quinta-feira, novembro 22, 2007

13.ARMILA D'A ACÇÃO

CPLP - UE
FINALMENTE UM PASSO DECISIVO

No passado dia 7 de Novembro de 2007, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e a União Europeia, assinaram, finalmente, um Acordo de Cooperação. O acordo foi subscrito por Luis Fonseca, Secretário Executivo da CPLP e por Louis Michel, Comissário Europeu para o Desenvolvimento e Ajuda Humanitária.

Pese embora o facto de dar pelo modesto nome de MEMORNDUM DE ENTENDIMENTO, trata-se dum instrumento valioso nas relações entre os países que integram estas duas comunidades. Entre outras está garantida a cooperação nas seguintes áreas: a) Democracia e Direitos Humanos; b) Prevenção, Gestão e Resolução de conflitos; c) Diversidade Cultural; d) Educação, Formação e Juventude; e) Desenvolvimento Económico e Social; f) Sociedade da Informação.

Saibam a CPLP e a UE aplicar todas as sinergias e teremos uma CPLP vigorosa, capaz de trazer DESENVOLVIMENTO aos países que a compõem, em particular aos PAPLOP e Timor. A Língua Portuguesa, falada em todos os continentes, será o elo fundamental. Se é verdade que a Língua Portuguesa tem em Portugal a sua pátria, ela, hoje, não é propriedade exclusiva dos portugueses; pertence aos povos de todos os países lusófonos. Isto mesmo o terá entendido, numa larga antevisão política, o presidente dos E U A, John Kennedy, quando em 1962, na sua Mensagem ao Congresso, considerou ser o Português uma das línguas mais importantes do mundo moderno. Bush pode dizer os disparates que entender que,... a caravana passará.

É pena que José Aparecido de Oliveira não tenha tido oportunidade de assistir à assinatura deste acordo. No entanto, ele é a melhor homenagem que se lhe pode prestar. Assim os homens que estão ao leme da CPLP e dos 8 governos lusófonos, tenham a arte e o engenho de o pôr em prática.

Ficaremos atentos.

A terminar recordemos o poema que Miguel Torga dedicou ao Padre António Vieira:

ANTÓNIO VIEIRA*

Filho peninsular e tropical
De Inácio de Loiola,
Aluno de Bandarra
E mestre
De Fernando Pessoa,
No Quinto Império que sonhou, sonhava
O homem lusitano
À medida do mundo.
E foi ele o primeiro.
Original
No ser universal...
Misto de génio, magro e aventureiro.

* Poemas Ibéricos- 1984-Madrid-Ediciones Cultura Hispanica

acs

terça-feira, novembro 13, 2007

12.ARMILA D'A ACÇÃO

JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA


Nasceu José Aparecido de Oliveira em Conceição do Mato Dentro, no Estado de Minas Gerais, em 17 de Fevereiro de 1929. Figura grande da intlectualidade brasileira e do mundo lusófono, faleceu em Belo Horizonte no passado dia 19 de Outubro de 2007.
Não é fácil falar dum Amigo, sem correr o risco de parecer tendencioso. Vou-me esforçar por ser o mais objectivo possível, ainda que fazendo minhas as palavras de Heitor Cony, que na revista Manchete de 20 de Novembro de 1993, justificava assim os rasgados elogios para com um amigo:"porque acredita em dois tipos de homem: os que criam uma ideia e os que a concretizam."
José Aparecido de Oliveira, descendente de transmontanos, gostava de dizer que era um português nascido no Brasil. Mas mais do que issso, era assim que ele se sentia. Como jornalista, para além de integrar várias associações sindicais brasileiras colaborou com alguns dos mais destacados orgãos de informação do Brasil, como o Diário do Comércio, o Correio do Dia, o Correio da Manhã, a Revista Alterosa do Diário das Minas, ou a Rádio Inconfidência. Foi ainda presidente da Editora Saga do Rio de Janeiro.
Sempre do lado da Resistência Democrática, José Aparecido de Oliveira, foi Secretário de Estado, Ministro e Embaixador.
Mas a sua grande obra foi seguramente a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). É por ela que o seu nome será perpetuado no concerto das nações do Mundo Lusófono.
Em entrevista a José Alberto Braga (Revista Lusofonia - Julho de 1996) lembrava José Aparecido de Oliveira que " O Português é a lingua oficial mais antiga da Europa. Portugal foi o primeiro país do Ocidente a decretar a redacção de suas leis e regimentos e a apresentação de suas aulas universitárias em Coimbra, na língua popular. Foi uma decisão de D. Dinis, ainda no tempo em que todos os documentos oficiais dos reis da Inglaterra, da França, da Espanha, como dos príncipes da Itália e da Alemanha, só eram comunicados ao povo em Latim. Uma língua como a nossa, com um milénio de tradição, fundada sobre uma História e uma Literatura, não estará ameaçada de extinção.
(...)
Quem tem 200 milhões de homens falando uma Língua, e em todos os continentes, tem por certo uma afirmação de força e de poder na cena internacional."
Nessa mesma entrevista José Aparecido avisava já para as tarefas que o lado prático da CPLP impõe: troca de experiências cientificas e técnicas; exercício da influência lusófona no horizonte do mundo; dar prioridade às vertentes económicas e sociais, por serem essenciais para o desenvolvimento comum e sugeria a criação dum Banco de Desenvolvimento no seio da CPLP. Para tudo isto indicava o caminho:" O facto é que para prosseguir, temos de promover o debate e a avaliação crítica em cada um dos Estados membros."
Os avisos do "Pai" da CPLP aqui ficam. Que nos lembremos sempre dos seus conselhos é a melhor forma de honrar a sua memória. Ele concluiu uma obra. Continuá-la, cabe-nos a nós todos.
Hoje José Aparecido está lá no assento etéreo, na companhia, entre muitos outros de Luis de Camões e do Padre António Vieira. Todos em alegre bate-papo, mas atentos ao que nós fazemos das suas heranças.
Dizia Carlos Drummond de Andrade:
"Mas as coisas findas,
Muito mais que lindas,
Essas ficarão".

acs

terça-feira, outubro 23, 2007

11. ARMILA D'A ACÇÃO

POR UMA CPLP COM VIDA

ABREU E LIMA

Ao Capitão Abreu e Lima
Concedram estranha honra:
Ele foi convidado a ver
Fuzilar o pai, Padre Roma.

O Capitão Abreu e Lima
Ante a distinção concedida
Se foi de quem a concedeu:
O rei e o vice da Baía.

Se foi para a Venezuela,
Vestir a farda de Bolívar:
Não era a sua, mas pregava
Uma independência com vida. (1)

Ao reler este poema do grande poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, dei comigo a conversar com os meus botões, caindo de novo, na temática da CPLP. Os poetas são assim: permitem-nos divagar e fazer comparações.
Aquando dos Descobrimentos Portugueses, rasgámos auto-estradas mar adentro e chegámos a tudo o que era sítio. Que teria escrito o Padre António Vieira se não tivessemos descoberto o Brasil? Seguramente que grande parte da sua obra teria sido muito diferente... Unindo povos de África, da Ásia e da América, num transplante e fusão de culturas, que tendo por elo o elemento cultural português, foi o mais notável fenómeno antropológico que o mundo já conheceu. A isto Gilberto Freire chamou o luso-tropicalismo, teoria antropossociológica hoje transformada em matéria universitária.
É este património RIQUÍSSIMO E ÚNICO que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem de preservar. Não me canso, pois, de dizer que nos cabe a nós cidadãos (É A TAL COISA DOS DIREITOS DE CIDADANIA DE QUE TANTO NOS ESQUECEMOS) forçar a tecla e obrigar os políticos, que nós elegemos, e os homens que lideram a CPLP, a levar a cabo acções concretas, nas áreas cultural, social, económica e mesmo política...
A CPLP está estatutariamente obrigada a dar continuidade a este património comum e que pertence a todos os países que a integram. No mundo globalizado em que vivemos (e que se iniciou com os Descobrimentos Portugueses) outra coisa não se entende.
Não nos forcem os políticos, a ser um novo Capitão Abreu Lima, obrigando-nos a vestir a farda de Bolívar, para defendermos a vida da CPLP.

acs.

(1) JOÃO CABRAL DE MELO NETO, in A ESCOLA DAS FACAS

terça-feira, outubro 16, 2007

10. ARMILA D'A ACÇÃO

OS PORQUÊS DA CPLP

Em entrevista ao Diário de Notícias de 20.VII.1986, Agostinho da Silva afirmou: " Ou os homens de Língua Portuguesa inventam qualquer coisa, criam qualquer coisa que tire o mundo da confusão em que está hoje, da escuridão em que vive quase toda a gente - escravidão de várias espécies - e as liberta para uma vida que seja verdadeiramente humana, e até mais do que humana, ou, então, o papel dos homens de Língua Portuguesa vai ser muito restrito no mundo. E é capaz de aparecer alguém a tomar esse encargo. Gostaria muito que fossem homens de Língua Portuguesa a terem uma mensagem que fosse válida para a Europa, porque, coitada da Europa!, não tem mais nenhuma mensagem para dar".
O certo é que, como Agostinho da Silva profetizava, o homem capaz de "tomar esse encargo" apareceu. José Aparecido de Oliveira, é o seu nome. Agarrando na ideia há muito teorizada por intlectuais como o luso-tropicalista Gilberto Freire, Almerindo Lessa, Darcy Ribeiro ou Adriano Moreira, José Aparecido de Oliveira tomou nas mãos a tarefa de pôr de pé a Comunidade dos Países de Língua portuguesa.
Aquilo que aprioristicamente seria fácil, tornou-se em missão difícil e espinhosa para este homem teimoso (da boa cepa transmontana) que topando em quase todas as esquinas com escolhos de toda a ordem, nunca soube aceitar um NÃO. Este homem brasileiro, que gosta de dizer que é "um português nascido no Brasil", de cada dificuldade fez um alento, do alento uma determinação, da determinação uma convicção e da convicção uma persuasão. Persuadidos que foram os políticos dos países de Língua Portuguesa, deu-se forma à ideia de José Aparecido de Oliveira e institucionalizou-se a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Deveria ter sido Aparecido de Oliveira - "uma verdadeira máquina de fazer amigos", no dizer de José Alberto Braga (1), a dar continuidade ao projecto, para que a CPLP arrancasse com pujança. mas os políticos, não lho permitiram: "Lançou a CPLP (...)Trucidaram-lhe a oportunidade de conduzir o projecto", afirmou António Valdemar(1), talvez porque como diz Alípio de Freitas ele "tem a obstinação e o sentido de urgência da História" (1).
É a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, um instrumento único para o desenvolvimento social, económico e mesmo político dos países da CPLP, já que assenta em valores culturais e está alicerçada no melhor de todos eles: a Língua Portuguesa, como elemento de unidade e entendimento. Para tal torna-se imperativo confiar os destinos da CPLP à dedicação de pessoas que sejam capazes de a pôr em funcionamento, sem a mesquinhez das tricas políticas.
E não tenhamos receio de dizer as verdades: Se, desde o início, a CPLP tivesse funcionado como deveria, em todas as vertentes - linguística, cultural, social e económica, a Guiné-Bisssau, não estaria como hoje está...
acs

(1) JOSÉ APARECIDO-o homem que cravou uma lança na lua-Tinova Editora-Lisboa-1999

quinta-feira, outubro 11, 2007

9. ARMILA D'A ACÇÃO

AVANTE COM A CPLP
...Ainda e Teimosamente
A Língua Portuguesa que, no dizer de Francisco Rodrigues Lobo, " para falar é engraçada com um modo senhoril; para cantar é suave, com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas, nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para a História, nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias" (1), a Língua Portuguesa, dizia, tornou-se ao longo dos séculos, de entre todas as línguas que por transplantação se espalharam pelo mundo, a que melhor soube ser o elo aglutinador da identidade cultural e nacional dos países nascidos da colonização portuguesa.
"A língua é um dos elementos da nacionalidade; pugnar pela vernaculidade daquela é pugnar pela autonomia desta"(2), dizia o grande linguista José Leite de Vasconcelos, como que em resposta a Cícero, quando este afirmava interrogativamente: "Que força maior pode separar e congregar os homens do que a língua?"(2).
A Língua Portuguesa é o melhor e mais valioso elemento da nossa cultura comum. Enquanto sobre a terra houver um único homem que fale português, a Língua Portuguesa está viva.
Temos, no entanto, que estar atentos aos graves atropelos e à influência hegemónica da língua inglesa, pois ao deixarmo-nos influenciar pelo império da língua inglesa, corremos o risco de nos acontecer o mesmo que ao Latim, que é hoje uma língua morta, por se ter deixado influenciar, em demasia, por outras línguas locais.
Afirmei há tempos que "aquando dos Descobrimentos Portugueses, a Língua Portuguesa viajou a bordo das caravelas e aportou em tudo o que era sítio nos cinco continentes. Pelo fenómeno da aculturação influenciámos várias línguas. Se é verdade que a Língua Portuguesa tem em Portugal a sua Pátria, ela hoje não é propriedade exclusiva dos portugueses, pertence aos povos de todos os países lusófonos". (3)
Isso mesmo o terá entendido o presidente dos E.U.A., John Kennedy, quando premonitoriamente, em 1962, na sua Mensagem ao Congresso, considerou ser o Português uma das línguas mais importantes do mundo moderno. Estranho é o facto dos nossos políticos (por pedantice barata), nos areópagos internacionais, habitualmente se fazerem entender utilizando uma língua que lhes é estranha.
Cabe-nos pois, a todos, defender e difundir a Língua Portuguesa em todo o mundo (e no nosso dia-a-dia), até porque ela é, a um só tempo, o alicerce e o elo, a raiz e o tronco da Comuniodade dos Países de Língua Portuguesa.

acs

(1) CORTE NA ALDEIA - Francisco Rodrigues Lobo - Lisboa - 1619
(2) QUESTÕES DA LÍNGUA PÁTRIA (vol.1-2ª Edição)-Xavier Fernandes - Edição Álvaro Pinto (Ocidente)-Lisboa s/d-SLP cota 1102
(3) A UNIVERSALIDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA - António Correia Samouco - Comunicação ao Congresso Internacional "LUSOFONIA A HAVER", Lisboa 25-11-99

terça-feira, setembro 25, 2007

8.ARMILA D'A ACÇÃO

EXIJAMOS UMA CPLP ACTIVA

No último número desta Armila, afirmei (e repito) que a CPLP tem estado adormecida e inactiva por culpa dos políticos. Mas a culpa não lhes cabe toda. Os mais culpados somos todos nós, cidadãos dos países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que continuamos a votar sempre nos mesmos partidos, cuja política já conhecemos sobejamente.
Um grande passo deu o Brasil. O Brasil governado por Lula da Silva, parece ter entendido que via CPLP pode entrar mais facilmente nos mercados europeus e africanos, tendo criado, já em Janeiro de 2006 a Embaixada do Brasil junto da CPLP. Ultrapassadas as burocracias normais, a embaixada entrou em funcionamento em Agosto do ano passado, com a chegada do Embaixador Lauro Moreira, um homem da cultura (tal como José Aparecido de Oliveira) mas com uma visão estratégica para a área económica.
É isto que todos os países deveriam fazer. Junto da CPLP é brasileira a única embaixada... Porém a própria CPLP deveria ter uma embaixada junto dos governos de cada país membro da Comunidade, da União Europeia e da ONU. A esses embaixadores, então exigir-se-ía serviço. Dir-me-ão que são mais uns poleiros para alguns. Não vou por aí. Cada embaixador teria que mostrar serviço. Com todos a pensar e trabalhar, a CPLP dinamizar-se-á.
No caso da Embaixada do Brasil, os resultados ainda não estão à vista (o que é normal por ser muito recente) mas parece que o Embaixador Lauro Moreira está a trabalhar a sério.
Iniciou-se ontem, 24.9.07 em Moscovo, a I Semana da Língua Portuguesa, por iniciativa das embaixadas de Portugal e do Brasil na Rússia e do Instituto Camões. Trata-se duma feliz iniciativa. Mas iniciativas como esta podem e devem ser levadas a cabo pela CPLP, pelo que para o efeito terá que se apresentar ao mundo.
Cabe-nos a nós, cidadãos da CPLP, pressionar os nossos governos e a própria CPLP, para que tenhamos uma Comunidade activa, desenvolta, moderna e que APRESENTE RESULTADOS. Agora com a internet, não nos é difícil chegar junto de qualquer ministro de qualquer governo. Quanto mais mensagens electrónicas eles receberem, mais se sentirão pressionados e obrigados a fazer qualquer coisa.

acs

terça-feira, setembro 18, 2007

7. ARMILA D'A ACÇÃO

A TRISTE SINA DA CPLP
(Ou a incomptetência dos políticos)

Fundada em 17 de Julho de 1996 a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pela sua inoperância parece que não existe e quase é desconhecida pelos povos dos países que a integram.
A sua fundação deve-se ao denodo de José Aparecido de Oliveira, notàvel figura do pensamento brasileiro, que levou os políticos dos países lusófonos a curvarem-se perante a força e a evidência dos seus argumentos. Aparecido de Oliveira, que conheci em Lisboa e com quem mantive agradáveis conversas, afirmou que "a comunidade sempre existiu, faltava apenas dar-lhe forma". O certo é que se deu forma jurídica aos sentimentos dos povos lusófonos, mas a Comunidade, enquanto instituição, ainda não saiu da cepa-torta, estando adormecida à sombra de uma qualquer bananeira.
O poeta e cantor brasileiro Caetano Veloso escreve (e canta) nos seus versos: "Gosto de sentir a minha língua a roçar/A Língua de Camões". É isto que todos nós, portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, guineenses, cabo-verdeanos, timorenses e santomenses sentimos. Até agora nenhum Secretário-Executivo da CPLP o entendeu. Nem mesmo a brasileira Dulce Pereira que em 2000 foi nomeada para o cargo na III Cimeira da Comunidade. Afirmou então Dulce Pereira que pertencia "a uma geração que travou batalhas duras". Com estas palavras lançou um sopro de esperança. Mas que fez ela? ZERO.
Quero aqui recoradar (em amiga homenagem à sua memória) o professor, o intlectual, o escritor, o diplomata português José Augusto Seabra que em conferência na Sociedade da Língua Portuguesa, a propósito dos 40 anos desta instituição afirmou em 1989: "Num contexto em que a afirmação das identidades e das altertidades culturais se acentua, como resistência à hegemonia do inglês que as língiuas latinas esboçam, é importante que sejamos capazes de promover insistentemente o uso do Português nas nossas relações internacionais, quer bilaterais, quer multilaterais, a todos os níveis, desde as relações culturais e científicas, sociais e mais propriamente políticas".
Neste segundo semestre de 2007, como se sabe, cabe a Portugal a presidência da União Europeia. Em boa hora a Presidência Portuguesa incluiu na agenda duas cimeiras. Uma com o Brasil que já se realizou e outra com África que ocorrerá em Dezembro. Para ambas as cimeiras, a CPLP foi esquecida. A culpa é dos políticos portugueses e do actual Secretário-Executivo da CPLP que não foi capaz de levantar a voz e afirmar categoricamente que a CPLP também devia participar (por direito próprio)nas cimeiras, ou então exigir uma cimeira específica com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Faz todo o sentido um acordo entre a CPLP e a União Europeia, pois a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para além da defesa e divulgação da Língua Portuguesa, tem outros objectivos: os direitos nas áreas social, cultural, económica, de cidadania e de participação política. Aliás, na Cimeira de Maputo, a III da CPLP, foi aprovado o Estatuto da Cidadania Lusófona. Na prática, a aprovação deste estatuto deu em quê? Em nada. Aqui está um exemplo do nada que foi feito pelos Secretários-Executivos da CPLP que deviam fazer passar para a legislação interna de cada país a letra e a forma do então acordado. Pelos vistos as cimeiras só servem para discursos bonitos e exibição dos políticos. Mais nada.
Relativamente à União Europeia, estabelecido um protocolo, todos teriam a ganhar, pelo menos na área económica e na área da cidadania.
Urge pois, pôr a CPLP nas mãos de pessoas competentes que lhe emprestem dinamismo e acção .

acs

quinta-feira, setembro 13, 2007

6. ARMILA D'A ACÇÃO

MEMÓRIA

ALBERTO LACERDA
O GRANDE ESQUECIDO

Poeta português de origem moçambicana, nascido na Ilha de Moçambique em 29 de Setembro de 1928, Alberto Lacerda faleceu no passado dia 26 de Agosto na cidade de Londres, onde vivia (solitário e apátrida) desde 1951, ano em que se estreou com obra em volume - "Poemas" (Cadernos de Poesia nº 8-II série). Em 1955 edita em Londres (em edição bilingue, com tradução de Arthur Waley) o livro 77 Poemas.
Alberto Lacerda foi (e é, pois a sua obra aí está) um dos maiores poetas da literatura em Língua Portuguesa e, também, um dos mais ignorados. Eugénio Lisboa disse, um dia, que Alberto Lacerda "é um poeta que celebra, em cada curva do seu discurso, o esplendor da língua e o fulgor da vida". Esta frase é, talvez a que melhor sintetiza o grande poeta.
Lembremos que ele considerava a Língua Portuguesa e a cidade de Londres como suas "pátrias". No livro Exílio (1963) dizia: "Esta língua que eu amo/Com seu bárbaro lanho/Seu mel/Seu helénico sal/E azeitona/Esta limpidez/Que se nimba/De surda/Quanta vez/Esta maravilha/Assassinadíssima/Por quase todos que a falam".
Esteve no Brasil (1959-1960) onde proferiu conferências em várias universidades, instalou-se nos Estados Unidos entre 1967 e 1969, onde foi professor nas universidades de Austin, Columbia e Boston, sempre com passagens regulares por Portugal. Londres era a sua cidade de eleição, onde viveu a maior parte da sua vida.
Alberto Lacerda conviveu com grandes nomes da intlectualidade literária mundial, como Ruy Cinatti, Raul de Carvalho, Luis Amaro, António Ramos Rosa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Marianne Moore, Thom Gun, David Hockney, Edith Stilwell ou T.S. Elliot.
Foi notável a sua entrevista, no início deste verão à RTP2 (Válha-nos a RTP2!...) Foi talvez a sua última entrevista. A notícia da sua morte passou ao lado da generalidade dos orgãos de informação... Mas a sua obra aí está. Dela destaco: Oferenda I e II, Elegias de Londres, Meio-Dia, Exílio, Sonetos, Lisboa e os já citados 77 Poemas.

acs

quarta-feira, junho 20, 2007

9- ARMILA LINGUÍSTICA

SENSIVELMENTE


Ainda não entendi porquê, mas o certo é que anda por aí, no linguajar do nosso quotidiano, a propósito de quase tudo e quase nada a expressão "SENSIVELMENTE, CERCA DE..." , em frases como "isto aconteceu SENSIVELMENTE, CERCA DAS duas da tarde", ou "isso será SENSIVELMENTE, POR VOLTA DAS dez horas".
SENSIVELMENTE, aqui surge-nos com o sentido de rigor e de perceptibilidade, enquanto que CERCA DE e POR VOLTA DE, mais não querem dizer do que APROXIMADAMENTE.
Devemos dizer tão-só SENSIVELMENTE às tantas horas, se pretendermos ser exactos e CERCA DAS tantas horas, se pretendermos dar uma ideia aproximada de quando o facto ocorreu ou vai acontecer.

acs

5- ARMILA D' A ACÇÃO

AS CONTRIBUIÇÕES FINANCEIRAS PARA A UNIÃO EUROPEIA

Na sua edição nº 745 de 14-06- 07 (pág. 37), a revista Visão dá-nos notícia de um estudo feito pela consultora Deloitte, por encomenda do Parlamento Europeu e que foi agora divulgado.
Ficamos assim a saber que, em função do PIB, Portugal é o país que mais conribui para o orçamento da União Europeia. Assim, e segundo os exemplos dados pela Visão, Portugal contribui para a União Europeia com 0,96% do seu PIB, enquanto que a Espanha comparticipa com 0,93%, a França com 0,91%, a Alemanha com 0,78%, o Luxemburgo com 0,72% e o Reino Unido com 0,54%.
A revista Visão adianta ainda a opinião do deputado socialista Paulo Casaca, que pertence à Comissão dos Orçamentos do P E, segundo a qual os dados traduzem "um sistema perverso, em que os países mais pobres são os que mais pagam e os mais ricos os que menos pagam".
Parece que os políticos, finalmente, tomaram conhecimento duma realidade que os povos europeus há muito conheciam; talvez não pelo dado rigoroso dos números, mas pela brutalidade do custo de vida que sentem no seu quotidiano.
Se o P S pela voz do seu deputado Paulo Casaca, reconhece a imoralidade do sistema, numa Europa que se pretende social, cabe perguntar que vão fazer agora que, com o PS no Governo, Portugal vai assumir a presidência da União Europeia? Será que irão corrigir o que PS, PSD e CDS, em alternância, têm vindo a fazer ao longo dos anos?
Dou um doce a quem, convictamente, acreditar nisso.
acs

quarta-feira, junho 13, 2007

16. ARMILA LITERÁRIA

A VOZ DOS POBRES


Este modo de sentir, em que havia mais leviandade do que dureza, tem sido, nestes últimos anos, inteiramente modificado, louvado seja Deus, e louvado seja Paris. Muitas causas determinaram esta evolução, que é uma considerável revolução moral. Mas a principal é que o pobre saiu do seu obscuro e silencioso opróbrio, apareceu como classe, revelou a sua força e falou. Apesar de todas as revoluções, o pobre, em França, permanecera sempre, de facto, calado. Ainda em 1848, durante um período aliás repassado de hunanitarismo sentimental, se gritava na Assembleia Nacional e com apluso de todas as classes: "Silêncio ao pobre!" O pobre era um mudo, que passava isoladamente na sombra e de olhos baixos. De vez em quando, furioso, roubava uma espingarda, e assaltava a sociedade. O exército acudia, sufocava a escandalosa revolta. A sociedade respirava, e continuava o jantar interrompido, declarando com indignação que o pobre era uma fera. E o pobre, como uma fera, recolhia silenciosamente ao seu covil.
O seu primeiro triunfo foi quando, em vez de se revoltar, se começou a exoplicar, tranquilamente, como um ser sensato e cheio de justiça. Esta voz, triste e profunda, impressionou, foi escutada.
O rico só desde então verdadeiramente conheceu o pobre - começou a saber o que é ser pobre. As duas classes viviam totalmente separadas, uma no seu escuro inferno, outra no seu vistoso paraíso - e os paletós bem alcochoados, só tinham uma noção muito vaga de que havia farrapos, por os avistar de longe, na rua e na penumbra. Em Londres, há dez ou doze anos, foi uma tremenda surpresa quando, por ordem do Parlamento, se fez um demorado inquérito aos slums, os bairros indizivelmente miseráveis, onde vive, ou antes, onde lentamente morre a mais desgraçada, faminta e lúgubre populaça de toda a Europa. O quê!
Havia pois famílias que andam quase nuas, e dormem durante os mais duros Invernos na terra húmida, e comem apenas as hortaliças podres que são apanhadas à noitinha no lixo e nos enxurros, à roda dos mercados. A gente que tem uma conta larga no alfaiate, e é muito difícil na escolha do seu champagne, não podia acreditar que na rica Londres do SEC. XIX houvesse tais vergonhas públicas. E o sentimento geral, mesmo entre os mais duros, foi que misérias tão dolorosas se não deviam permitir numa terra cristã.

EÇA DE QUEIROZ - Cartas Familiares de Paris

quarta-feira, abril 18, 2007

4 - ARMILA D' A ACÇÃO

O PROTOCOLO DE QUIOTO E O GOVERNO PORTUGUÊS

Na sua edição de 22 de Março de 2007, num artigo de Alexandra Rosa, Luis Ribeiro e Sara Sá, a Revista Visão noticia que a Austrália proibiu, no passado mês de Fevereiro, a iluminação com lâmpadas incandescentes, sendo estas substituidas por lâmpadas fluorescentes compactas (LFC). Espera assim, emitir menos 800 mil toneladas de CO2. E Portugal? As lâmpadas incandescentes por aí andam alegremente contaminando o ambiente, sem que o Governo proiba o seu fabrico, a sua importação e a sua comercialização. Ao invés, parece, segundo me disse o dono da casa onde costumo comprar lâmpadas e outros produtos eléctricos, o Governo português prepara-se para aumentar o preço das lâmpadas incandescentes, com a alegação de que é para proteger o Meio Ambiente e cumprir o Protocolo de Quioto. A ser verdade que há de mais hipócrita? Isto apenas servirá para aumentar as receitas do IVA. O correcto seria banir as lâmpadas incandescentes e promover a venda das lâmpadas fluorescentes compactas baixando o preço, pois a procura será obrigatoriamente maior. Podemos todos encher os endereços electrónicos do primeiro-Ministro e do Ministro do Ambiente, com mensagens neste sentido.
acs

15-ARMILA LITERÁRIA

A ATITUDE DA EUROPA
(Hoje tal como no tempo do Eça)
Não falemos mais na Europa. Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um por seu turno se adiante - e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto do seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do Direito Internacional, alumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta e rompem a cada momento brados de povos assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: Beweare of pick-pokets! (Cautela com os salteadores!)
A pequena propriedade política tende a acabar. Toda a terra vai em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietérios... Ontem, era Tunis - porque a França necessita proteger a fronteira da Argélia. Hoje é o Egipto, porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da Índia. Amanhã, será a Holanda - porque a Alemanha não pode viver sem colónias. Depois, a Sérvia - por motivos que a seu tempo a Áustria dirá. Mais tarde, a Roménia - porque a Rússia é forte. Depois a Bélgica - porque sim. Depois...
Este assunto é lúgubre. Voltemos ao vale do Nilo!
Eça de Queiroz, in Cartas de Inglaterra

segunda-feira, março 26, 2007

13.ARMILA LITERÁRIA

O "MIANTONOMAH"

O nosso mundo europeu é também uma estranha amontoação de contrastes e destinos; é uma época esta anormal em que se encontram todas as eflorescências fecundas e todas as velhas podridões; políticas superficiais; grandes fanatismos: e ao mesmo tempo um desafogo das livres consciências, expurgação dos velhos ritos, e a alma moderna ligada na sua moral e na sua justiça às almas primitivas com exclusão da Idade Média; políticas pacíficas e transigentes, e um espírito de guerra surdo, aceso e flamejante: territórios violentados e conquistados, e a aniquilação pela política, pela história e pela filosofia dos conquistadores e dos heróis: nem são as influências monárquicas, nem é o individualismo; nem é o humanitarismo, nem são os políticos egoístas, não é a importância das individualidades, nem a importância dos territórios; é uma confusão horrível dos mundos, e, em cima, triunfal e soberba, está a indústria, entre a música dos metais, as arquitecturas das Bolsas, reluzente, cintilante, colorida, sonora, enquanto no vento passa o seu sonho eterno que são fortunas, impérios, festas, empresas, parques, serralhos.
Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, justo, bom, livre, move-se em germe um novo mundo económico.

EÇA DE QUEIROZ in Prosas Bárbaras

quarta-feira, março 07, 2007

13. ARMILA LITERÁRIA

TRÊS AMERICANOS

... O primeiro é dos estados do Sul, da Carolina ou da Luisiana. O Sol deu-lhe mais ênfase meridional, é o mais rápido, o mais flexível, o mais pomposo; vai como a coberta de um paquete: os braços parecem duas velas suplementares, e o charuto fumega-lhe como um cano.
...
O outro do Norte - grosso, vermelho, forte, leva em si todo o orgulho da América. Sente-se cheio de honra de ser um cidadão dos Estados Unidos. É por isso que entende que se deve dar a todos os deveres civis da união; é brucheiro, fundou uma escola ou um clube, odeia a Inglaterra, masca o inglês...
...
O outro, de barbas brancas, cabelo comprido e caído em roda da cabeça, como a aba dum capacete, é do Canadá; raça que pretende ter teorias: é dissidente no protestantismo, mas espalha Bíblias. Ocupa-se sobretudo de estatísticas.
...
Três são. Uma coisa têm de comum - a individualidade, o myself. Eu mesmo, eu cidadão americano, de resto nada. Outro ponto de contacto: nunca se esperguçam. De resto, com toda a sua civilização, a sua riqueza, o seu ouro, o seu myself, o seu ruído sobre o planeta, a sua intimidade com Deus, não seriam capazes, todos juntos, desde o Canadá até Filadelfia, desde o presidente Grant até ao Negro, que agora geme atrelado ao algodão, de fazer um verso deMusset, ou um desenho de Delacrix. E têm outra desgraça: assoam-se muito.
De resto são magníficos.

Eça de Queiroz - Notas contemporâneas

8. ARMILA LINGUISTICA

FAIR PLAY

Anda muito em voga, como se de palavra portuguesa se tratasse, o termo fair play. Anda tanto em uso que até já passou do linguajar desportivo para o linguajar político e até económico.
Com o andar dos tempos os off-sides, os corners, os forwards, etc. deixaram de fazer parte da linguagem desportiva e foram adoptados termos em Língua Portuguesa.
Quanto ao FAIR PLAY, até os analfabetos sabem o que quer dizer, graças à força da televisão, o que não o sendo, se torna grave pois não utilizam a língua materna em favor da estranha. Tal como nos exemplos que acima referi, pareciam palavras de difícil adaptação à nossa língua, por parecerem ter um cunho inteiramente inglês, mas foram banidas do nosso linguajar e hoje é em Português que nos entendemos. Mas então como dizer FAIR PLAY na nossa língua? Basta consultar um qualquer bom dicionário de Inglês/Português, como, por exemplo o NOVO MICHAELIS que diz: FAIR PLAY - jogo limpo, conduta equitativa, rectidão, honestidade.
Que as gentes do desporto (em particular do futebol) e os jornalistas, que devem dar o exemplo e fazer serviço público, dobrem a língua e falem Português.
acs

domingo, fevereiro 25, 2007

3. ARMILA D'A ACÇÃO

CARTA ABERTA
À MINISTRA DA EDUCAÇÃO E AOS PROFESSORES

Mão amiga fez-me chegar esta redacção de um aluno:

Transcrição:
" Grupo IV - EXPRESSÃO ESCRITA
Num texto bem estruturado e linguisticamente cuidado, com um mínimo de 10 linhas, exprime a tua opinião sobre o papel da escola na formação de um cidadão.

O papel da escola eu axo que é igual a um papel qualquer de imprensa de A4. E de certeza que é, tem a mesma grossura e tudo. Agora se estão a falar, por exemplo, das folhas de teste que é uma folha A3 duberda ao meio fazendo duas folhas A4, axo melhor que as folhas de teste sejam assim do que só uma folha A4 ou de formato A5. Os testes das professoras metem sempre folhas de formato A4 mas quando são mais as professoras agrafam sempre as folhas e nunca fazem testes com folhas formato A5. Por isso eu axo que as folhas desta escola são iguais às das outras escolas ou de outras empresas."

Gostaria de terminar aqui dizendo apenas: SEM COMENTÁRIOS! Mas não resisto a acrescentar mais alguma coisa.

Pelo que parece trata-se dum aluno do Ensino Primário, quiçá da 3ª Classe; mas mesmo que seja da 4ª tanto faz. Será que se pode exigir (ou pedir) a um aluno, com a idade que este (pela letra e pelo texto) aparenta ter, que saiba o que quer dizer PAPEL, para além daquele objecto onde ele escreve e onde ele lê? Será que um aluno desta idade já tem (ou já deve ter) um vocabulário tão rico que o leve a saber que PAPEL pode ser a língua falada pelos Papéis ( um povo da Guiné-Bissau / a parte que um actor desempenha no teatro ou no cinema / a personagem representada pelo actor ou actriz / as funções ou as atribuições / a maneira de proceder, ou a figura que se faz na sociedade ou na vida pública / dinheiro em notas / título ou documento representativo de valor / escândalo ou cena vergonhosa ou pouco digna que não corresponde à posição da pessoa que o faz ou da família a que pertence; que no plural pode significar o nome dado em conjunto aos passaportes e outros documentos que comprovam a identidade de alguém / o conjunto de documentos que constituem um processo burocrático / panfletos e publicações que se distribuem em quantidade, etc. etc. etc. ?

Será que uma criança desta idade já tem um vocabulário suficientemente rico para saber tudo isto e o mais que a palavra PAPEL, significa? Assim vai o ensino em Portugal, titulado por um ministério que se chama da Educação e antes se devia chamar da INSTRUÇÃO, já que EDUCAÇÃO é outra coisa.
Agora sim: SEM MAIS COMENTÁRIOS. Ponto final.

acs

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

7. ARMILA LINGUÍSTICA

SAMATRA - MALUCAS - FLORIDA


Aquando da epopeia dos Descobrimentos, tocámos os quatro cantos do mundo. A bordo das caravelas, levámos a Língua Portuguesa a todos os sítios por onde passámos, mas pelo extraordinário fenómeno da aculturação (neste caso aculturação linguística) também trouxemos palavras novas. São as palavras de ida e volta; as palavras de "torna- viagem".

Fixemo-nos hoje apenas em três palavras, porque andam na actualidade jornalistica mal grafadas e mal pronunciadas.

Do Oriente, com as especiarias, trouxemos o nome da ilha de SAMATRA, que na nossa literatura e nos escritos oficiais, assumiu laivos de frescura e alegria. Os ingleses, que andavam sempre no nosso encalço, acolheram a palavra e para a adaptarem e pronunciarem, escreveram a primeira sílaba SU, para darem o som de Sa-matra. Em Portugal temos a pedante (!) mania de copiar tudo o que seja estrangeiro (sobretudo inglês e americano) e lá se foi dar ao disparate do erro de escrever e pronunciar SUMATRA, forma anglicizada da primeira, da original, da portuguesa SAMATRA. Digamos pois e escrevamos, SAMATRA.

Outrossim trouxemos do Oriente a palavra com que baptizámos as longínquas ilhas MALUCAS. Pelas mesmas razões os ingleses a grafaram na sua língua para se adaptarem à pronuncia portuguesa com a forma de MO-lucas. Passemos pois a pronunciar e a escrever MALUCAS.

Quanto à FLORIDA, este nome foi-lhe dado pelos espanhóis, por ser uma região florida, e por ter sido descoberta por ocasião da Páscoa Florida. Nós, portugueses, que tambem andámos por aquelas paragens, chamámos-lhe igualmente FLORIDA, termo genuíno e castiço, que os americanos no SEC. XIX, quando se assenhorearam daquela região e dela fizeram mais um estado da sua União, não sabiam como pronunciar bem o nome à espanhola, começaram a chamar-lhe, na pronuncia inglesa, FLÔRIDA (FLÓRIDA). Em Espanha continuam, e muito bem, a dizer FLORIDA, e até os franceses dizem Floride (Flôride). É tempo de, em Portugal, voltarmos a pronunciar e a escrever FLORIDA, pois esta é a forma correcta em Língua Portuguesa.
acs

quinta-feira, janeiro 25, 2007

6. ARMILA LINGUÍSTICA

INDOCHINÊS E INDO-CHINÊS

Anda aí, na nossa imprensa, uma grande confusão (para não dizer ignorância), a que importa pôr cobro.

Refiro-me às notícias que surgem relativamente ao poderio económico da Índia e da China, que o resto do mundo não consegue acompanhar. Que a China seja o maior credor mundial dos E. U.A., pois possui a maior reserva mundial de dólares americanos e é o seu principal financiador económico, isso é lá com eles, mas nós é que pagamos as favas...

Porém o que aqui nos interessa são os vocábulos em título: INDOCHINÊS e INDO-CHINÊS. Referindo-se a estes dois potentados económicos, tecnológicos e científicos, lemos na nossa imprensa com regularidade estes dois vocábulos aplicados indistintamente em frases como esta: "As economias indochinesas,..." , "As economias indo-chinesas,..." . Isto conforme o apetite de quem escreve!...

Ora INDOCHINÊS e INDO-CHINÊS, são duas palavras que podem funcionar como adjectivos: a primeira para significar "relativo ou pertencente à Indochina" e a segunda "relativo à Índia e à China"ou "relativo aos Hindus e aos Chineses". A primeira (Indochinês) pode ainda funcionar como substantivo para designar aquele que é "natural ou habitante da Indochina".

As flexões destes vocábulos são simples: indochinês, indochinesa, indochineses, indochinesas; indo-chinês, indo-chinesa, indo-chineses e indo-chinesas.

Importa não confundir os sentidos destes dois vocábulos. E quem escreve na imprensa diária ou semanal, tem obrigação de não cometer tão grosseiro erro.
acs

12. ARMILA LITERÁRIA

RELÓGIOS FALANTES


RELÓGIO DA ALDEIA:- Daí vem que das cousas que há no mundo mais falado são horas, porque não há cousa na boca dos homens fremente como "em boa hora", "em má hora", "ide com as horas más", "vinde com as horas boas", "uma hora muito formosa", "nas horas de Deus", "logo nessas horas", "as horas peremptórias", "as horas sucessivas", "são horas", "a que horas", "a desoras", "fora de horas", e outros mil modos de dizer, como se a gente em nenhuma outra cousa, que nas horas, empregasse o sentido. Até os matemáticos dizem que chamam horas planetárias; até os físicos, críticas; e até os poetas lhe chamam negras.

RELÓGIO DA CIDADE:- As cores das horas lhes dão sucessos, como já foi costume de alguma gente antiga, que, aos dias alegres e ditosos, contavam com pedras brancas, e, aos tristes e desgraçados com pedras negras. Ainda hoje nas confrarias se usa dar os votos na cor das favas, para encobrir a dos corações; e, para dizer "sim" ou "não", tem as brancas por afirmativa e, por negativa, as negras. Porém, nós todos as ministramos de uma mesma cor. A superstição dos homens lhas pinta como quer, porque, não contentes de serem tintureiros de afectos, o querem também ser das horas e cada um as tinge à sua vontade...

D. Francisco Manuel de Melo, in Apólogos Dialogais - Relógios Falantes