus" que já se transformou no CASO GIL VICENTE. O Clube de Barcelos já foi suspenso pela FPF, com todas as consequências inerentes...

Tomei a iniciativa de sugerir à Deputada no Parlamento Europeu, Ana Gomes, que lesse o texto que publiquei no blogue e que se assim o entendesse, tomasse as medidas apropriadas no sentido de vergar a toda poderosa FIFA ao Poder Político, ao Direito Comunitário e ao Direito Interno de cada país da União Europeia.

A dra. Ana Gomes (sim, essa que como Embaixadora de Portugal, defendeu Timor com unhas, dentes e lágrimas) entendeu dar-me razão e desenvolveu os mecanismos necessários no Parlamento Europeu. Respondeu-me, enviando em anexo, cópia da DECLARAÇÃO ESCRITA Nº 68/2006, apresentada por Manolis Mavrommatis, Vasco Graça Moura e José Silva Peneda e subscrita pela própria Ana Gomes e outros deputados do Parlamento Europeu.

Porque se trata dum documento público, sem qualquer confidencialidade, aqui o transcrevo:

"0068/2006
Declaração escrita sobre as decisões da FIFA em relação aos Estados-Membros da União Europeia

O Parlamento Europeu,

- Tendo em conta o Código de Conduta da FIFA,
- Tendo em conta o artigo 116º do seu Regimento,
A. Tendo em conta a ameaça da FIFA de excluir a Grécia, actual campeão da Europa, a Itália e Portugal de todas as competições internacionais, acusando-os de agir contra o seu Código de Conduta,
B. Considerando que a primazia jurídica do Código de Conduta da FIFA sobre as legislações nacionais dos Estados-Membros e a legislação comunitária é inaceitável,
C. Considerando que os Estados-Membros da União Europeia parecem não poder controlar as decisões e os actos da FIFA,
D. Tendo em conta os danos financeiros causados aos clubes de futebol que concluem acordos com os patrocinadores e os canais de televisão e são sujeitos a perdas financeiras substanciais pelos actos austeros da FIFA,
E. Considerando que as decisões e os actos arbitrários da FIFA são contrários à legislação da União Europeia,
1. Convida a Comisssão a propor e estabelecer medidas e disposições estritas que protejam os Estados-Membros das decisões arbitrárias da FIFA, reconhecendo a primazia da legislação da União Europeia, sobre o Código de Conduta da FIFA;
2. Convida a Comissão, tendo devidamente em conta a especificidade do desporto, a impor a legislação da União Europeia em todos os acordos concluídos pela FIFA e os clubes de futebol, protegendo assim o comércio e o mercado de trabalho na União Europeia no que respeita ao desporto mais popular a nível mundial,
3. Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente declaração, com a indicação do nome dos respectivos signatários, ao Conselho, à Comissão e à FIFA."

A bola está agora nas mãos da Comissão Europeia, presidida por Durão Barroso, que terá de tomar uma decisão até 18 de Janeiro de 2007.

Aguardemos, serenamente, para ver ... E depois contar.

acs

segunda-feira, setembro 25, 2006

11. ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

OS INGLESES NO EGIPTO

O primeiro episódio oriental que eu vi, ao desembarcar há doze anos em Alexandria, foi este: no cais da alfândega, faiscante sob a luz tórrida, um empregado europeu - europeu pelo tipo, pela sobrecasaca, sobretudo pelo boné agaloado - estava arrancando a pele das costas de um árabe, com aquele chicote de nervo de hipopótamo que lá chamam courbacha, e que é no Egipto o símbolo oficial da autoridade.
Em redor, sem que esse espectáculo parecesse desusado ou escandaloso, alguns árabes transportavam fardos; outros empregados agaloados, de chicote na mão, davam ordens por entre o fumo do cigarro...
Saciado ou cansado, o homem da courbacha, que era um magrizela, atirou um derradeiro pontapé à anatomia posterior do árabe - como quem, ao fim de um período escrito com verve, assenta vivamente o seu ponto final - e, voltando-se para o meu companheiro e para mim, ofereceu-nos, de boné na mão, os seus respectivos serviços. Era um italiano, e encantador. A esse tempo o árabe (como quase todos os fellah, um soberbo homem de formas esculturais) depois de se ter sacudido como um terra-nova ao sair da água, fora-se agachar a um canto, com os olhos luzentes como brasa, mas quieto e fatalista, pensando decerto que Alá é grande nos céus e necessário na terra a courbacha do estrangeiro.
(...)
Esta era a situação ao dia 11 de Junho. Alexandria tornara-se uma fornalha de excitação. Nas mesquitas pregava-se com furor a cruzada contra o cristão: nos bazares falava-se do estrangeiro como cão maldito, da ave de rapina, pior que o gafanhoto que devora a seara, pior que a seca do Nilo; e, ou fosse o fanatismo que despertasse, ou fosse a miséria que se queria vingar - todo o bom muçulmano se armava.
Nestas circunstâncias, de uma chufa de botequim pode nascer uma guerra de raças. E, pouco mais ou menos, assim sucedeu. Na manhã do dia 11, na Rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglês, por um velho hábito, deu chicotadas num árabe; mas contra todas as tradições, o árabe replicou com uma cacetada. O inglês fez fogo com o revólver. Daí a pouco o conflito entre europeus e árabes, em pleno furor, tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas - até que, por ordens telegrafadas do Cairo, a tropa, até aí neutral, acalmou as ruas. E o resultado, bem inesperado, mas compreensível, desde que se sabe que os árabes só tinham cacetes e que os europeus tinham carabinas - foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos árabes dizimados. Os jornais têm chamado a isto o massacre dos cristãos: eu não quero ser por modo algum desagradável aos meus irmãos em Cristo, mas lembro respeitosamente que a isto se chame a matança dos muçulmanos.

Eça de Quieroz - in Cartas de Inglaterra

terça-feira, setembro 19, 2006

1. ARMILA D'A ACÇÃO

APRESENTAÇÃO DA ARMILA

No Armilar surge hoje uma nova Armila. É a ARMILA D'A ACÇÃO. Porquê? Celebra-se este ano o 1º Centenário do nascimento do maestro e compositor Fernando Lopes-Graça, que para além da sua vertente musical foi também um homem politicamente empenhado na defesa dos valores democráticos, do direito à cidadania e do direito à Liberdade. Foi um dos maiores vultos da Cultura Portuguesa e da Cultura Europeia.
Em 1928 fundou em Tomar, sua cidade natal, o jornal A Acção, um espaço aberto a todos aqueles valores. Porque a política também é uma das vertentes da cultura (os políticos de hoje levam-nos a não acreditar nisto) quero, embora modestamente, homenagear Lopes-Graça dando o nome do seu jornal a uma das armilas deste blogue. A Armila d'A Acção não surgirá com muita regularidade. Só verá a luz do dia quando me parecer oportuno. Feita a apresentação entremos pois na 1ª Armila d'A Acção.

UNIÃO EUROPEIA: UMA NOVA E MONSTRUOSA JUGOSLÁVIA?
Se bem se lembram, a ex-Jugoslávia era constitida por uma unidade forçada, imposta e complexa de povos. Os Sérvios a E. (c. 7,5 milhões) Croatas a N. e SO. (c.4,3 milhões) Eslovenos a NE. (c. 1,7 milhões) Macedónios a SE. (c. 1 milhão) Montenegrinos a S. (c. 1 milhão) Bosnianos no centro (c. 1 milhão); para além dos albaneses (950 000) dos húngaros (550 000) dos romenos (175 000) dos turcos (100 000) e dos italianos (85 000). Eram seis as repúblicas federadas: Sérvia, Montenegro, Macedónia, Eslovénia, Croácia e Bósnia-Herzegovina (se estas duas não estivessem juntas seriam 7).
A Questão Linguística
Na ex-Jugoslávia existiam quatro línguas principais, o Croata e o Esloveno a O., com escrita latina e o Sérvio (que pouco difere do Croata, formando o conjunto servo-croata) e o Macedónio a E., escritos em alfabeto cirílico.
Todos vimos no que isto deu e não vale a pena entrar aqui em comentários... Basta lembrar: FAMÍLIAS DESTROÇADAS.
Agora a União Europeia
Olhando para este modelar exemplo da ex-Jugoslávia, falemos agora da União Europeia.
Os actuais políticos que estão à frente da União Europeia e dos vários países que a compõem, parece que só se preocupam em arranjar mais poleiros para se instalarem, bem como aos seus apoiantes. Lá vão demagogicamente enganando os povos para votarem neles prometendo mundos e fundos que só uns futuros Estados Unidos da Europa poderão dar.....
Franceses e Holandeses não foram na cantiga, mas pode acontecer que um dia caim na esparrela. Nessa altura será tarde.
Lembremo-nos do aviso do Prof. Sousa Franco nas páginas da revista Visão: NÃO a uma federação de Estados. TALVEZ uma confederação de Estados à imagem e semelhança da Suiça.
Penso que, o que os povos dos vários países da União Europeia querem é um bem estar económico e social, mantendo a SUA IDENTIDADE CULTURAL, a sua IDENTIDADE LINGUÍSTICA, o seu MODO DE VIVER, a sua HISTÓRIA e os seus GOVERNOS.
Tudo o que fôr contra isto, será um atentado contra os Povos e só fomentará guerras no futuro, não muito distante.
Não façam da Europa uma nova e monstruosa ex-Jugoslávia, pois quando os povos e a História julgarem os políticos dessa ex-Europa, já será muito tarde e já terão morrido milhões de inocentes e destroçadas inúmeras famílias.
acs.

quarta-feira, setembro 13, 2006

4. ARMILA DO ASSOBIO

JUSTIÇA - DEIXEM FAZER JUSTIÇA
O mundo da bola anda em ebulição, tão-só porque um clube de futebol, o Gil Vicente, se sente prejudicado pelas decisões da Liga de Futebol e da Federação Portuguesa de Futebol que lhe aplicaram o castigo de descida de divisão, na sequência do chamado "CASO MATEUS".
Sentindo-se lesado o Gil Vicente recorreu aos tribunais para aí defender os seus pontos de vista, alegando que pode mesmo chegar aos tribunais comunitários (União Europeia).
Porque as normas, ou regulamento da FIFA, entidade que manda no futebol a nível mundial, (não LEIS DA FIFA COMO POR AÍ SE PROPAGA), proibem os clubes de recorrer aos tribunais, independentemente da razão que lhes assista. Neste momento não interessa saber se o Gil Vicente tem ou não razão. Basta que se sinta lesado para ter direito a recorrer aos tribunais.
Ora é do mais elementar princípio que qualquer cidadão, individual ou colectivo, que se sinta lesado tem o direito de recorrer aos tribunais reclamando que se faça justiça. É isto que os senhores da FIFA querem impedir, por forma a manterem a sua plutocracia na FIFA e nas várias federações nacionais. Parece que já esqueceram o "CASO BOSMAN" pois continuam a querer impor-se aos tribunais nacionais de cada país.
A Federação Portuguesa de Futebol fez vénia à FIFA e perante ela ajoelhou, invocando, pasmem gentes, o "interesse público" para despromover o clube de Barcelos. Interesse público no futebol?!!!... Porque carga de água? As grandes multinacionais treansferem as suas fábricas em Portugal para outros países, lançando no desemprego milhares de trabalhadores e ainda não houve um único governo que invocasse o "interesse público" para o impedir! É o interesse público do pontapé na bola ou o do interesse plutocrático dos donos da bola?
DEIXEM QUE OS TRIBUNAIS DECIDAM .
Já agora, uma pergunta inocente: Que fazem os deputados no Parlanento Europeu? Que faz o Colégio de Comissários europeus, presidido por Durão Barroso? Que faz a Assembleia da República? Que faz o Governo Português?
Qual é a legitimidade da FIFA para impor regras que nem os Estados da União Europeia podem aplicar?
Não há aí ninguém que consiga pôr a FIFA sob a alçada da legislação de cada país?
Enquanto o Gil Vicente se sentir lesado tem todo o direito a recorrer aos tribunais. Os senhores da bola só se podem dignificar a si próprios, se dignificarem a JUSTIÇA.
DEIXEM QUE SE FAÇA JUSTIÇA.
acs

quarta-feira, agosto 02, 2006

9. ARMILA PRIMEIRA

NOVA VIDA PARA A C P L P
A propósito da VII Cimeira - II (conclusão)

(... continuação)

Acreditemos, então, que a CPLP (enquanto organização) e os governos dos países que a integram, desenvolvem (efectivamente) esforços, por forma a atingir, até 2015, os objectivos a que se obrigaram nesta Cimeira de Bissau. Acreditemos que, por vezes, os políticos cumprem o que prometem.
Não se esqueçam, meus senhores, que para atingir a meta que marcaram, é necessário implementar medidas e cumprir programas. Então que fazer? Os senhores sabem, mas como até hoje têm deixado a CPLP adormecida numa cama dura, nomeio-me a mim próprio Embaixador da Boa-Vontade, apontando alguns caminhos que levem a pobre da "Bela Adormecida" a acordar e a movimentar-se livremente.
É imperioso e urgente, seguir o exemplo da França (com os seus liceus franceses e institutos frnceses espalhados por todo o mundo) e impôr a Língua Portuguesa em todo o mundo, avançando paralelamente com actividades culturais, dentro da CPLP, mas sobretudo fora dela, com embaixadas culturais, divulgando a nossa música, a nossa pintura, a nossa literatura, a nossa escultura, as nossas danças (dança moderna, aproveitando os bailarinos que sairam da Gulbenkian). A CPLP deve fazer um acordo com a União Europeia, no sentido da livre circulação dos seus produtos, numa verdadeira abertura dos dois mercados. A CPLP deve lutar pela livre circulação de pessoas, numa primeira fase, entre os países membros da CPLP e depois estabelecer um acordo com a União Europeia, para que os cidadãos da U.E. e da CPLP possam circular livremente. Deve a CPLP (tal como se faz na Europa: Produzido/Fabricado na EU) criar um símbolo de Produzido/Fabricado na CPLP. Com isto, estaremos a contribuir para o desenvolvimento, sobretudo dos países africanos e de Timor.
Só enriquecendo os países se pode acabar com a fome. E Portugal pode ajudar, sobretudo Timor e os países africanos, a desenvolverem-se. Assim o queiram os nossos empresários, internacionalizando as suas empresas. Angola já está a dar bons passos nesse sentido. Mas, por exemplo, Moçambique, que há muito entrou em estabilidade política? Onde está a presença dos empresários portugueses? Estão a abrir caminho para a colonização económica e linguistica, por parte da Inglaterra...
Dir-me-ão que isto são tarefas difíceis. Mas para isso é que os senhores são políticos. Talvez fosse de aproveitar a oportunidade de à frente da União Europeia estar um cidadão português...
É tempo de arregaçar as mangas e actuar.
acs

terça-feira, agosto 01, 2006

8. ARMILA PRIMEIRA

NOVA VIDA PARA A C P L P
A propósito da VII Cimeira - I

No passado dia 17 de Julho, teve lugar em Bissau a VII Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
No final dos trabalhos, José Sócrates declarou que Portugal duplicará o número de professores de Português na Guiné-Bissau, bem como a criação duma rede de investigação integrada na Associação das Universidades de Língua Portuguesa. São dois pontos fortes que importa realçar. Resta saber se se concretizam. Também resta saber se duplicar o número de professores de Português na Guiné é suficiente. A dúvida aqui fica...
Das decisões assumidas na Cimeira destacam-se: 1) ACABAR com a fome e REDUZIR a pobreza nos países da CPLP ATÉ 2015; 2) REDOBRAR os esforços para que o acesso à saúde e à educação cheguem a TODOS os cidadãos do espaço lusófono; 3) ADOPTAR POLÍTICAS, pelos países de acolhimento e que integrem os imigrantes nos seus planos de desenvolvimento social e económico; 4) CONTROLAR os fluxos migratórios, COMBATER a imigração ilegal e CRIAR regras de circulação dentro do espaço da C P L P.
Será que alguém acredita nisto? Será que os próprios signatários da Cimeira, pensam alguma vez pôr em prática aquilo que assinaram? Não quero ser ave de mau agoiro, mas a prática política leva-me a ter muitas (todas) dúvidas. Penso que isto mais não é do que uma declaração de boas intenções para os orgãos de informação. Por outro lado, os vários governos, per si, não têm sido capazes (entenda-se competentes) de pôr em prática tais políticas. A organização CPLP, por seu turno, não tem competências nem meios para levar a cabo tais objectivos. Em 2008 a nova Cimeira da CPLP terá lugar em Portugal. Nessa altura cá estaremos para fazer o balanço.
Como já tenho dito em várias ocasiões e em diversos locais, como na 1ª ARMILA DO ASSOBIO (Que é feito da CPLP?) é urgente pôr a CPLP nas mãos de pessoas competentes e dedicadas, mas também é imperioso dotar a Organização de meios e atribuir-lhe competências. Decidiram criar a figura dos Embaixadores da Boa-Vontade. Mas eu interrogo-me: que poderão estes fazer, mais do que declarações bem intencionadas? Ou vão entrar em conflito com a CPLP ou com os seus governos?
(continua...)
acs

quinta-feira, julho 27, 2006

10.ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

O ESTATUÁRIO

Concedo-vos que esse Índio bárbaro e rude seja uma pedra: vede o que faz em uma pedra a arte. Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro e depois feição por feição, até à mais miuda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar. O mesmo será cá, se a vossa indústria não faltar à graça divina. É uma pedra, como dizeis, este índio rude? Pois trabalhai e continuai com ele (que nada se faz sem trabalho e perseverança), aplicai o cinzel um dia e outro dia, dai uma martelada e outra martelada, e vós vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem, senão um cristão, e pode ser que um santo.

Pde. António Vieira - Sermão do Espírito Santo - Pregado em S. Luis do Maranhão, na ocasião em que ía partir para uma grande missão para o Rio Amazonas

quarta-feira, julho 19, 2006

9.ARMILA LITERÁRIA-Selecção de textos de grandes autores

SERVIDÃO E LIBERDADE

É sem dúvida a servidão o mais insuportável dos males e o mais abominável dos flagícios: como nascidos que somos para a liberdade, nossa própria natureza a ela repugna; a existência se nos torna indiferente, e a morte que a termina lhe deve ser preferível. Sentença foi esta de outro grande autor da liberdade, Cícero.
E este sentimento era tão profundamente gravado no coração dos Romanos, que ainda depois de extinta a república se professavam tais princípios: os quais, todavia existiam, e eram, quando menos, veneráveis relíquias do antigo carácter nacional.
Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação prevertida e podre chega a cair neste estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade nem recear para o despotismo... Mas a providência que rege o Universo, e que para a sua eterna ordem equilibrou em todas as partes deles os males com os bens, para que, sendo diversas as suas relações, resultassem o bem geral da divisão e repartição de uns e outros, -a Providência permite que, quando nesse apático estado lentamente agoniza um povo, apareça, para dele o tirar, um agente poderoso que lhe sirva de castigo e de remédio, um tirano cruel e sanguinário, que é para essa enfermidade moral como os estimulantes fortes para a moléstia do físico abatimento.
(...)
Em dois grandes escolhos se perde a liberdade: na tibieza com que se defende, ou na demasia com que dela se goza: evitemos um e outro.

Almeida Garrett - in Portugal na Balança da Europa (1830) - Prólogo

terça-feira, junho 27, 2006

7. ARMILA PRIMEIRA

A REFORMA DO ENSINO

Para que fique claro, confesso que ainda não consegui ter uma ideia clara sobre a actual Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Isto é: a sua actuação fundamenta-se numa ideologia possidónia (como o Primeiro-Ministro, o Ministro da Finanças, ou o colégio de comissários da União Europeia) ou assenta numa visão correcta das necessidades reais do estado a que o ensino chegou? Ainda não entendi, mas o futuro próximo no-lo dirá.

Porém qualquer coisa lucila quando se toca no sistema de avaliação dos professores. Se é certo que vejo com preocupação o encerramento dum número tão elevado de escolas (1500 em 2007) ou a avaliação dos professores por parte dos pais (que no todo nacional, roçam o pouco menos que o analfabetismo) também vejo com alguma esperança, a formação, para melhor, dos novos professores.

Para tal é imperioso que os alunos tenham boa formação desde a Escola Primária até à Universidade. Não podemos mais tolerar que se chegue à Universidade - e dela se saia - sem saber a tabuada e a dar gravíssimos erros de Português. Aliás para qualquer área do saber é indispensável dominar bem a Língua Portuguesa, tal como diz o meu grande Amigo e linguista José Neves Henriques em artigo publicado no Boletim da Sociedade da Língua Portuguesa, onde põe o dedo na ferida, como no caso do professor de Matemática que tem de saber explicar aos alunos o que é um axioma, indo mesmo ao étimo do vocábulo; pois só assim, diz, "a língua penetra na alma do Homem e, fundindo-se com o seu pensar e sentir, leva-o à criação que deslumbra, tal como a água penetrando na semente lançada à terra".

É isto que os responsáveis pelo sistema de ensino, devem ter em conta. É isto que se exige do Ministério da Educação (e que antes deveria ser da Instrução, já que educação é outra coisa).

Para termos bons matemáticos, bons engenheiros, bons médicos, bons biólogos, bons físicos, bons químicos, bons investigadores, etc., é condição primeira conhecer e dominar bem a Língua Portuguesa, tal como se faz nos outros países. Ora, para atingir estes objectivos, temos que, desde o primeiro ano de escolaridade até ao último ano da Universidade, implementar um excelente programa do ensino da Língua Portuguesa. E isto passa, não o esqueçamos, pela leitura obrigatória dos nossos melhores escritores clássicos: Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, António Ferreira, Luis de Camões, João de Barros, Damião de Gois, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Rodrigues Lobo, Padre António Vieira, Luis António Verney, Bocage; ou da Época Contemporânea: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, e muitos outros. São estas as grandes referências que enriquecem o vocabulário dos jovens, lhes dão a perceber como se controem as frases e os leva a entender melhor como se estrutura um texto. Depois, depois da Universidade, é o estudar contínuo, já sem a ajuda do professor...

Para terminar: sei de professores que dão graves erros de Português. Justificam-se dizendo que não são professores de Português, mas sim de Matemática, Geografia, etc....... Sem comentários. Isto assim não pode continuar.

acs

8. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

QUADRAS DUM GRANDE POETA POPULAR

JESUS DISSE QUE SE AMASSEM
AOS QUE CRISTÃOS SE PROCLAMAM;
NÃO DISSE QUE SE MATASSEM,
E ELES MATAM-SE E NÃO SE AMAM
*
SEM QUE O DISCURSO EU PEDISSE,
ELE FALOU; E EU ESCUTEI.
GOSTEI DO QUE ELE NÃO DISSE;
DO QUE DISSE NÃO GOSTEI.
*
TU, QUE TANTO PROMETESTE
ENQUANTO NADA PODIAS,
HOJE QUE PODES - ESQUECESTE
TUDO QUANTO PROMETIAS...
*
OS QUE BONS CONSELHOS DÃO
ÀS VEZES FAZEM-ME RIR,
- POR VER QUE ELES PRÓPRIOS SÃO
INCAPAZES DE OS SEGUIR.
*
DESCREIO DOS QUE ME APONTEM
UMA SOCIEDADE SÃ:
ISTO É HOJE O QUE FOI ONTEM
E O QUE HÁ-DE SER AMANHÃ.

António Aleixo - in Este Livro Que Vos Deixo

sexta-feira, junho 23, 2006

3. ARMILA DO ASSOBIO

DO PLÁSTICO PARA O MILHO

Na sua edição nº 692 de 8 de Junho de 2006, noticia a revista Visão (pag. 109) que a empresa britânica BELU já colocou no mercado uma garrafa de água mineral fabricada à base de milho e que tem a vantagem de se degradar em apenas 12 semanas, "um milhão de anos antes das tradicionais congéneres de plástico", de acordo com o sítio da marca na Internet. A Visão dá-nos ainda conta que em comunicado para a imprensa a empresa britânica anuncia que 100% dos lucros reverte a favor dos países menos desenvolvidos, para que possam dispor de água potável.

O facto deste novo material se degradar em apenas 12 semanas e de ser fabricado à base de milho, tem tantos méritos que, face à evidência, me dispenso de comentar. Era bom que os fabricantes portugueses de objectos de plástico, agarrassem a ideia e apanhassem ainda a máquina do comboio que já está em marcha, para que mais tarde não se venham a queixar. Para além de garrafas poder-se-ão fabricar caixas de todo o tipo, desde as domésticas às embalagens para medicamentos, etc.

Paralelamente ajuda-se a nossa agricultura (que tão carenciada está) estimulando o aumento da produção de milho.

Que os nossos empresários saibam,de imediato, agarrar a novidade. Também não ficava nada mal ao Governo (que muito se afirma amigo do ambiente) legislar já sobre a matéria, dando assim um empurrão aos empresários.
acs

quarta-feira, junho 21, 2006

7. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

A GUERRA

É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades e talvez em algum momento sorve reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema; nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguroo seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a sua cela, e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro.

Pde. António Vieira- in Sermão panegírico pregado em Lisboa em 1668, no aniversário da rainha Maria Francisca Isabel de Saboia

AS NEGOCIAÇÕES DIPLOMÁTICAS

Que de tempos costuma gastar o mundo, não digo no ajustamento de qualquer ponto de uma paz, mas só em registar e compor os cerimoniais dela! Tratados preliminares lhe chamam os políticos, mas quantos degraus se hão-de subir e descer, quantas guardas se hão-de romper e conquistar, antes de chegar às portas da paz, para que se fechem as de Jano? E depois de aceites com tanto exame de cláusulas as plenipotências; depois de assentes com tantos ciúmes de autoridade as juntas; depois de aberto o passo às que chamam conferências, e se haviam de chamar diferenças, que tempos e que eternidades são necessários para compor os intricados e porfiados combates que ali se levantam de novo? Cada proposta é um pleito, cada dúvida uma dilação, cada conveniência uma discórdia, cada razão uma dificuldade: cada interesse um impossível, cada praça uma conquista: cada capítulo e cada cláusula dele uma batalha, e mil batalhas. Em cada palmo de terra encalha a paz, em cada gota de mar se afoga, em cada átomo de ar se suspende e pára. Os avisos e as postas a correr e cruzar os reinos, e a paz muitos anos sem dar um passo.

Pde. António Vieira - in Sermão panegírico pregado em Lisboa em 1668, no aniversário da rainha Maria Francisca Isabel de Saboia

5. ARMILA LINGUÍSTICA - Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

"SHOPPING CENTER" / CENTRO COMERCIAL

Abundam por aí os "Shopping Centers", com a conivência do Governo, da Assembleia da República e das autarquias. Sim, com todas estas cumplicidades, mas sobretudo da Assembleia da República e do Governo (dos sucessivos governos, entenda-se), pois cabe perguntar: onde estiveram os vários ministros da cultura e da educação quando se legislou sobre os Centros Comerciais? E o Primeiro-Ministro (os vários)? E a Comissão de Cultura da Asembleia da República? E a Presidência da República?

Para aqueles a quem não basta defender a nossa identidade
como Povo, lembro que "Shopping Center" quer dizer, apenas, que se trata dum Centro de Compras, enquanto que a expressão em Língua Portuguesa, CENTRO COMERCIAL, é mais PRECISA e mais VERDADEIRA, pois quer dizer que se trata dum local onde se praticam ACTOS DE COMÉRCIO, isto é onde se COMPRA aquilo que alguém VENDE, enquanto que a expressão em inglês só diz parte da verdade (onde se compra). Não será que só se pode comprar aquilo que se vende? Digamos pois CENTRO COMERCIAL e, na medida do possível, pressionemos os políticos (que dizem que nos representam), a tomar uma medida legislativa forte e defensora da nossa Identidade Cultural.
acs

terça-feira, junho 13, 2006

6. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

OS LUSÍADAS

PROPOSIÇÃO
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da morte libertando,
- Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram,
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Canto I, est. 1-3

PORTUGAL
Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-a de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
de Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os íncolas primeiros.
Canto III, est. 20-21
Luis de Camões in Os Lusíadas

segunda-feira, junho 12, 2006

6. ARMILA PRIMEIRA - OS I JOGOS DA LUSOFONIA

OS I JOGOS DA LUSOFONIA


Na sua edição de 15 de Abril de 2006, o Jornal electrónico Super Goa (http://www.supergoa.com/pt) dava-nos conta, a partir duma notícia divulgada pela Agência Lusa, que no próximo mês de Outubro se vão realizar em Macau os I JOGOS DA LUSOFONIA, numa organização da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP). Mas nesta notícia o Super Goa vai mais longe e dá-nos a saber que a ACOLOP aceitou as candidaturas dos Comités Olímpicos da Índia e do Sri Lanka, como seus membros associados, o que permite a participação de atletas Goeses logo na 1ª edição dos Jogos da Lusofonia.

Manuel Silvério, presidente em exercício da ACOLOP e da Comissão Organizadora dos jogos, declarou que "com esta admissão, os JOGOS DA LUSOFONIA alargam a sua dimensão às diversas comunidades que falam português no mundo e assumem-se como congregadores de todas essas comunidades" e acrescenta que a entrada da Índia e do Sri Lanka faz com que a ACOLOP "entre numa nova era e numa nova fase de desenvolvimento que dá possibilidades à associação de crescer não só ao nível das nações, como também das comunidades falantes da Língua Portuguesa".

Curioso é saber qual foi o orgão de informação português que divulgou esta notícia. Se algum a deu, foi tão discretamente que ninguém se apercebeu... Pode ser que algum jornal, rádio ou televisão retome a notícia da Lusa e lhe dê, em primeira mão, a importância que efectivamente tem.

Cabe aqui reconhecer que as pessoas do Olimpismo lusófono, vão muito à frente dos políticos que continuam a fazer da CPLP uma organização adormecida... Pessoas como Susana de Sousa (directora dos Assuntos Desportivos e da Juventude do Governo de Goa) e Vicente de Moura (presidente do Comité Olímpico Português e director da ACOLOP) têm-se destacado, não só nesta acção, mas sobretudo numa cooperação contínua entre Portugal e Goa. Coisa que, por cá, nós desconhecemos. Foi graças ao Super Goa, que eu tive conhecimento deste trabalho de mãos dadas.

Apetece-me lançar um desafio aos políticos: Estamos em vésperas de mais um aniversário da CPLP. Não seria uma boa oportunidade para se desenvolverem esforços no sentido de a China e a Índia passarem a ser membros de pleno direito da CPLP? Não nos esqueçamos que tanto a China como a Índia são países em que Língua Portuguesa é uma das suas línguas oficiais... Admiti-los na CPLP, para além de muitas outras vantagens, teria o condão de estimular e aumentar o ensino, naqueles países, da Língua Portuguesa.

acs

terça-feira, junho 06, 2006

5. ARMILA LITERÁRIA- Selecção de textos de grandes autores

ÁRVORES DO ALENTEJO


Horas mortas... Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido...e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam, desgrenhadas,
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram,
Em vão, remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca in Charneca em Flor

4. ARMILA LINGUÍSTICA- Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

O Corão / O ALCORÃO

Nos tempos que correm, e pelas piores razões, o ALCORÃO é bastas vezes citado nos noticiários de todo o mundo. Apesar dos muitos esforços de alguns, o certo é que em Portugal os nossos jornalistas, comentadores, políticos, etc., com acesso aos vários orgãos de informação, continuam teimosamente a dizer e escrever o Corão. Digo teimosamente porque após tantas chamadas de atenção já tiveram mais do que tempo para dobrar a língua... Ou será que é mais uma subserviência às línguas estrangeiras, sobretudo ao império da língua inglesa?...

ALCORÃO quer dizer A Leitura (al-qurân). Em Português ficou o termo ALCORÃO por não se tratar duma qualquer leitura, mas de A Leitura, que para os Muçulmanos é o Livro Sagrado do Islamismo. O mesmo, aliás, se passou com a BÍBLIA (vocábulo grego) e não Livros e EVANGELHO (também vocábulo grego) e não Boa Nova.

Mas quedemo-nos pela palavra ALCORÃO. Certos pseudo-puristas defendem que se deve dider o Corão, porque dizer ALCORÃO seria utilizar duas vezes o artigo definido árabe (al), sendo o mesmo que dizer O O CORÃO. É evidente que em ALCORÃO está o artigo definido árabe. Mas ele é indispensável para definir de que tipo de leitura se trata: A Leitura e não uma qualquer leitura. Aliás foi como o vocábulo entrou no nosso léxico, tal como muitas outras palavras. Note-se que a nossa língua, sendo basicamente de greco-latina, é-o também de origem árabe, como aliás muita da nossa Cultura (e ainda bem, pois os Árabes foram sempre uns grandes matemáticos, e não só...). Esses tais pseudo-puristas se querem dizer o Corão, devem, então dizer também, por exemplo (pois há muitos mais): o garbe (ALGARVE), a mofada (ALMOFADA), a cântara (ALCÂNTARA), o guidar (ALGUIDAR), o mofariz (ALMOFARIZ), o zeite (AZEITE), o finete (ALFINETE), etc.

A título de curiosidade registe-se que apesar de em francês se dizer Le Coran, ou Le Koran, o certo é que a língua francesa regista também a forma Alcoran (Gran Larousse Encyclopédique-3º vol.) e na língua inglesa também encontramos os vocábulos Alcoran e Koran (The Standford Dictionary of Anglicised Words and Phrases).

Na Língua Portuguesa, porém, só ALCORÃO é a palavra correcta, pois o artigo definido árabe (al) entrou na nossa língua já aglutinado à palavra árabe (qurân). Digamos pois sempre ALCORÃO. Já repararam no ridículo que muitas vezes acontece nas nossas televisões, quando convidam para uma entrevista o Presidente da Comunidade Inslâmica Portuguesa? A triste figura que fazem os jornalistas quando interrogam o entrevistado sobre o Corão e recebem como resposta o ALCORÃO, vocábulo pronunciado (sempre) com uma notável elegância rectificativa!...

acs

terça-feira, maio 30, 2006

5. ARMILA PRIMEIRA

AO TELEFONE COM EÇA DE QUEIROZ
O texto de Eça de Queiroz que, na semana passada, divulguei levantou alguma celeuma contra mim e contra o meu amigo Eça. Isto porque Eça de Queiroz teve o desplante de escrever que devemos falar "orgulhosamente mal" e "patrioticamente mal" as línguas estrangeiras. Ao transcrever parte da carta de Fradique Mendes a Madame S., é obvio que lhe dei a minha concordância. A este propósito, no outro dia, estive ao telefone com o Assento Etéreo e falei com o meu amigo Eça. Porque (com a concordância dele) gravei a chamada telefónica, transcrevo aqui, na parte que interessa, a nossa conversa:
...

- Já agora fica sabendo que fiquei contente por teres divulgado no teu blogue parte da carta do Fradique à Madame S.
- Trata-se dum texto notável, mas nota que vários amigos meus se manifestaram contra, pois consideram que devemos falar sem erros as línguas estrangeiras.
- Mas eu não disse nada disso!...
- Obviamente que não. Mas uns nunca leram "A Correspondência de Fradique Mendes", outros já o leram há muito tempo e já não se recordam com precisão do texto integral. Claro que...
- Devias ter transcrito a carta toda para que eles percebessem, pois,...
- Não posso. Não posso e não quero.
- Como assim?!...
- São textos muito grandes, que acabavam por ocupar todo o espaço, e muitas vezes não caberiam; por outro lado e SOBRETUDO, o objectivo da Armila Literária é incentivar os leitores do Armilar, a lerem ou relerem as obras dos nossos melhores escritores...
- Percebo e concordo contigo; mas eu insurgia-me era contra aqueles que não sendo falantes de outras línguas, procuram imitar, saloiamente, os naturais , como por exemplo o aspirar os Hs em inglês, tão afectadamente como os ingleses ou dizer "PARRRRIS", como os franceses.
- É, aliás, o que tu dizes logo no início da carta quando escreves "se seu filho já sabe o castelhano necessário para entender os "Romanceros", o "D. Quixote", alguns Picarescos, vinte páginas de Quevedo, duas comédias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta ler na literatura de Espanha,-para que deseja a minha sensata amiga que ele pronuncie esse castelhano que sabe com o acento, o sabor e o sal de um madrileno nascido nas veras pedras da Calle Mayor?"
- E é isso. Tão-só. Mas falar sempre como se a língua estrangeira fosse por nós domada, e assim a pronunciar, à nossa maneira. Sem erros, mas também sem afectação pirosa e bacoca. Olha! Os políticos que agora, aí em baixo, governam o nosso País deviam aprender a falar as línguas estrangeiras sem erros, já que...
- Falar sem erros, mas nas reuniões de gabinete, porque quando falam em público devem falar sempre na nossa língua, como aliás fazem os governantes dos outros países. Não é?
- Claro. Claro como água. Por uma questão de dignidade e de afirmação da nossa identidade cultural.
acs

3. ARMILA LINGUÍSTICA -Correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

DUZENTAS GRAMAS / DUZENTOS GRAMAS

Anda por aí um erro muito generalizado, talvez por a palavra terminar em A. Quando alguém vai à loja e quer, por exemplo, fiambre, é vulgaríssimo ouvirmos: Dê-me DUZENTAS GRAMAS de fiambre e do outro lado do balcão retorquirem: tem DUZENTAS E VINTE GRAMAS, pode ser?
Grama neste sentido é uma medida de peso, uma unidade de massa do sistema CGS, correspondente à milésima parte da massa do quilograma-padrão. Uma vez que um quilo equivale a mil gramas, se grama fosse feminino, então deveríamos dizer UMA QUILO.
Acontece que no nosso léxico, também temos a palavra GRAMA com outro significado. São portanto palavras homónimas. Aqui a palavra é feminina e refere-se a uma erva rasteira, rizomatosa, que é prejudicial às culturas.
Assim temos que como medida de peso, GRAMA é uma palavra masculina (um grama, dois gramas, etc.) e como erva é uma palavra feminina (A GRAMA).

quarta-feira, maio 24, 2006

4. ARMILA LITERÁRIA - Selecção de texos de grandes autores

FALAR PORTUGUÊS - FALAR ESTRANGEIRO

"... Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo que é estrangeiro. Na língua, verdadeiramente, reside a nacionalidade; - e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as influências afectivas que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluido em estrangeirismo.
(...)
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos - isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o verbo - apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito - porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra adaptada às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles "corpos de pobre" de que tão tristemente fala o povo - "que cabem bem na roupa de toda a gente".
Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o vocábulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros, o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável - ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas e tenta uma instalação de vida em todas, porque não é tolerado por nenhuma.
(...)
Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos - que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons na Natureza bruta, pouco diferençáveis do coaxar das rãs, ou um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscovo, desejava ovos - esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! có-có-ri-qui! có-ró-có-có! Nunca, em cidade ou região inteligente do universo, minha tia deixou de comer os seus ovos - e superiormente frescos."
EÇA DE QUEIROZ - (Carta a Madame S.) in A Correspondência de Fradique Mendes

2. ARMILA DO ASSOBIO

"ALGARVE SUMMER FESTIVAL"


Publicita-se por aí o "Algarve Summer Festival" de 2006. Nem de propósito. O texto que acabo de escolher para a Armila Literária, da autoria de Eça de Queiroz, aplica-se aqui que nem uma luva aos promotores deste Festival de Verão do Algarve: "apaga-se toda a individualidade nativa"; "o seu patriotismo desaparece, diluido em estrangeirismo"; "há neles o desejo servil de não sermos nós mesmos, (...) isto é uma abdicação da dignidade nacional".
Bom seria que, como a simpática tia de Fradique Mendes, os promotores deste festival "se agachassem gravemente sobre o tapete" maravilhoso do Algarve e em bom Português gritassem có-ró-có-có!
Para não irmos mais longe, basta ver que é assim que fazem os nossos vizinhos espanhois. E como eles comem "ovos superiormente frescos"!...
acs

quarta-feira, maio 17, 2006

3.ARMILA PRIMEIRA - A ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, OS DEPUTADOS E A LÍNGUA PORTUGUESA

Nos tempos que correm a lígua inglesa impõe-se como um império universal, adulterando profundamente todas as outras línguas do planeta Terra. O Português, o Francês, o Galego, o Castelhano, o Italiano, etc. têm sido alvo fácil.
Sou dos que defendem que os dias comemorativos: da Floresta, do Ambiente, da Solidariedade, da luta contra qualquer doença, etc. têm razão de ser porque, ao menos nessas datas o tema é abordado e chamada a atenção dos cidadãos. E tantas vezes o cântaro vai à fonte que algum dia lá deixará a asa...
Diz o Professor Eduardo Lourenço que a língua "não é um instrumento neutro, um factor contigente da comunicação entre os homens, mas a expressão da sua diferença. Mais do que um património, a língua é uma realidade onde o sentimento e a consciência nacional se fazem pátria ".
Nestes tempos de integração na União Europeia, não tenhamos medo da palavra PÁTRIA, pois há uma diferença abismal entre PATRIOTISMO e PATRIOTEIRISMO. Seja qual for a evolução da União Europeia, certo é que nenhum povo da Europa abdicará da sua identidade cultural muito menos da sua língua. Cabe aqui recordar a sábia recomendação que em 1989 o Professor José Augusto Seabra fazia no Colóquio Internacional "Língua Portuguesa - Que Futuro?". Dizia: "Num contexto em que a afirmação das identidades e das alteridades culturais se acentua, como resistência à hegemonia do inglês, que as línguas latinas esboçam, é importante que sejamos capazes de promover persistentemente o uso do Português nas nossas relações internacionais, quer bilaterais quer multilaterais a todos os níveis, desde as relações culturais e cientificas às relações económias, sociais e mais propriamente políticas".
Ora temos assistido ao insólito de nos areópagos internacionais os nossos políticos, por mera pedantice, falam sempre em língua estranha. Espanhois, franceses, italianos, palestinianos, israelitas, polacos, russos, etc. falam sempre nas suas línguas... Honram-se da sua identidade cultural.
A propósito de Honra, cabe aqui recordar um compromisso assumido pelos deputados na Assembleia da República. Lê-se na página nº 3145 do Diário da Assembleia da República de 12 de Junho de 1981: " Por sugestão da Sociedade da Língua Portuguesa foi recomendada a esta Assembleia, por representantes de todos os partidos, que se façam esforços no sentido de ser institucionalizado o Dia Internacional da Língua Portuguesa. Essa recomendação será, esperamos bem, ainda discutida e aprovada antes do fecho da presente sessão legislativa".
Pesem embora a unanimidade dos Grupos Parlamentares e as diligências que a nível pessoal desenvolvi junto da A.R., o certo é que até hoje os senhores deputados ainda não tiveram tempo para tomar uma decisão sobre a matéria... Depois, quando em vésperas da Páscoa, faltam às suas obrigações de deputados e a Opinião Pública lhes aponta o dedo acusador, sentem-se muito ofendidos...
De 12/06/1981 até agora já passaram várias sessões legislativas e já tivemos várias eleições. Sei que, pelo menos em Maio de 2003 o assunto foi enviado para a Comissão Permanente de Educação, Ciência e Cultura (por carta que me foi dirigida pela Assembleia da Rebública) mas até agora ainda não houve quem fosse capaz de promover o seu agendamento, discução e votação. Numa palavra acabar com as burocracias...
acs

3.ARMILA LITERÁRIA - Selecção de textos de grandes autores

A ACUMULAÇÃO DE EMPREGOS

"Quis? Quem sou eu? Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro, ou seja Arão secular, ou seja Arão eclesiástico. Eu sou um Desembargador da Casa da Suplicação, dos Agravos, do Paço. Sou um Procurador da Coroa. Sou um Chanceler-Mor. Sou um Regedor da Justiça. Sou um Conselheiro de Estado, da Guerra, do Ultramar, dos três estados. Sou um Vedor da Fazenda. Sou um Presidente da Câmara, do Paço, da Mesa da consciência. Sou um Secretário de Estado, das Mercês, do Expediente. Sou um Inquisidor. Sou um Deputado. Sou um Bispo. Sou um Governador do Bispado, etc. Bem está, já temos o ofício: mas o meu escrúpulo, ou a minha admiração, não está no ofício, senão no um. Tendes um só desses ofícios ou tendes muitos?
Há sujeitos na nossa Corte que têm lugar em três e quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios. Este ministro universal, não pergunto como vive, nem quando vive. Não pergunto como acode às suas obrigações, nem quando acode a elas. Só pergunto como se confessa? Quando Deus deu forma ao governo do mundo, pôs no céu aqueles dois grandes planetas, o Sol e a Lua, e deu a cada um deles uma presidência: ao Sol a presidência do dia: Luminare majus, ut proeesset diei; (Gen I-46) e à Lua a presidência da noite: Luminare minus, ut proeesset nocti. E porque fez Deus esta repartição? Por ventura porque se não queixasse a Lua e as estrelas? Não, porque com o Sol ninguém tinha competência, nem podia ter justa queixa. Pois se o Sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu; porque não proveu Deus nele ambas as presidências? Porque lhe não deu ambos os ofícios? Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios, ainda que seja mesmo o Sol. O mesmo Sol quando alumia um hemisfério, deixa o outro às escuras. E que haja de haver homem com dez hemisférios! E que cuide, ou se cuide, que em todos pode alumiar! Não vos admiro a capacidade do talento, a da consciência sim."
Pde. António Vieira - Do Sermão da Quaresma pregado na Capela Real em 1655, em que António Vieira, analisa moralmente a incompatibilidade da ocupação de certos cargos pelos políticos

terça-feira, maio 09, 2006

2. ARMILA PRIMEIRA Evocação de Fernando Lopes-Graça no primeiro centenário do seu nascimento

Fernando Lopes-Graça é uma das figuras mais marcantes da música europeia do Séc. XX.
Nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906. Celebra-se pois, durante este ano o primeiro centenário do seu nascimento. Não cabe neste espaço evocar exaustivamente a sua figura e a sua obra. Pretendo tão-só, registar o acontecimento e divulgá-lo ás novas gerações neste tempo de grandes, maldosos e, por vezes, criminosos esquecimentos.

Cabe aqui lembrar o Compositor, o Maestro, o Pedagogo, o Cidadão de Tomar, o Cidadão do Mundo, o Fundador do Jornal “A Acção” (Tomar- 1928), do Jornal de Música (Lisboa- 1928), para além do Político empenhado, do Homem Bom e do Homem Solidário. Nos melhores conservatórios e outras escolas de música de todo o mundo a sua obra é estudada e bastas vezes interpretada. Em Portugal, quase que caiu no esquecimento e as novas gerações mal o conhecem. Tivesse Lopes-Graça sido espanhol ou de qualquer outra nacionalidade e logo teríamos grandes comemorações a nível mundial, como foi o caso de Mozart a propósito dos 250 anos do seu nascimento.

Em boa hora a Câmara Municipal de Tomar decidiu que 2006 seria no concelho o Ano Lopes-Graça, pelo que ao longo deste ano leva à prática toda uma programação sobre a sua figura de cidadão e sobre a sua obra. Gostei de ler no boletim da Câmara as palavras do seu Presidente (António Paiva) quando escreve “...a Câmara Municipal de Tomar considera que este ano deverá ser, muito mais que um tributo, uma oportunidade de dar a conhecer aos seus conterrâneos a vida e a obra exemplares deste homem. Desde as crianças aos adultos as comemorações foram pensadas de forma especialmente pedagógica, com edições diversas e em diversos suportes”.

Obviamente que a Câmara Municipal de Tomar mais não faz do que cumprir a sua obrigação. Mas nos tempos que correm, em que os valores morais e éticos andam tão arredados da política é de sublinhar com alegria e esperança num mundo melhor.

Mas Fernando Lopes-Graça, foi um homem que ultrapassando as fronteiras nabantinas, ascendeu a uma dimensão nacional e internacional pelo que cabe perguntar: onde está o Ministério da Cultura? Qual é a programação evocativa do Teatro Nacional de S. Carlos, da Casa da Música, do Centro Cultural de Belém ou da Fundação Gulbenkian?

E a RTP e a RDP?

A Antena 2 da RDP tem vindo a divulgar a obra de Lopes-Graça. Mas ainda que vasto, o seu auditório não deixa de ser limitado a um escol de ouvintes. É imperioso que a Antena 1 e a RDP Internacional o divulguem. Quanto à RTP ainda não se deu por nada. De outros grandes músicos estrangeiros, a RTP tem transmitido pequenos seriados elaborados por televisões estrangeiras. Não seria da RTP fazer o mesmo e vender a sua produção a outras televisões? Ao menos que nos brinde, acompanhando a Agenda Cultural da Câmara Municipal de Tomar...

Fernando Lopes-Graça merece, no mínimo, umas comemorações de dimensão nacional.
Já agora uma sugestão-desafio: não seria possível conjugar esforços entre a Câmara de Tomar, a Fundação Gulbenkian (orquestra e coros), a RTP, a RDP e o Ministério da Cultura, por forma a editar em CD a obra completa (coral e orquestral) de Lopes-Graça a um preço simbólico?

2.ARMILA LINGUÍSTICA correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

ENTRETENIMENTO/ ENTRETÉM – ENTRETIMENTO

Também na imprensa, mas sobretudo na rádio e na televisão, jornalistas, apresentadores e todo o bicho-careto que é entrevistado não param de nos bombardear com a palavra ENTRETENIMENTO.

Pior do que isso, é incharem-se dizendo que com bons programas de ENTRETENIMENTO, estão a fazer um bom serviço público de rádio ou televisão, quando afinal estão a prestar um péssimo serviço à nossa cultura e ao que de mais valioso existe na nossa identidade cultural: a Língua Portuguesa. E isso não é serviço público.

ENTRETENIMENTO (que palavrão tão difícil de pronunciar!) é um aportuguesamento abusivo do Castelhano ENTRETENEMIENTO. Mas notemos que para existir esta palavra no nosso léxico teríamos seguramente o verbo ENTRETENER. Ora este verbo não existe.

Então como dizer em português? Muito simples: ENTRETÉM ou ENTRETIMENTO. Como se vê, a nossa língua é muito rica e não traiçoeira como alguém popularizou.

2. ARMILA LITERÁRIA Selecção de textos de grandes autores

CEGUEIRA UNIVERSAL

“... Príncipes, reis, imperadores, monarcas de todo o mundo: vedes a ruína dos vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as formas, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da fé, vedes o descaimento da religião, vedes o desprezo das leis divinas, vedes a irreverência dos lugares sagrados, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da república, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre as vossas consciências, vedes as desatenções do Governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes e as vexações do pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e os gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Pais de famílias, que tendes casa, mulher, filhos, criados: vedes o desconserto e descaminho de vossas famílias, vedes a vaidade da mulher, vedes o pouco recolhimento das filhas, vedes a liberdade e más companhias de vossos filhos, vedes a soltura e descomedimento dos criados, vedes como vivem, vedes o que fazem, e o que se atrevem a fazer, fiados muitas vezes na vossa dissimulação, no vosso consentimento, e na sombra do vosso poder? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Padre António Vieira in “Do Sermão da Quaresma", pregado na Misericórdia de Lisboa, em 1669.

terça-feira, maio 02, 2006

1. ARMILA PRIMEIRA

Aqui está. Hoje, 1 de Maio de 2006 surge mais um blogue. Este. ARMILAR é o seu nome.

Porquê ARMILAR? Porque aqui se tratarão vários temas (sobretudo da área cultural) numa visão universalista, embora se dê predominância à Cultura Portuguesa, como contributo para a tirar dum certo marasmo em que se encontra.

Neste espaço daremos particular atenção à defesa da Língua Portuguesa, quer com a divulgação de textos de grandes autores, quer corrigindo alguns dos erros vulgarmente mais cometidos no linguajar do quotidiano. Outros temas da área cultural também terão aqui o seu espaço, como a música e, quiçá, algumas áreas da Ciência, à imagem da celebérrima Biblioteca Cosmos, do grande Bento de Jesus Caraça. Assim seja possível arranjar colaboradores.

Os leitores terão também oportunidade de dar o seu contributo com comentários e sugestões.

Se nos ler regularmente e divulgar o nosso endereço electrónico aos seus amigos, já nos sentiremos recompensados.

acs

1. ARMILA DO ASSOBIO

QUE É FEITO DA C P L P ?

O valor maior da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é a sua MATRIZ CULTURAL, já que a raiz e o tronco desta Comunidade é a Língua Portuguesa.

José Aparecido de Oliveira, notável figura do pensamento brasileiro e considerado o "pai" da CPLP, afirmou que "a Comunidade sempre existiu, faltava apenas dar-lhe forma". O certo é que se deu forma jurídica aos sentimentos dos povos lusófonos, mas a CPLP ainda não saiu da cepa-torta, estando adormecida à sombra duma qualquer bananeira, por incapacidade dos políticos.

Desde a sua fundação em 17 de Julho de 1996, que o lugar de Secretário-Executivo tem vindo a ser ocupado rotativamente por várias personalidades. Mas feito o balanço verificamos que ainda nenhum entendeu o poeta e cantor brasileiro Caetano Veloso, quando escreve: "Gosto de sentir a minha língua roçar/A Língua de Camões". Acções e resultados: ZERO.

Como tenho referido noutros lugares, organizações que assentam em bases económicas e/ou políticas, poderão ter os seus dias contados, como é o caso, por exemplo, da OTAN ou da União Europeia. Ao invés, instituições como a CPLP, que se firmam em raízes culturais e por vontade popular, poderão passar por muitas vicissitudes mas só acabarão quando e se os povos deixarem de existir.

É pois urgente, imperiosamente urgente, pôr a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, nas mãos de pessoas competentes e empenhadas, que lhe emprestem dinamismo e acção.

No próximo dia 17 de Julho é possível que os políticos da CPLP se reúnam à volta duns talheres e frente às câmaras de televisão se transformem em paladinos defensores da Língua Portuguesa. A caravana passará...

acs

1. ARMILA LINGUÍSTICA correcção de alguns erros do linguajar quotidiano

RENTÁVEL/RENTABILIDADE RENDÍVEL/RENDIBILIDADE

Economistas, políticos, jornalistas, comentaristas, etc., usam frequentemente as palavras RENTÁVEL e RENTABILIDADE, o que para além de grave disparate, não passa duma péssima tradução do francês. Vejamos: para termos RENTÁVEL e RENTABILIDADE, teríamos que utilizar o verbo RENTAR, que tem um significado radicalmente diferente. RENTAR quer dizer, PASSAR RENTE. Quando queremos dizer que alguma coisa RENDE, isto é que produz lucros, ou que dá como produto os lucros, isto é que dá uma RENDA, o que significa a "soma de todos os bens económicos ou valores monetários que os indivíduos os as instituições acrescentam à sua riqueza anterior", devemos dizer RENDÍVEL e RENDIBILIDADE. Assim temos como correcto: RENDÍVEL e RENDIBILIDADE.

acs

1. ARMILA LITERÁRIA selecção de textos de grandes autores

A LÍNGUA PORTUGUESA

"E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar, é engraçada com um modo senhoril; para cantar é suave, com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com a gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas, nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias, nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade; e, se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta, quanto a nossa. E, para que lhe diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte."

in Corte Na Aldeia (1619) de Francisco Rodrigues Lobo
acs