quarta-feira, novembro 12, 2008

ARMILA LITERÁRIA-24

O ILUMINISMO PORTUGUÊS

O ESTILO SIMPLES


Ao Estilo Sublime, contrapomos o Estilo Simples ou humildade. Assim como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é humilde deve-se dizer com estilo mui simples
e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua. Esta é, segundo os Mestres da Arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência na língua para o executar. Além disso, as Figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar e descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente todos os pensamentos do escritor. Por isso se diz que o estilo é o lapis Lydius (1) do Juízo.
Isto que digo das expressões comuns e naturais deve-se entender com proporção. Não quero dizer que um homem civil fale como a plebe, mas que fale naturalmente. A matéria do estilo humilde não pede elevação de figuras etc., mas nem por isso se deve exprimir com aquelas toscas palavras de que usa o povo ignorante. Não é o mesmo estilo baixo que estilo simples. O estilo baixo são modos de falar dos ignorantes e pouco cultos; o estilo simples é o modo de falar natural e sem ornamentos, mas com palavras próprias e puras. Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento e o orne com figuras próprias, ainda que o pensamento nada tenha de sublime. Pelo contrário, chamamos simplesmente sublime (com os Retóricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento que agrada e eleva o leitor, ainda que seja proferida com as mais simples palavras. De sorte que o sublime pode achar-se em um só pensamento ou figura, etc. Importa muito entender e distinguir isto, para não ser enfadonho nas conversações e nas obras que pedem estilo humilde.
(1)Pedra de Toque

Luis António Verney(1713-1792) in Verdadeiro Método de Estudar / Carta Sexta

domingo, novembro 09, 2008

ARMILA LITERÁRIA - 23

VOZES DE ANIMAIS

Palram pega e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.
Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão;
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.
Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala;
Zurrar é próprio dos burros.
Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.
Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.
O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar:
Como os ratos e as doninhas,
Apenas sabe chiar.
O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.
Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libendo o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.
Bramem os tigres, as onças,
Pia,pia, o pintainho;
Cucurita e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.
A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos;
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.
A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontram em pobre rima
As vozes dos principais.

Pedro Dinis - Retirado do Livro de Leitura da 3ª Classe (Anos 50 do SEC. XX)

quinta-feira, outubro 23, 2008

22.ARMILA LIERÁRIA

A ARTE JAPONESA



Falemos agora especialmente da pintura, para que temos já adquirido, nestes devaneios humorísticos de palestra, elementos valiosos de análise.
Uma pintura japonesa é sempre uma inovação. Adivinha-se o trabalho do pincel, não se esforçando em reproduzir a natureza, não em ser criador, mas em traduzir a impressão persistente que nos fica do espectáculo da mesma natureza. Eu me explico melhor exemplificando: o pincel nipónico não concebe a veleidade de criar uma rosa, o que só pode, bem pensado, fazer o Pai do céu; prescinde do modelo, fá-la de cor; quando a traça, não se preocupa em ir enganar as abelhas, que venham esvoaçar sobre o papel em busca de mel para o seu cortiço; preocupa-se apenas da flor; no que dela persiste mais intenso na reminiscência, pelos seus atributos dominantes; é como se se dissesse que aquele pincel inteligente não pinta, pensa e recorda.
Um tal carácter de orientação é que explica, a meu ver, todos os segredos, todos os processos da pintura, e em geral da arte nipónica. O princípio, em si, parece sujeitar-se fielmente ao jogo psicológico das faculdades humanas. Quando vós, rapazes, invocais em amorosos devaneios os rostos adorados das namoradas ou das amantes, esses rostos surgem no fundo vago das abstracções, sem cenário portanto, sem que se protejam por exemplo sobre a ramagem de acaso que veste as paredes das vossas alcovas. Pela mente do ambicioso perpassam cintilações de oiros, acastelamentos de libras, sem que procure nem de leve fixar-se nas feições do serviçal, que lhes batesse à porta jungido com o tesouro. O espírito, a memória fazem a sua escolha, inconscientemente embora, e diluem na penumbra do olvido as qualidades secundárias.
Dá-se o mesmo rigorosamente com o pincel japonês: o desenho, a pintura vêm despidos de supérfluos; são para sentir-se e não para ver-se. Compreende-se aonde isto pode levar, e leva, a originalidade do traço; compreende-se como essa pintura seja estranha, disparatada mesmo, para um desprevenido ou para um irreflectido, e sugestiva para quem a assimile.

VENCESLAU DE MORAIS, in Dai-Nippon ( O GRANDE JAPÃO)

sexta-feira, outubro 17, 2008

15.ARMILA D'A ACÇÃO

ADALBERTO ALVES


O notável arabista português, advogado e escritor, ADALBERTO ALVES, foi distinguido pela UNESCO com o Prémio Sharjah para a Cultura Árabe, no valor de 30 000 dólares. O anúncio foi feito no passado dia 7 de Outubro em Paris, pelo Director-Geral da UNESCO, Koïchiro Matsuura. Adalberto Alves é membro da Sociedade de Língua Portuguesa e director do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves e tem desenvolvido uma actividade notável, relativamente aos estudos árabes e a sua influência na Cultura Portuguesa, tanto no domínio da investigação, como na tradução, na poesia e no romance. O prémio é-lhe muito justamente atribuído, pelo seu contributo para a divulgação da História e da Cultura árabes durante o período do Gharb al-Andaluz. O Prémio Sharjah ser-lhe-á entregue no próximo dia 17 de Novembro.
Se é verdade que Adalberto Alves está de parabéns, também, todos nós, portugueses o estamos, pois trata-se dum prémio de dimensão mundial, atribuído a um português.
Para Adalberto Alves o nosso obrigado e um abraço.
acs

quarta-feira, outubro 15, 2008

15.ARMILA PRIMEIRA

28, de Agosto de 2008


LUCIANA STEGAGNO PICCHIO
(1920-2008)


Era membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras. Foi distinguida em Portugal com o Grande Colar da Ordem de Sant'iago da Espada. Portugal soube reconhecer-lhe o mérito. Em 2001 o Instituto Camões também a homenageou, tendo, então, publicado o livro A Língua Outra, uma fotobiografia de Luciana Picchio organizada por Alessandra Mauro.
Luciana Stegagno Picchio, teve uma vida mais portuguesa que italiana. Em entrevista ao jornal cultural português JL de 13-3-1990, declarava: "Portugal é o meu trabalho, o meu quotidiano, terra de escolha e língua de todos os dias. Faz parte da minha acção no mundo. Muita coisa até aprendi em português. Não acredito, absolutamente nada, na tradução: dizer «mesa» e dizer «távola» são duas coisas completamente distintas. (...) Mas é interessante porque há coisas que aprendi em português e só penso nelas em português. O uso hipocorístico, os diminutivos não existem tão profusamente no italiano. (...) Acabo tendo uma secção do meu imaginário ou mesmo do meu lembrário, só em português. Um dia em Cape Code, li numa tabuleta «linguiça» e todo o meu portuguesismo aflora num afecto enorme."
Com a sua morte, no passado dia 28 de Agosto (aos 88 anos) o mundo perdeu uma das mais notáveis lusitanistas de sempre, que ao longo da sua vida marcou várias gerações. Legou-nos uma obra com cerca de 500 títulos, dedicada aos estudos da Língua Portuguesa e das literaturas portuguesa e brasileira. Com os seus discípulos António Tabucchi, Maria José Lancastre e Fernanda Toriello, funda uma revista moderna e de referência: Quaderni Portoghesi, instrumento científico único para quem se quiser iniciar nos estudos portugueses, ou aprofundá-los.
Ainda que pouco tenha convivido com Luciana Stegagno Picchio, tive a felicidade de a conhecer e com ela conversar por ocasião de uma das suas visitas a Portugal. Era uma senhora encantadora, que cativava pelo seu olhar, pelo seu sorriso e por aquelas mãos que falavam como gente.
Portugal e o Brasil fizeram-se representar nas exéquias fúnebres pelos seus embaixadores junto do Estado Italiano e da Santa Sé. Na homilia, Monsenhor Agostinho da Costa Borges , reitor do Instituto Português de Santo António, em Roma, homenageou Luciana Picchio, com eloquência, grandeza e dignidade. No Passado dia 4 de Outubro foi a vez da Universidade lhe prestar a última homenagem na Capela da Università degli Studi di Roma, La Sapienza.
Luciana Stegagno Picchio legou ao Instituto Português de Santo António, em Roma, o fabuloso acerdo da sua Biblioteca, bem como o seu riquíssimo arquivo.
Em Itália, Portugal continua ainda a contar com bons amigos da sua Língua e da sua Cultura, como António Tabucchi, Giuseppe Carlo Rossi e Fernanda Toriello, entre outros.
Luciana, Portugal (que também é teu) agradece-te tudo o que fizeste por ele.
acs

terça-feira, agosto 05, 2008

14 . ARMILA PRIMEIRA

A DECADÊNCIA DO RISO


" Foi o grande mestre Rabelais que disse: Ride! Ride! Porque o riso é próprio do Homem! Mas como poderia pensar de outro modo o tão profundamente humano abade de Meudon? Quando ele lançava este salutar ditame, o mundo todo, em torno, era alegre e ria! (...) De que provém esta desoladora decadência do riso? Haveria um estudo a compor sobre a "Psicologia da Macambuzice Contemporânea". Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso..."
Este excelente naco de prosa, já com mais de cento e dez anos, faz parte das Notas Contemporâneas de Eça de Queiroz. Faço questão de a trazer hoje aqui, por um lado, para nos deliciarmos com a maravilha da prosa deste que foi um dos maiores escritores que o mundo já conheceu; por outro, para reflectirmos sobre a decadência do riso, que hoje está instalada na nossa sociedade e que já afligia o nosso grande Eça.
Esta coisa da alegria, da ventura, do júbilo ou do regozijo, que tantas vezes se manifesta pelo riso, tem-se vindo a perder ao longo dos tempos. E Eça de Queiroz é capaz de ter razão, quando diz que isso é fruto da civilização que o Homem tem vindo a construir. Se não, notemos que cada vez são menos comuns, no nosso linguajar, expressões populares como: chorar de riso, risão, dar riso, fazer riso de, risada, meter riso a, morrer de riso, rir a bandeiras despregadas, perder-se de riso, riso alvar, riso amarelo, riso cristalino, riso de paz, sorriso, riso franco, riso homérico, sufocar de riso, ter boca de riso, risota e risoteiro, entre muitas outras em que o povo português é fértil.
Amigo e companheiro de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, a propósito da eloquência parlamentar portuguesa, escrevia n'As Farpas, esta delícia: "Os homens medíocres, os espíritos estreitos que em todas as reuniões formam maiorias e dão às assembleias o seu carácter predominante, à força de se imitarem, de se desgastarem em velhas questões, sempre as mesmas, sem princípios, sem ideias, sem estudo, sem interesse na verdade, sem sacrifício, sem elevação acabaram por fazer da eloquência parlamentar portuguesa uma atafona de palavrões estafados, de fórmulas ocas, de velhas imagens pegajosas e safadas, como as cartas dum baralho imundo pelas dedadas sórdidas de vinte anos de bisca. Esta retórica trôpega, relaxada e senil, não podendo criar uma língua forte e digna, deu o ser a um estilo especial de malandragem política; fez a gíria constitucional, a gerigonça parlamentar, o calão burguês".
Se atentarmos bem neste texto, Ramalho Ortigão, se é verdade que aborda um tema sério, não é menos verdade que o faz com elevada dose de humor. De um humor fino e mordaz. Esta notável capacidade de rir dos políticos do seu tempo, fez de Ramalho um dos raros escritores que ainda escreviam com humor, pois tal como Eça nos diz, a capacidade de rir já está em decadência...
Os portugueses sempre tiveram o condão de saber rir, mas, porque somos um povo de extremos, ora rimos, ora ficamos macambúzios. Esta nossa capacidade de satirizar, de rirmos de tudo e de todos, até de nós próprios, ou de rirmos tão simplesmente de alegria, tem tido épocas ao longo da nossa História. Somos um povo com um anedotário riquíssimo, porém hoje ainda estamos com uma decadência de rir, maior do que no tempo de Eça, talvez por culpa da tal civilização que temos vindo a construir, como nos diz o romancista. Confiemos que a nossa capacidade de rir e o nosso anedotário, regressem em breve ao nosso quotidiano.

acs

terça-feira, julho 29, 2008

21.ARMILA LITERÁRIA

Comportamentos que a História registou...

OS INGLESES E O MUNDO ÁRABE


(...)
Esta era a situação ao dia 11 de Junho. Alexandria tornara-se uma fornalha de excitação. Nas Mesquitas pregava-se com furor a cruzada contra o cristão: nos bazares falava-se do estrangeiro como do cão maldito, da ave de rapina, pior que o gafanhoto que devora a seara, pior que a seca do Nilo; e, ou fosse o fanatismo que despertasse ou fosse a miséria que se queria vingar - todo o bom muçulmano se armava.
Nestas circunstâncias, de uma chufa de botequim pode nascer uma guerra de raças. E, pouco mais ou menos, assim sucedeu. Na manhã do dia 11, na Rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglês, por um velho hábito, deu chicotadas num árabe; mas, contra todas as tradições, o árabe replicou com uma cacetada. O inglês fez fogo com um revólver. Daí a pouco o conflito entre europeus e árabes, em pleno furor, tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas - até que, por ordens telegrafadas do Cairo, a tropa, até aí neutral, acalmou as ruas. E o resultado, bem inesperado, mas compreensível, desde que se sabe que os árabes só tinham cacetes e que os europeus tinham carabinas - foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos árabes dizimados. Os jornais têm chamado a isto o massacre dos cristãos: eu não quero ser por modo algum desagradável aos meus irmãos em Cristo, mas lembro respeitosamente que isto se chama a matança dos muçulmanos.
Eça de Queiroz, in Cartas de Inglaterra (Os ingleses no Egipto)

quinta-feira, julho 17, 2008

13. ARMILA PRIMEIRA

CIMEIRA DA CPLP
24 e 25 de Julho de 2008


Lisboa acolhe nos próximos dias 24 e 25 a Cimeira da CPLP. Nesta Cimeira Portugal assumirá a Presidência da Comunidade. Desta Cimeira TUDO se exige. De há muito ( nomeadamente nas minhas crónicas na RDP-Internacional e agora nas páginas deste blogue) que me tenho vindo a bater por uma CPLP ACTUANTE. Hoje, toquemos apenas nalguns pontos:
1. A difusão internacional da Língua Portuguesa impõem-se, não com retóricas, mas com medidas concretas, como, por exemplo, torná-la língua oficial da ONU, lado a lado com o inglês, o chinês, o francês, o castelhano, o árabe e o russo. É imperioso que o IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa) saia do papel e passe a funcionar a 100%. A nível interno (de Portugal) o Instituto Camões deveria sair da tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros e passar para a alçada directa do 1º Ministro, através dum Ministro da Presidência , que teria igualmente a responsabilidade das relações directas com a CPLP. Recordo aqui que, premonitoriamente, o presidente dos EUA, John Kennedy, em 1962 na sua Mensagem ao Congresso, considerou ser o Português, uma das línguas mais importantes do mundo moderno. Pôr a RDP-Internacional e a RTP-Internacional ao serviço da CPLP, é outra tarefa imperiosa.
2. A Língua Portuguesa é o melhor e mais valioso elemento da Cultura de todos os povos que integram a CPLP. Temos que estar atentos aos graves atropelos à nossa língua, bem como à influência hegemónica do inglês, pois ao deixarmo-nos influenciar pelo império da língua inglesa, corremos o mesmo risco do Latim, que hoje é uma língua morta, por se ter deixado influenciar, em demasia, por outras línguas locais. Recordemos o aviso de José Augusto Seabra, quando nos diz: "num contexto em que a afirmação das identidades e das alteridades culturais se acentua, como resistência à hegemonia do inglês, que as línguas latinas esboçam, é importante que sejamos capazes de promover, persistentemente, o uso do Português nas nossas relações internacionais, quer bilaterais, quer multilaterais, a todos os níveis, desde as relações culturais e científicas às relações económicas, sociais e mais propriamente políticas".
Mas que fazer quando os nossos políticos, nos areópagos internacionais habitualmente utilizam uma língua que lhes é estranha? E até mesmo internamente usam expressões em línguas estrangeiras...
3. É a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, um instrumento único para o desenvolvimento social e económico dos países que a constituem, já que assenta em valores culturais e tem a Língua Portuguesa como elemento de unidade e entendimento. Para tal é imperativo confiar os destinos da CPLP à dedicação e competência de pessoas que sejam capazes de a pôr em funcionamento, sem a mesquinhez das tricas políticas. Pena foi, que logo de início, não se tenha posto à frente da CPLP, José Aparecido de Oliveira...
4. Estatutariamente a CPLP tem obrigações para além da defesa e difusão da Língua Portuguesa. Tem compromissos sérios com todas as áreas do nosso conviver colectivo: o social, o económico, o cultural, o educacional, o diplomático, a saúde, a inter-cidadania, etc.,etc.
Por isso, desta Cimeira de Lisboa, TUDO se exige. Por exemplo:
a) A livre circulação de pessoas e bens no espaço da CPLP. Tarefa que reconheço, só se poderá concretizar a médio prazo, mas os primeiros passos podem começar desde já.
b) A CPLP deve ser reconhecida a nível diplomático, pelo menos junto da ONU e da União Europeia.
c) À imagem e semelhança do Brasil, todos os oito países devem ter um Embaixador junto da CPLP e esta ter representação diplomática junto de cada Governo.
5. Para o desenvolvimento económico-social, dos PALOP e de Timor, devem-se apoiar parcerias económicas e empresariais, como, por exemplo, a EDP e a CP, com as suas congéneres moçambicanas, no desenvolvimento da rede ferroviária e na distribuição de electricidade em Moçambique, para aproveitamento da excepcional capacidade da barragem de Cahora Bassa. Duma cajadada matavam-se dois coelhos: aproveitava-se a electricidade produzida e desenvolvia-se a rede ferroviária de Moçambique, num claro apoio ao desenvolvimento do interior do país. Basta fazer parcerias economicamente vantajosas para ambas as partes. Assim o queira quem tem o poder de decidir...
Que esta Cimeira dê bons frutos. Sobretudo que se passe das frases de circunstância, para a acção.

acs

quarta-feira, julho 16, 2008

20. ARMILA LITERÁRIA

A PESCA DO ATUM
TAVIRA
Agosto - 1922

Muros muito brancos, de porta e janela, alguns com gelosias, que é a velha e melhor maneira de manter as casas sempre frescas. A rexa deixa passar o ar e conserva a meia luz: dá intimidade aos interiores. Nas ruas não passa ninguém. Casas apalaçadas, tumulares. Telhados mouriscos, pontiagudos, de quatro águas, muito caiados, e as chaminés do Sul, que lembram reduções de minaretes. Há-as rendilhadas; há-as com filigranas e flores. Outras mais pobres e mais simples, mas sempre aspirando para o céu de Alá. Entre elas e a Geralda, a diferença é apenas de tamanho. Brancas, esguias, delicadas, com um pouco de imaginação povoa-se Tavira de torres onde o Árabe faz a oração da manhã e da tarde. São recordação e saudade. A alma do Moiro está viva. Subjugada, persiste e sonha. Aspira. Perseguida, obstina-se. E para viver faz-se pequenina e contenta-se em deitar fumo...
Tavira é uma terra fechada, concentrada, de gente rica que arrecada o dinheiro do figo, da amêndoa e da alfarroba. Cada fruto destas árvores é um pingo de oiro. Que saudades eu tenho, nesta terra neurasténica, da fedorenta Olhão! De Olhão, até o mau cheiro me cheira agora bem. E como compreendo a mudança de fisionomia dos homens e das coisas... Tavira é uma terra de montanheiros, Olhão é uma terra de pescadores. O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste. No mar não há marcos...
Todo o Algarve é um pomar cultivado com esmero. A gente do Alentejo, quando vê um bocado de terra bem tratada, diz: - É um pedacinho do Algarve. - Mas não se lembra que o Algarve está retalhado, pulverizado, três pés de oliveira, dois pés de amendoeira, e as almas rancorosas divididas como a terra. Um palmo de campo faz uma diferença extraordinária e um marco disputa-se a tiro entre irmãos. Regime de salário deficiente, um orçamento estreito, tornaram o homem preocupado e subtil. De raça é moiro, de condição eterno explorado. Foi ele que inventou ir ao advogado pedir «um conselho às avessas», figurando na posição do adversário. Depois do que, com o chapéu a mão, que faz girar lentamente entre os dedos pelas abas, conclui: - Então está bem... - Como está bem?! - É que eu não sou eu, sou o outro... - Dá aos velhos rábulas as melhores lições de mariolice jurídica.

Raul Brandão, in Os Pescadores

sexta-feira, junho 20, 2008

10. ARMILA LINGUÍSTICA

A LETRA
W

Agora que, com o novo acordo ortográfico, a letra W, até aqui uma letra estranha ao alfabeto português, vai passar a fazer parte do mesmo, é importante que a saibamos pronunciar.
Por força da colonização linguística que nos tem sido imposta pela língua inglesa e pela ignorância ou pedantice bacoca dos nossos jornalistas e de todos quantos usam do facilitismo de terem acesso à rádio e à televisão, a letra W tem vindo a ser pronunciada (pela generalidade dos portugueses) à moda da língua inglesa: "DÁBLIÚ".
Se virmos bem esta pronúncia "dábliú" quer dizer "double u" isto é DUPLO U: a letra u dobrada. Mas é assim que os ingleses se entendem, até porque antigamente e, mesmo no Latim, a letra V tinha também o valor de U.
Mas as línguas latinas (Português, Francês, Galego, Castelhano, Italiano ou Romeno) evoluíram e passaram a dar ao U e ao V o seu uso próprio.
As línguas latinas para pronunciarem a letra W, dizem que ela é um DUPLO V, como por exemplo os franceses que dizem "dublevê". Nós em Português devemos dizer DUPLO VÊ, VÊ DUPLO, ou VÊ DOBRADO (aqui está mais uma das riquezas da nossa língua).
Por curiosidade convido-vos a ver na televisão por cabo a TV5, um canal televisivo francês. Reparem que quando eles referem os endereços electrónicos dizem sempre "trois double ", ou "triple double ".
Ao pronunciarmos a letra W, comecemos pois a utilizar a Língua Portuguesa. Para referirmos verbalmente os endereços electrónicos, passemos a dizer: triplo vê dobrado, triplo vê duplo ou triplo duplo vê. Ao mesmo tempo comecemos a pressionar os jornalistas, locutores e apresentadores de rádio e televisão para que falem bem Português. Até muitos dos nossos professores de PORTUGUÊS pronunciam a letra W à inglesa...

acs

segunda-feira, junho 16, 2008

14. ARMILA D' A ACÇÃO

1. ACÇÃO BRASILEIRA

Se entrarmos em: http://www.ieb.usp.br/online/index.asp encontraremos um dos maiores tesouros do nosso léxico. Trata-se do mais antigo Dicionário de Português, editado em Coimbra, no longínquo SEC. XVIII e da autoria de Rafael Bluteau (apesar do nome, era português). O esforço de digitalização deve-se à Universidade de São Paulo. Aplausos.
2. (IN)ACÇÃO PORTUGUESA
Por contraste com este notável trabalho da Universidade de São Paulo, Portugal destaca-se pela inacção quanto às comemorações do 400º aniversário do nascimento do Padre António Vieira (Lisboa, 6.2.1608 - Baía, 18.7.1967). António Vieira notabilizou-se como orador e epistológrafo. Os seus textos ainda hoje incomodam muitos políticos que se olham ao espelho nos textos de Vieira. Em Fevereiro ainda se falou, de forma fugaz, deste homem, que, apesar de sacerdote, foi perseguido pela feroz e terrífica Inquisição. É pena que não se divulgue, sobretudo às novas gerações, a Obra deste Autor, até porque ele é uma escola de bem escrever Português.
3. A ACÇÃO DESEJADA
No próximo mês de Julho decorre mais uma cimeira dos países da CPLP. Porque grandes são as necessidades, enormes são as expectativas das conclusões desta cimeira. Agora que a CPLP já tem um protocolo com a União Europeia, deseja-se e espera-se que se tomem medidas, PARA ALÉM DA DIVULGAÇÃO E ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA, conducentes à abertura de caminhos para a livre circulação de pessoas e bens e ao desenvolvimento sustentado, sobretudo, dos países africanos e de Timor, com o apoio de empresas portuguesas e brasileiras, em pé de igualdade, além do apoio oficial em termos do envio de professores médicos e outros meios tecnológicos.
4. ACÇÃO PORTUGUESA NO LUXEMBURGO
Em acção está o Centro Cultural Português do Luxemburgo que, agora leva a cabo uma exposição da Obra Gráfica de Júlio Pomar. Não se trata duma exposição de originais, mas de peças artísticas que sofreram um processo de gravura e reprodução. É uma oportunidade única de que os portugueses residentes no Luxemburgo não se devem alhear. Pode ser, que se esta exposição tiver sucesso, noutra oportunidade o Centro Cultural Português do Luxemburgo, possa exibir os originais de Júlio Pomar e, quiçá, a tela que retrata o seu olhar sobre o MAIO de 68.
A Exposição, comissariada por Maria de Lurdes Ferreira, está aberta até ao próximo dia 10 de Julho.
Aplausos.

acs

segunda-feira, junho 09, 2008

ARMILA PRIMEIRA.13

110º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE FERREIRA DE CASTRO


FERREIRA DE CASTRO
80 anos sobre a primeira edição de emigrantes


Ficou órfão de pai aos 8 anos e aos 12 emigrou para o Brasil, levando consigo muitos sonhos e as poucas letras que conseguira aprender na Escola Primária.

Este miúdo trabalhou como um homem em plena floresta amazónica, onde sofreu provações e conheceu a dor, a miséria e as personagens reais, que lhe permitiram vir a escrever A Selva, uma das mais notáveis da literatura de Língua Portuguesa. Fálo-vos de Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis-1898-Lisboa/1974).

Na selva amazónica passou quatro anos, após o que voltou para Belém do Pará, onde luta pela sobrevivência nos trabalhos mais humildes e árduos. Mas é também aí que inicia a sua actividade como escritor, publicando em fascículos, que ele próprio vendia, o seu primeiro romance que havia escrito aos 14 anos.

Em, Belém do Pará chegou a colaborar em vários jornais regressando a Portugal em 1919. Funda a revista A HORA e torna-se redactor de O Século, entre outras publicações. A sua obra literária começa verdadeiramente em 1928 com EMIGRANTES, que ele próprio reconhece ser o livro que marca o seu rompimento com a actividade folhetinesca que vinha desenvolvendo.

Ainda longe do neo-realismo, em Emigrantes, Ferreira de Castro lança já os seus alicerces assumindo-se como biógrafo "das personagens que, dir-se-á, não terem lugar no Mundo" emigrando "na mira de poderem também, um dia, saborear aqueles frutos de oiro que outros homens, muitas vezes sem esforço de maior colhem às mãos-cheias", como se lê no Prefácio à 4ª edição da obra.

Da sua passagem pela floresta amazónica, guardou duras recordações que foi amadurecendo ao longo dos anos até lhes dar forma literária. É assim que em 1930 publica A Selva, que derrubando fronteiras, se torna num dos maiores monumentos da literatura mundial.

Com A Lã e a Neve, Ferreira de Castro revela-nos o seu mais apurado realismo social, sendo evidente a ligação das relações económicas com o destino dos homens, pastores e tecelões, da dura montanha - A Serra da Estrela.

Mas vasta e excelente é a sua obra. Além dos títulos já referidos, recordemos O Instinto Supremo, A Missão, A Curva da Estrada, ou a Volta ao Mundo entre muitos outros.

Ferreira de Castro tem a sua obra traduzida praticamente em todo o mundo e em, praticamente, todas as línguas.

acs

quarta-feira, abril 02, 2008

18. ARMILA LITERÁRIA

O Relógio da Cidade e o Relógio da Aldeia encontram-se, ambos em conserto, na oficina do relojoeiro. Falam dos homens e do uso que eles normalmente fazem do tempo.

AS HORAS

RELÓGIO DA CIDADE: - Dir-vos-ei: todos somos relógios e sabemos que não há cousa que não tenha a sua hora no mundo. O rir, o chorar, o trabalho e o descanso, a fome e a fartura, tudo tem a sua hora; donde procede que não é fora de razão que os homens tratem umas vezes do seu cómodo e outras do seu adiantamento; pois é certo que, para regerem e dirigirem a bons fins e a termos úteis, lhes deu Deus entendimento, que negou às alimárias, a quem deu menos, porque delas não queria receber tanto. Contudo já se sabe que é demasiada fanfarronice que o ditoso não queria alguma hora ser mofino, de andar em sua família para sempre, sem que se possa perder ou alienar. Por isso se diz vulgarmente que tudo tem a sua hora.
RELÓGIO DA ALDEIA: - Não quisera eu, pelo menos, ser o relógio que tal hora lhes desse!
RELÓGIO DA CIDADE: - Mas acrescento que, do mesmo modo, é cativa desconfiança cuidar o miserável que já nunca mais pode haver para ele uma hora de ditoso.
RELÓGIO DA ALDEIA: - Vedes vós? Pois se olharmos bem a cousa, nenhum deles tem grande culpa; porque, por essa própria razão que a uns lhes dura muito a dita e a outros a desgraça, não há quem os despeça de sua larga companhia: aqueles que não se conformam com que lhes falte a envelhecida prosperidade com que se criaram, e estes não podem crer que se lhes mude a contínua miséria que os perseguia sempre.

D. Francisco Manuel de Melo, in RELÓGIOS FALANTES

terça-feira, março 11, 2008

12. ARMILA PRIMEIRA

4º CENTENÁRIO

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO
(1608-1666)

Natural de Lisboa D. Francisco Manuel de Melo, foi um dos espíritos mais cultos do seu tempo. Comemora-se este ano o 4º centenário do seu nascimento. Pena é que a efeméride coincida com as celebrações do também 4º centenário do nascimento do Padre António Vieira, que naturalmente se sobreporão.
A sua obra é vasta e diversificada, abrangendo vários géneros: de carácter didáctico e moral, poética, historiográfica, epistológica, panfletos políticos e textos dramáticos. Dotado de notável senso crítico, profundo conhecedor da sociedade do SEC. XVII, senhor de magistral ironia, D. Francisco Manuel de Melo distingue-se dos seus contemporâneos pela elegância, amenidade e graça conceituosa do seu estilo.
Da sua obra destacam-se: O Fidalgo Aprendiz, Carta da Guia de Casados, Epanáforas de Vária História Portuguesa, Cartas Familiares, Feira de Anexins, Apólogos Dialogais (Relógios Falantes, Escritório do Avarento, Visita das Fontes e Hospital das Letras) e em poesia As Segundas das Três Musas de Melodino.
Revisitemos a sua obra e tal como na de António Vieira, toparemos nela uma espantosa actualidade.

acs

quarta-feira, março 05, 2008

11. ARMILA PRIMEIRA

A LÍNGUA PORTUGUESA PERDEU UM DOS SEUS MAIORES LINGUISTAS


FALECEU JOSÉ NEVES HENRIQUES

Muito nos dói quando os amigos decidem mudar-se para o assento etéreo. Não é normal dar testemunho público da partida dos nossos amigos. Hoje não é o caso. José Neves Henriques é, antes de tudo, um grande Amigo meu. Porém ele destacou-se na defesa e no ensino da Língua Portuguesa. Muitas gerações lhe passaram pelas mãos e hoje lhe estão gratos pelos seus ensinamentos.
Ontem, dia 4 de Março de 2008, José Neves Henriques decidiu ir partilhar os dias com outros grandes da nossa língua e da nossa cultura, quiçá com Camões, Pessoa, David Lopes, António Vieira, Lopes-Graça, Eça, Camilo, Luísa Todi, Bocage, Aparecido de Oliveira e muitos outros.
Figura grande, como linguista e pedagogo, sempre se bateu pelo correcto uso da Língua Portuguesa, mas também pelo seu ensino a todos os níveis e todos os ramos do saber, pois como ele próprio dizia é imperioso (por exemplo) que um professor de Matemática saiba explicar aos alunos o que é um axioma, indo mesmo ao étimo do vocábulo; pois só assim "a língua penetra na alma do Homem e, fundindo-se com o seu pensar e sentir, leva-o à criação que deslumbra, tal como a água penetrando na semente lançada à terra" (1).
Foi na direcção da Sociedade da Língua Portuguesa que o conheci e onde nos tornámos Amigos. À Sociedade da Língua Portuguesa, José Neves Henriques deu o melhor de si próprio, tendo-se tornado figura destacada, entre os mais notáveis. Eduarda Neves Henriques, sua filha e que me dá a honra de também ser minha Amiga, é uma notável continuadora do trabalho de seu pai.
Num tempo em que vivemos colonizados pelo império da língua inglesa, mais grave do que isso, é, dizia Neves Henriques, o facto de adulterarmos sistematicamente a nossa língua, ignorando que só sabendo Português poderemos entender qualquer outra matéria: Matemática, Medicina Engenharia, etc.
O meu querido Amigo José Neves Henriques, privou-nos da sua companhia e do seu sorriso afável, mas deixou-nos muitos e excelentes discípulos. A Língua Portuguesa continuará a trilhar o seu caminho. Homenageando a memória de Neves Henriques aqui fica um poema de José Carlos Ary dos Santos:
LÍNGUA PORTUGUESA

Se em vez de medo disseres força
se em vez de velho disseres novo
ficas a saber que a língua portuguesa
é povo.

Se em vez de fome disseres pão
e chegada em vez de partida
ficas a saber que a língua portuguesa
é vida.

Grita como quem canta
fala como quem quer
para quem luta querer é poder.
Vencer.

Se em vez de abutre for gaivota
se em vez de escuridão for luar
fica a saber que a língua portuguesa
é mar.

Se em vez de grades disseres campo
e se em vez de lição disseres livro
ficas a saber que a língua portuguesa
é livre.

Se em vez de escravo for cravo
e se em vez de prisão for amor
ficas a saber que a língua portuguesa
deu flor.

(1) Revista Língua Portuguesa, nºs 4,5 e 6 (Abril/Maio/Junho-1987) Sociedade da Língua Portuguesa
acs

terça-feira, março 04, 2008

18. ARMILA LITERÁRIA

SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.
(...)
Antes porém que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira coisa que me desedifica, peixes, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora ao contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer. Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

Padre ANTÓNIO VIEIRA- Do Sermão de Santo António pregado aos Peixes em S. Luís do Maranhão em 1654

terça-feira, fevereiro 26, 2008

17. ARMILA LITERÁRIA

ANTÓNIO VIEIRA E A DEFESA DOS ÍNDIOS BRASILEIROS
(...)
O remédio, pois, Senhor, consiste em que se mude e melhore a forma por que até agora foram governados os índios; o que se poderá fazer mandando V. M. guardar os capítulos seguintes:
I. Que os governadores e capitães-mores não tenham jurisdição alguma sobre os ditos índios naturais da terra, assim como os gentios, e nem para os mandar, nem para os repartir, nem para outra alguma cousa.
(...)
II. Que os ditos índios tenham um procurador-geral em cada capitania, o qual procurador assim mesmo seja independente dos governadores e capitães-mores, em todas as cousas pertencentes aos mesmos índios; e este procurador seja uma das pessoas mais principais e autorizadas e conhecidas de melhores procedimentos, ao que elegerá o povo no princípio de cada ano, podendo confirmar ao mesmo ou eleger outro, em caso que não dê boa satisfação do seu ofício, o qual ofício exercitará com a jurisdição e nos casos que ao diante se apontam.
III. Que os ditos índios estejam totalmente sujeitos e sejam governados por pessoas religiosas, na forma que se costuma em todo o Estado do Brasil.
(...)
IV. Que no início de cada ano se faça lista de todos os índios de serviço que houver nas aldeias de cada capitania, e juntamente de todos os moradores dela.
(...)
V. Que porquanto as aldeias estão notavelmente diminuídas, os índios se unam de modo que parecer mais conveniente, e em que os mesmos índios se conformarem e se reduzam a menos número de aldeias, para que sejam e possam ser melhor doutrinados, e que as ditas aldeias, assim unidas, se ponham nos sítios e lugares que forem mais acomodados, assim para o serviço da república como para a conservação dos mesmos índios.
VI. Que, para que os índios tenham tempo de acudir às suas lavouras e famílias e possam ir às jornadas dos sertões, que se há-de fazer para descer outros e os converter à nossa santa fé, nenhum índio possa trabalhar fora da sua aldeia cada ano mais do que quatro meses, os quais quatro meses não serão juntos por uma só vez.
(...)
VII. Que os índios sejam pagos pelo seu trabalho, nenhum índio irá servir a morador algum, nem ainda nas obras públicas do serviço de S. M., sem se depositar primeiro o seu pagamento.
(...)
VIII. Que todas as semanas ou todos os quinze dias, conforme o número de aldeias, haverá uma feira de índios, à qual cada aldeia, por seu turno, trará a vender os frutos das suas lavouras.
(...)
IX. Que as entradas que se fizerem ao sertão as façam somente pessoas eclesiásticas, como V.M. tem ordenado aos capitães-mores.
...

Padre António Vieira - Carta ao Rei D. João IV, datada do Maranhão, 6 de Abril de 1654

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

10. ARMILA PRIMEIRA

MOÇAMBIQUE ,MEU AMOR
Terra de "manachos" e "cocuanas", eu te amo Moçambiue. Amo-te pela bondade do teu Povo, pelo sorriso estampado em cada rosto. Admiro-te e respeito-te pela capacidade do teu Povo fazer de cada dificuldade um alento. Admiro-te e respeito-te pela tenacidade do teu Povo que teimosamente ergue um país ainda que tropece em dificuldades.
Amo-te, admiro-te e respeito-te Moçambique, nas imagens que a televisão nos tranmite das cheias que, de novo, te assolam e que traumatizam o teu Povo,que mesmo assim erguerá a cabeça e arregaçará as mangas, para, de novo, pôr as terras a produzir.
Mas enquanto o teu Povo sofre o drama das inundações, há que dar ajuda, salvando populações e gado; evitando doenças e epidemias. O teu Governo não pode fazer tudo, mas pode e deve pedir ajuda à CPLP, alertando-a para um dos objectivos para que foi criada: a SOLIDARIEDADE.
Se é verdade que a CPLP, já devia ter actuado, por iniciativa própria, também é verdade que o Governo de Moçambique tem a obrigação de accionar os mecanismos necessários junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, pedindo a solidariedade prática de todos os países que a integram.
A CPLP foi instituida, também para ser SOLIDÁRIA.

acs

16.ARMILA LITERÁRIA

RAMALHO ORTIGÃO

Há dois mil anos a China, num momento de grande impulso interior, abriu os olhos da alma e concebeu, num relance, uma certa ideia de Universo, do Homem, da Arte e da Sociedade: dois mil anos passaram e a China persiste, impassível, na adoração e no uso destas concepções primitivas. O português moderno tem muito do chinês. A primeira impressão que nos vem à retina, fica-nos perpetuamente no espírito. Ramalho Ortigão há anos (o seu talento podia dizer há séculos), foi visto no Chiado com um chapéu de panamá, gabando os méritos de Mademoiselle Rigolboche, a antiga Carlos Magno da prostituição; há sujeitos para quem Ramalho, apesar de trinta volumes de "Farpas", é ainda hoje o homem do chapéu panamá e o Plutarco de Mademoiselle Rigolboche.
(...)
Apenas nas "Farpas", Ramalho Ortigão bem depressa achou a sua forma: desembaraçou-se da velha armadura quinhentista - e saltou de dentro, rápido, vivo, brilhante, vergando e sacudindo a sua frase como uma lâmina de florete. Mas antes de atacar, ele não o pode negar, teve um momento de hesitação, muito perdoável, decerto; via diante de si, na fileira inimiga, tantos santos da sua antiga devoção! É duro, por exemplo, para um velho conservador, ter de atirar estocadas ao belo peito do orador do parlamentarismo, de voz sonora e presença agradável: é duro para um antigo literato, frequentador do "Amor e Melancolia", ir perseguir de ferro em punho, até debaixo das saias da Academia, todo um povo agachado e trémulo de tropos e de lirismo.
(...)
Ramalho exitava: aqueles réus eram os seus deuses. Teve um acto de grande, de tocante honestidade: foi, ele mesmo, refazer-lhes o processo... voltou desolado: os deuses eram de palha! Testas, corações, que julgara cheios, davam o som de oco. E o seu velho mundo, que amara, e que sempre julgara forte e são como mármore, tinha fendas esbeiçadas por onde escorria vérmina!
Não tardou a hesitar: o folhetinista delirante acabava; começava o panfletário ilustre.
O primeiro fim das "Farpas" foi promover o riso. O riso é a mais antiga e a mais terrível forma da crítica.

Eça de Queiroz - Notas Contemporâneas (carta a Joaquim de Araújo - Newcastle, 25 de Fevereiro de 1878)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

11.ARMILA LITERÁRIA

A MODERAÇÃO DO QUERER

Olhem os homens para as outras criaturas sem uso de razão, e não queiram ser ingratos e soberbos contra Deus, quando todas elas, grandes e pequenas, o louvam e lhe dão graças pelo que dele receberam.
Se o rato não quer ser leão, nem o pardal quer ser águia, nem a formiga quer ser elefante, nem a rã quer ser baleia, porque não se contentará o Homem com a medida que Deus lhe quis dar? E que se nem os leões, nem as águias, nem os elefantes, nem as baleias, se contentassem com a sua grandeza e uns se quisessem comer aos outros, para serem maiores? Isto é o que querem e fazem continuamente os homens, e por isso os altos caem, os grandes rebentam e todos se perdem.
Os instrumentos com que criou a natureza, ou fabricou a arte para o serviço do Homem, todos têm certos termos de proporção, dentro dos quais se podem conservar e fora dos quais não podem. Com a carga demasiada cai o jumento, rebenta o canhão e vai-se o navio a pique. Por isso se vêem tantas quedas, tantos desastres e tantos naufrágios no mundo. Se a carga for proporcionada ao calibre da peça, ao bojo do navio, e à força ou fraqueza do animal, no mar far-
-se-á viagem, na terra caminho e na terra e no mar tudo andará concertado. Mas tudo se desconcerta e se perde, porque em tudo quer a ambição humana exceder a esfera e a proporção do poder.
Vejo que me estão dizendo os prezados de grande coração, que este discurso quebra os espíritos e acovarda os ânimos para que não empreendam, nem façam coisas grandes. Antes às avessas. Empreendei e fazei coisas, e as maiores e mais admiráveis; mas dentro da esfera e proporção do vosso poder, porque fora dela não fareis nada.

Pde. António Vieira - Do sermão da Terceira Dominga depois da Epifania, pregado na Sé de Lisboa, sobre o modo como ajustar o querer com o poder

quinta-feira, janeiro 17, 2008

9. ARMILAR PRIMEIRA

EFEMÉRIDE

4º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Natural de Lisboa, António Vieira (1608-1697) sacerdote jesuíta é um dos maiores vultos da literatura mundial. Durante a sua longa existência desenvolveu uma notável actividade, tanto como humanista, como homem das letras, onde cedo se prestigiou pelo extraordinário poder da sua eloquência espantosamente arrebatadora.
Os seus sermões revolucionaram a arte de pregar, libertando-a do cultismo até então dominante e a que a maioria dos pregadores a haviam escravizado. A harmonia, o ritmo musical da frase, tantas vezes repetida, como uma espécie de poderoso estribilho, a cantante sonoridade, a majestade e o equilíbrio dos períodos, a propriedade e a pureza da linguagem, asseguram-lhe um lugar de honra entre os melhores prosadores da Literatura Portuguesa e ,mundial.
É verdade que os seus sermões subjugam. Mas as cartas, que nos absorvem pela naturalidade, viveza de expressão e colorido dos descritivos, são uma preciosa fonte para o estudo da política e da vida social da época.
A sua obra (vastíssima) é composta por cerca de duzentos Sermões e numerosas Cartas. A António Vieira foi atribuída a autoria de a "Arte de Furtar", pois trata-se duma obra de notável força polémica e realista da sociedade do seu tempo. A ideia parece ter sido servir de chamariz aos leitores, dada a força do nome do Padre António Vieira. A autoria da obra, no entanto, parece ser do Padre Manuel da Costa, igualmente jesuíta. Este livro de meados do SEC. XVII, é uma enérgica denúncia de corrupção geral da época, sobretudo do alto funcionalismo e da alta burguesia financeira. A obra destaca-se duma vaga de panfletos (ainda hoje mal estudados) que abundam em Portugal no SEC. XVII, em torno da Inquisição, da nobreza, dos contratadores de rendas do Estado e outros figurões da época...
Dada a sua postura no sociedade, António Vieira, um dos maiores Humanistas de todos os tempos, viu-se a braços com a Inquisição que, quando o nosso jesuíta veio do Brasil a Portugal para defender junto da Corte a política da Companhia Geral de Comércio do Brasil, aproveitou a oportunidade para ajustar velhas contas com o defensor dos Cristãos-Novos. Após demorado processo, António Vieira ficou a ferros nas masmorras do Santo Ofício entre 1662 e 1665. O vigor musculado e nervoso da frase de Vieira e o seu extraordinário sentido da propriedade vocabular sempre tinham incomodado os senhores do Santo Ofício/Inquisição. António Vieira, acérrimo defensor dos indígenas, particularmente dos Ameríndios do interior do sertão, travou cerrada luta contra os colonos brasileiros que procuravam recrutar entre os Índios mão-de-obra escrava.
A espantosa actualidade da Obra de António Vieira a incomodar muita gente. Mas, por isso mesmo, é imperioso que se comemore com dignidade esta efeméride.
Já aqui tenho divulgado (Armila Literária) vários extractos da Obra de António Vieira. Ao longo deste ano de 2008 continuarei a fazê-lo.

acs

domingo, janeiro 06, 2008

5. ARMILA DO ASSOBIO

REGISTOS
- "Passei a vida sobre a prancheta mas, para mim, a política importa mais do que a arquitectura. Quem não é solidário, quem não se preocupa com a miséria, pode ser o melhor profissional e ficar rico, mas é um cretino."
Óscar Niemeyer, citado por Norma Couri na revista Visão nº 771 de 13-12-2007
- Sem grande destaque nos orgãos de informação portugueses, faleceu no passado dia 29 de Novembro de 2007, em Amesterdão, o intlectual lusófilo August Willemesen. Foi o principal tradutor de Fernando Pessoa para holandês. Willemsen traduziu também para a sua língua Camões, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Machado de Assis, entre outros.
- Em 17 de Dezembro de 2007, faleceu em Paris a investigadora frncesa SOLANGE PARVAUX, grande impulsionadora do ensino da Língua Portuguesa em França.
Muito do pouco que está feito para a divulgação e o ensino do Português em França a ela se deve. Para além de não se fazerem representar no funeral, o Governo Português e a Comissão Executiva da CPLP, não tiveram uma palavra de reconhecimento. Foi um silêncio ensurdecedor. Os orgãos de informação portugueses mais preocupados com escândalos de vão de escada quase não deram a notícia...
acs